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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Airton Monte - O espelho de Alice - 1 de Dezembro 2011

Esse negócio de que amanhã será outro dia por vezes me soa como a mais lídima das verdades contidas nos ditados populares que crescemos ouvindo da boca de nossos pais e que o futuro a Deus pertence. De outras, me parece não passar de uma pura balela que inventamos para amenizar os nossos problemas e as nossas humanas dificuldades. Para mim, que sou naturalmente dotado de um certo ceticismo em relação à sabedoria do sofrido canelau, o dia é sempre hoje. Porque é impossível parar o correr da ampulheta do tempo, este nosso implacável inimigo íntimo. O amanhã vai nos vai exigir outras soluções e novas atitudes diante do que nos aparecer pela frente, ora para nos alegrar, ora para nos afligir, enquanto estivermos vivos. É justamente para evitar inúteis mortificações causadas pelo se e pelo talvez, duas palavrinhas que detesto, que procuro de todas as maneiras focar, concentrar minha atenção e minhas forças no hoje, porque não sou peru para morrer de véspera.

Falando nisso, hoje tive que ir ao banco, uma viagem que me irrita de todo coração, para tentar resolver algumas financeiras pendências, negociando na medida do possível o prazo para o pagamento de papagaios que já estão quase vencidos. Sei que quanto mais dilato o solver das minhas dívidas, mais fico devendo, eternamente preso num círculo vicioso que inferniza a vida dos indigitados insolventes feito eu. Mas, fazer o quê? Deve-se pagar o que se deve por cima de pau e pedra, nem que seja apelando para o velho jeitinho brasileiro, aprendido desde que nascemos e para a boa vontade do gerente desses entrepostos da agiotagem oficializada dentro dos ditames da lei. E assim, saio de asa sobraçando a pasta com os imprescindíveis documentos necessários à postergação dos juros, que certamente me deixarão com as calças na mão. É por isso que dizem ser mais lucrativo fundar um banco do que assaltá-lo e tal afirmativa não se trata, em absoluto, de uma mera figura de retórica nem piada de salão.

Percorrendo o meu caminho rumo ao meu monetário calvário, vou andando pelas ruas prestando atenção em tudo como se houvesse nascido exatamente hoje, agora, nesse justo minuto. É uma sensação que posso descrever como sendo ao mesmo tempo magnífica e inquietante que nem o primeiro coito (eu bem me lembro e como esquecer?) quando o corpo da primeira mulher possuída com uma feroz voracidade aparece aos nossos olhos deslumbrados como um espantoso abismo de luz, de medo e descoberta. A cidade por onde transito, nesse comecinho nebuloso de tarde, num estado de plena iluminação, nem me parece ser a minha, onde nasci, cresci e à qual estou acostumado a conviver desde a mais tenra meninice. Tudo nela é revelação, encantamento, fascínio, estranhamento, espera. Uma canção imaginária solta pelo ar, uma cidade a cantar seus cânticos de guerra e de paz numa fascinante mistura de amor e ódio.

E partindo do ilusório princípio de que nasci hoje, aqui, agora, nesse instante inesquecível, a cidade inteira me surge como nova, embora velhas e caóticas lembranças me perpassem o pensamento de um recém-nascido já adulto. Sou tudo isso que meu deslumbrado olhar observa, constata, confirma e testemunha enquanto rumo em direção ao banco onde reside a mais dura e cruel das faces da realidade. Palavras ainda não escritas dependuram-se em minhas mãos, peixes debatendo-se na ponta de um anzol, pescados por onde passo e vou, pois sei que estou no que mais tarde escreverei, sem nenhuma dúvida. Uma profusão de personagens me acompanha os passos, em meu febril furor de tudo registrar no cofre da memória. Sinto-me um tanto quanto onipotente. Uma onipotência infantil, escandalosamente ingênua, nesta cidade em que me perco e me encontro. Entro no banco. A cidade perde a graça. Transforma-se numa miragem e rescende ao impossível. A porta giratória do banco é o espelho de Alice visto e atravessado pelo avesso.

Airton Monte - O direito de errar - 30 de Novembro 2011

Apesar do meu parco talento como escritor, geralmente costumo tomar muito cuidado com tudo que escrevo, seja com o que pretendo publicar em futuros livros, seja com estas cotidianas mal traçadas impressas nesse meu cantinho de página de jornal. Sou até um tanto obsessivo quanto a isso. Depois de digitar a crônica, antes de enviá-la ao editor, faço questão de pentear cuidadosamente o texto em busca de possíveis erros cometidos, ou por falha na digitação ou oriundos de minha crassa ignorância da nossa Flor do Lácio inculta e bela, sempre contando com a indispensável ajuda do popular “Pai dos Burros”, porque nunca sei quando vou precisar de seu precioso adjutório. Porém, por mais precauções que se tome, por vezes torna-se impossível evitar algumas falhas e atentados contra o vernáculo, que a gente só vem perceber depois do texto publicado. E aí, não tem mais jeito, porque no meu ofício vale o que está escrito tal e qual acontece no jogo do bicho.

Outro dia, perpetrei dois erros imperdoáveis e dos quais me penitencio antes que algum leitor mais atento me lance a primeira pedra. Não sei onde estava a minha cabeça quando grafei a palavra paçoca com dois esses e parêntese no singular com um esse no final. Sei que errar é próprio da humana condição, mas que direito eu tinha de maltratar tão duramente a nossa já tão maltratada língua pátria? Bons tempos aqueles em que ainda existia a figura do revisor, nosso mais costumeiro bode expiatório e que era sempre o imperdoável culpado pelos nossos erros como os mordomos dos romances policiais eram sempre os primeiros suspeitos do crime. Entanto, com a entrada em cena dos computadores, o revisor acabou sendo extinto pela tecnologia e adeus nossa mamata, nosso salvador muro das lamentações. Sem o indigitado revisor, ficamos entregues à nossa própria sorte não há mais como escapar de nossas aberrações linguísticas.

Ainda me restava uma biológica alternativa, que seria jogar a culpa na minha catarata iniciante, mas logo cheguei à conclusão de que nenhuma doença, por pior que seja, pode ser responsabilizada por nossa obtusidade, nosso desconhecimento da gramática. Portanto, só me resta assumir a minha responsabilidade e ser honesto com meus raros leitores e comigo mesmo. Eu errei de um modo fragoroso, indesculpável e mereço justificadamente todas as críticas que me forem dirigidas, por mais acerbas que sejam. E nem me adianta esconder-me atrás da manjada desculpa de que todo mundo erra, aqui e ali, por que não eu? É agindo dessa maneira covarde que contribuímos para perpetuar, justificar nossos erros e deslizes com os erros e deslizes alheios, mesmo que, muito raramente se concretize a premissa popular de que o errado é que está certo. Todavia, é errando que se aprende, muito embora pessoas haja que jamais aprendem com seus erros e seguem errando vida afora ostentando uma olímpica indiferença pelos prejuízos que vão deixando no rastro de sua passagem.

Alguns amigos escritores, a quem envio minhas croniquetas antes mesmo de mandá-las para o jornal, me telefonaram sem detença, me alertando para meus ortográficos escorregões, tentando me consolar afirmando que tenho um certo crédito junto aos meus leitores mais assíduos, que me perdoarão com generosidade meus desacertos últimos. Agradeci penhoradamente a solícita cumplicidade dos afáveis companheiros, mas lhes dizendo, em resposta, que escritor não tem crédito nem na bodega da esquina. E que escritor é como os goleiros, que podem passar noventa minutos fazendo milagres, mas se derem o azar de engolir um frango no encerrar das luzes da partida, saem do campo tratados que nem um Judas de semana santa. Escritores também são solitários como os artilheiros, aos quais dificilmente se perdoa um gol perdido em horas decisivas. Nosso destino é viver na corda bamba, feito os equilibristas de circo.

Airton Monte - Meu Oásis - 29 de Novembro 2011

Dos pequenos acontecimentos se fazem as maravilhas. Das coisas mais prosaicas que nos rodeiam no dia a dia, se as observarmos com um pouco mais de atenção em nosso olhar, podem nascer sutis descobertas que jamais imaginamos. Sei que as inadiáveis obrigações e os implacáveis compromissos naturais do cotidiano exigem de nós uma pressa que nos cega e turva a nossa percepção, só nos fazem enxergar o óbvio que nos transforma em pobres máquinas sonâmbulas, presas à uma enfadonha realidade onde não há lugar para o sonho, o deslumbramento, uma revelação que nos torne maiores do que somos, mais plenos de humanidade do que pensamos. O mundo, meus amigos, não é só isso que comumente vemos em meio à talvez inútil azáfama pragmática em que vivemos mergulhados por uma questão de garantir a nossa sobrevivência como meras peças da engrenagem produtiva enquanto fazemos parte do mercado de trabalho.

Minha mulher encheu nossa varanda e a estreita faixa de cimento armado que eu, num doce exagero, chamo de jardim, de vários jarros e jardineiras dos mais diversos tamanhos, onde florescem plantas de variadas espécies e até mesmo algumas flores e dois ou três pés de rosas vermelhas que dão um brilho, um colorido todo especial ao nosso suburbano refúgio. Geralmente, no começo das manhãs e no finzinho das tardes, os passarinhos vão se chegando e pousando, descansando de seus passeios alados. Eis a razão porque a varanda enfeitada dessa humilde, mas de todo modo bela flora é o lugar da casa em que mais gosto de escrever, de ler, ouvir música, receber os amigos, de conversar à noite com a amada nossos assuntos, trocando impressões sobre o dia que passou. Além do mais, através das grades posso ver a rua e as pessoas que por ela passam, anônimos personagens do cenário citadino.

Vez em quando, para refrescar o ambiente, sopra uma brisa mansa que nos acaricia o corpo e ameniza o calor do verão. Posso admirar o sol quando ele nasce e as estrelas refulgindo lá no alto do céu e namorar a lua cheia se é noite de lua cheia. Nesse momento, um passarinho aterrissou a poucos passos de mim e me fitou sem medo algum, pois seu instinto certamente já lhe sinalizou que aquele homem ali sentado naquela mesa, com um radinho de pilha grudado ao pé do ouvido, mal nenhum lhe fará nem oferece qualquer perigo. Os passarinhos já sabem que o meu jardim é um local seguro para eles, onde estão protegidos provisoriamente da maldade humana. Acho que a beleza se resume nisso: em aproveitar as pequenas dádivas que nos são ofertadas graciosamente pela natureza. E é nessa varanda florida que me alivio das tensões que me acometem e limpo a minha alma e minha cabeça fica leve e meus pensamentos voam livres pelo território da mente.

E estar assim cercado do meu pedacinho de verde me faz lembrar, com uma alegre saudade, da infância na casa paterna, onde havia um grande jardim povoado de plantas, roseiras, moitas de jasmim e uma vetusta mangueira que dava sombra o dia inteiro. Havia dois oitões que circundavam o Solar dos Monte e bem em frente à janela do meu quarto vicejava um pé de siriguela, sempre repleto de frutas de cujo sabor minha memória jamais esqueceu. E havia o quintal enorme, cheio de árvores frutíferas, com uma cacimba no centro, um galinheiro sempre prestes a nos servir o almoço dos domingos. Se existe uma época da minha vida da qual não posso me queixar é da infância, da minha agora tão longínqua meninice. Uma lembrança que se vai tornando cada vez mais preciosa à medida que envelheço. E é neste meu pedacinho de verde, isolado como um oásis na paisagem desértica da cidade, que a recobro de vez em quando. O menino que ainda não morreu em mim viaja, passageiro perpétuo da imaginação, em busca de um tempo que não foi perdido.

Airton Monte - Lição de Vida - 28 de Novembro 2011

Ontem, estava eu posto em relativo sossego, debruçado sobre a mesa de trabalho, escrevendo, ou melhor dizendo, tentando por no papel algumas palavras esparsas no afã cotidiano de fabricar o obrigatório pão de mais uma croniqueta das tantas que já perpetrei nesses treze e poucos anos de jornal. Súbito, batem à minha porta três distintas senhoras interrompendo o meu labor. Vou até o portão e as atendo com toda a educação e gentileza de que sou possível. A princípio, pensei que as três inesperadas personagens que me apareceram do nada eram simples vendedoras de algum produto, dessas que vão, incansáveis, de casa em casa, oferecendo suas mercadorias com que garantem a sobrevivência e alimentam o mercado dito informal, tão comuns nas grandes e pequenas cidades desta nossa Taba de Alencar. Porém, enganei-me redondamente em minha vã suposição a respeito do que realmente desejavam de mim aquelas três distintas senhoras.

Após trocarmos os cumprimentos de praxe, foi que observei que cada uma delas trazia uma bíblia nas mãos e vários pequenos panfletos que sacaram de uma sacola. Uma delas, aparentemente a líder do simpático grupo, delicadamente perguntou-me se eu dispunha de alguns minutos para ouvir a palavra de Deus. Calmamente, respondi que naquele momento não poderia atender a seu pedido, pois estava demais atarefado, porque muito embora não parecesse, encontrava-me até a tampa de trabalho, apesar de ser um sábado à tarde, quando a maioria das pessoas começa a gozar a bendita folga do fim de semana. As três distintas senhoras insistiram em seu pedido, me oferecendo mil razões de caráter espiritual. Todavia, permaneci firme em minha gentil recusa, explicando-lhes que a palavra de Deus era sempre benvinda, mas que me desculpassem em não poder satisfazer o seu pedido por absoluta falta de tempo e que, se não fosse pedir muito, deixássemos para outra vez e outro dia mais apropriado a nossa metafísica conversa.

Finalmente, mesmo inconformadas por não conseguirem o seu bem intencionado intento de salvar mais uma alma, quem sabe até trazer de volta ao sagrado redil uma ovelha negra perdida do rebanho, as três senhoras distintas se foram embora, certamente à procura de ouvidos mais atentos. Antes de partirem em sua jornada de catequese, percebi um ar de reprovação no olhar manso de cada uma delas. Veio-me um discreto remorso e uma pontinha de culpa por não haver perdido ou ganho alguns minutos escutando o que elas tinham a me falar. Quem sabe, escutar a palavra de Deus não me fizesse um bem danado à alma naquele instante e eu houvesse perdido uma boa oportunidade de aliviar meus pecados, embora seja eu um homem de pouca fé. Talvez, aquelas três senhoras distintas, tão convictas, tão empenhadas em sua peregrinação de missionárias de alguma crença, não me tivessem algo de suma importância para me revelar, uma mensagem que eu deveria ter ouvido.

Contudo, para nada servem os arrependimentos tardios, pois o que está feito está feito e jeito não há de se voltar atrás em decisões tomadas por nossa própria vontade. Passado é passado e se, por acaso erramos, só nos resta aprender a lição dada por nossos erros, com os quais nos tornamos um pouco mais sábios do que com nossos acertos. Todavia, em verdade vos digo, com toda pureza d’alma, que aquelas três senhoras distintas me causaram uma admiração por sua perseverança em seguir espalhando pelo mundo, muitas vezes a ouvidos moucos feito os meus, a fé no Deus em que acreditam sem desistir um só minuto, plenamente convencidas de ser esta a sua missão no planeta. Ah, quem me dera ser possuidor de um mínimo resquício de sua força de vontade, de nunca desistirem diante das portas que se fecham ao seu bater. Aquelas três senhoras distintas me ensinaram, percebo agora, uma grande lição de vida que jamais esquecerei.

Airton Monte - O Hoje - 25 de Novembro 2011

Pois muito bem, bem, bem. Hoje, acordei pensando na vida, cogitando sobre a dura e ao mesmo tempo maravilhosa condição de ser, de existir, de estar no mundo como há tempos não fazia. O habitual é que a gente só se dedique, só se preocupe em pensar na vida quando nos encontramos afligidos pela tristeza ou, então, transidos de angústia porque ela(a nossa vida)não vem dando muito certo e as coisas não estão saindo do modo que desejamos. Devo avisar aos meus conterrâneos leitores que esse não se trata do meu caso em particular. Apesar dos pesares, acho-me relativamente em paz comigo mesmo. Não carecem de tanta importância os percalços, pois já estou deveras acostumado a enfrentar os que me aparecem pela frente, nem me assustam com feroz ansiedade alguns sinais de negras nuvens toldando meu conturbado horizonte existencial. Vou levando o barco do jeito que dá e posso, como sempre o faço, sem jogar a toalha no meio do ringue.

Somente despertei pensando na vida como bem poderia haver acordado matutando nas dezenas mágicas da loteria, movido por um sonho que me soprasse, benfazejo, um inacreditável palpite. Controlar completamente meus pensares é uma tarefa impossível para este pobre ser pensante como para todo mundo, desse modo suponho e acredito. Meus pensamentos são dotados de autonomia e liberdade para ir e vir dentro de minha cabeça desprovida de currais e de porteiras. Meus pensamentos são cavalos selvagens, infensos à qualquer tentativa de doma, a cavalgarem soltos pelas campinas, sem rédeas nem freios. Talvez o livre pensar seja só pensar, tal e qual afirmou o genial Millôr Fernandes. E com ele concordo sem pestanejar. Entanto, o que pensei sobre a existência num rápido instante da manhã, entre o banho e o desjejum, juro que não me lembro agora. Foi um pensamento tão veloz feito um cometa e que vestígios não deixou em minha frágil memória.

Quem sabe, tenha pensado, com inusitada alegria, num gol de letra que marquei num prosaico bate-bola de várzea no último minuto do segundo tempo, eu menino, gozando um pequeno instante de efêmera glória, mas que as crianças guardam para todo o sempre em suas mais doces recordações. Quiçá, haja vindo ao meu bestunto, ainda quase adormecido às primeiras horas da matina, um delicioso, porque proibido, beijo de língua que roubei ousadamente de uma esplêndida morena fantasiada de sensual odalisca no carnaval de 1964, nos salões do Maguary. Ou talvez na primeira e inesquecível carreira levada da polícia marchando numa passeata nos idos de Sessenta e Oito. Ou, ainda, no ósculo redentor, amoroso que minha filha me deu ontem de noite, fazendo as pazes depois de um quebra-pau entre nós dois. Ah, os filhos, que jamais esquecem os nossos pecados paternos durante o resto de suas vidas. E nos relegam à eterna condição de heróis e de bandidos.

Pensando melhor e com o necessário vagar, usando a lógica e a razão, deixando um pouco de lado a cumplicidade confusa dos sentimentos e emoções, concluo, de maneira indubitável, que penso mais na vida quando estou alegre do que enfiado na concha da tristeza, pois enquanto em estado sorumbático, imerso em melancolia, só tenho tempo de pensar em recuperar a alegria o mais rápido que me for possível. A muito custo, forcei-me a aprender a não chorar o leite derramado, a morte da bezerra, o tudo acabado entre nós, porque tal atitude negativista a nada nos conduz de bom nem nos traz a desejada redenção do pessimismo em nós instalado mesmo que circunstancialmente. O negócio é bola pra frente e é preciso reconquistar a vida dia após dia. Hoje, me coube pensar no existir de um jeito perfeitamente natural. Depois, saí pra luta, pois o cotidiano me aguardava pronto para ser vivido. Às vezes, pensar na vida nem sequer nos rende uma crônica decente.

Airton Monte - Eles Venceram - 24 de Novembro 2011

Quer a gente goste ou não, seja a favor ou contra, é impossível negar que este mundo velho está passando por incríveis mudanças, até há pouco tempo inimagináveis para aqueles que ainda cultivam renitentemente um mais que ultrapassado saudosismo que, no meu modesto entendimento, perdeu quase por completo a sua razão de ser e perdurar. A verdade é que o novo sempre vem, o que não significa que o novo somente pelo fato de ser novo seja compulsoriamente bom. Eu, por exemplo, não consigo suportar alguns desses novos cantores e compositores que pululam no cenário artístico nacional, enchendo meu saco com suas músicas de melodias paupérrimas e letras de um mau gosto a toda prova. Nesse caso, nem se trata de queixas, de lamentações próprias de um saudosista incurável, mas precisamente de uma simples questão de padrões estéticos, dos quais me recuso a abdicar, só para não ser chamado de antigão.

Claro que passa bem longe de mim a intenção de querer ser o dono absoluto da verdade e impor aos que gostam desses astros passageiros as minhas artísticas preferências. Acredito firmemente que cada geração tem os ídolos que merece, como a minha possuiu os seus e ainda hoje, mesmo já velhuscos, os continua idolatrando tal e qual fazíamos antes, quando eles iluminaram a nossa adolescência e abriram nossas jovens cabeças para a percepção de tantas descobertas que certamente mudaram nossa vida, nosso jeito de pensar o mundo. Apesar de saber que estou correndo um sério risco de sofrer severas críticas dos ideológicos patrulheiros, para mim grassa em todas as formas de arte uma pobreza generalizada, salvo algumas honrosas exceções. A literatura está cheia de escritores que não sabem escrever um prosaico bilhete de suicida, uma cartinha de amor, um recado eletrônico nas redes da internet. Quanto mais um romance, um conto, um poema.

Nas artes plásticas, proliferam autores incapazes de desenhar um simples ó com o adjutório de uma quenga de coco. Em minha modesta e desimportante opinião, o cinema, talvez, seja o último bastião da resistência em que se pode encontrar alguns vestígios de beleza, de inovações tecnológicas que me agradam, me oferecem raros instantes de prazer, de desfrute estético. Ah, sim. Ia me esquecendo de falar sobre o teatro, que tirante o besteirol caça-níquel protagonizado pelos artistas tornados famosos pelas telelágrimas globais, resiste bravamente devido ao talento e à persistência das pequenas companhias regionais. Até o futebol, que considero uma nobre arte, anda mergulhado numa indigência de talentos e num oceano de incontestável mediocridade. E eu, que sou um apaixonado pelo ludopédio, ando assistindo cada vez menos jogos, principalmente os da seleção brasileira para evitar morrer literalmente de raiva.

O que mais me provoca uma profunda irritação, por vezes chegando a despertar-me um instinto assassino, é a extrema facilidade com que qualquer pé-rapado, qualquer cretino fundamental, qualquer besta quadrada passa a ser chamado de gênio ao fazer um meteórico sucesso nos programas televisivos. Como se o gênio fosse um produto banal de se encontrar, mais barato do que bolo em fim de feira. Do jeito que as coisas vão, parece que o mundo está repleto de gênios e há uma genialidade parada em cada esquina à espera de ser descoberta por um esperto empresário. Desse modo, tudo vai se tornando deletério, impermanente, circunstancial, provisório que nem as chuvas de verão. Hoje em dia, cumpriu-se ao pé da letra a profecia do poeta Maiacovsky: “O gênio não passa de uma longa besteira”. Para mim, confesso, está cada vez mais difícil suportar tamanha avalanche de medíocres. Nelson Rodrigues estava absolutamente certo ao afirmar que os cretinos fundamentais dominariam o mundo por absoluta superioridade numérica.

Airton Monte - O Biquini - 23 de Novembro 2011

Há duas coisas que você deve, por medida de precaução, confiar desconfiando, sempre com um pé atrás, duvidando de sua possível veracidade. Os horóscopos e as previsões do tempo. Hoje, ao passar uma rápida vista nos jornais do dia, li que em Fortaleza reinaria um tempo ensolarado. No entanto, amanheceu chuviscando uma chuvinha discreta, mas que logo cessou e o céu se abriu em radiosa claridade. Já no meu horóscopo, estava escrito para os nativos de Touro agirem com mais amor, pois só assim conseguiriam superar algumas dificuldades de cunho profissional. E sugeria aos teimosos taurinos que mantivessem, por cima de pau e pedra, um rígido controle sobre as suas emoções, pois em assim se comportando, atrairiam uma bem-vinda serenidade durante a semana que começa, livrando-os do indesejável assédio da ansiedade. Pois muito bem, o dia permanece nublado e garanto que nada mais difícil do que passar sete dias sereno diante das aflições cotidianas.

O diabo é que apesar de minhas muitas dúvidas sobre os horóscopos e as previsões climáticas, todos os dias me pego lendo o que dizem. Às vezes, acredito piamente no que afirmam seus autores, em outras, não creio em uma só palavra escrita nessas duas seções dos matutinos. E assim, vivo oscilando entre a crença e a descrença, de acordo com meu estado de espírito. Se acordo de bom humor, costumo seguir à risca suas recomendações. Mas se desperto com a pá virada, não ligo a mínima nem lhes dou a menor importância. E sigo meu rumo como se delas nem houvesse sequer tomado conhecimento. Deixo que o dia me aconteça como tiver de acontecer, me trazendo bons ou maus acontecimentos, calmarias ou tempestades segundo a imprevisível loteria do acaso. De qualquer jeito me viro, seja lá o que vier ao meu encontro. O que posso resolver, resolvo. O que não posso, faço de conta que esqueço até que se tornem inadiáveis.

Aprendi (sempre estou aprendendo alguma coisa com tudo que me sucede) que viver, pelo menos para este escriba, é resolver problemas e encontrar soluções seja lá como for. Um dia, estava eu a beber e conversar com meu velho amigo, o poeta Ralph Waldo Emerson e ele, já um tanto quanto truviscado, mas sem perder a sabedoria, me falou com a voz engrolada dos bêbados uma frase da qual tentei olvidar sem conseguir. Pousou suavemente a mão em meu ombro e disse-me compassadamente: “Meu caro parceiro, fazemos o que não podemos deixar de fazer e depois o rotulamos com os mais belos nomes”. Visto isso, partamos para a ação, se quisermos veramente modificar, nem que seja um pouquinho, a nossa realidade. Façamos o que temos de fazer, por obrigação ou devoção, com prazer ou sem prazer, mas façamos o que deve ser feito, o que não pode deixar de ser feito. É assim que as coisas funcionam nesse mundo.

Domingo, fui à praia para aliviar o cansado bestunto das habituais preocupações do dia a dia e principalmente em busca de beleza, que é uma das minhas razões de viver. Passeei pela areia de pés descalços, mergulhei nas pequenas ondas, sem me arriscar a ir mais longe porque não sei nadar e considero morrer afogado um final indigno para um aprendiz de poeta. Observando o ambiente, percebi que os biquínis estão cada vez mais curtos. Alguns tão diminutos que neles não sobra espaço nem pra etiqueta. Que bom. As mulheres estão cada vez mais lindas, cheias de perigosas curvas. Sim, estou com sessenta e dois anos, porém não estou morto. Nem eu, nem minha idosa libido. E lembro que a encantadora peçinha do feminino vestuário foi criada há cerca de 65 anos, para o gáudio e o deslumbre dos masculinos olhares. E pensar que ao ser inventado, o biquíni foi considerado um atentado contra a moral e os bons costumes. Ah, que mau gosto tinham os nossos moralistas antepassados.

Airton Monte - Verdades Verdadeiras - 22 de Novembro 2011

Sei que todo homem, por mais bafejado pelos ventos aprazíveis da fortuna com que seja agraciado, anda sujeito ocasionalmente a que muita coisa ruim e acontecimentos desagradáveis desabem-lhe sobre a cabeça de um modo inesperado. É inevitável. Nenhum de nós está a salvo de tais percalços, por mais que se esteja protegido por um anjo da guarda de extrema competência, dotado de asas do tamanho de um Concorde. Abrindo um pequeno parênteses, confesso que, apesar das minhas tendências a não acreditar no sobrenatural, digo-lhes que, por vezes, ao escapar de uma rasteira do destino, incólume, são e salvo, chego a crer que também tenho um anjo da guarda a me cuidar com inusitado desvelo desde que nasci. Claro que, circunstancialmente, meu quase sempre protetor alado esquece de vir bater o ponto e me deixa ao desamparo provisório, entregue aos meus próprios cuidados e à minha própria sorte e eu que me vire sozinho do jeito que puder.

Muita gente pode até achar um tanto quanto paradoxal que este escriba, que se diz um ateu confesso, seja capaz de crer nessas entidades etéreas como os anjos da guarda. Todavia, sou assim mesmo, um poço sem fundo das mais incríveis e estapafúrdias contradições. Ora digo uma coisa para no momento seguinte desdizê-la com a maior cara de pau. Em algumas ocasiões, discutindo, abordando os mais diversos assuntos, sou de uma coerência pétrea. Já em outras, demonstro uma incoerência da qual eu me espanto, após cessado o calor das tergiversações. Afinal só não muda de ideia e de opinião quem não possui nenhuma nem outra. E cuja cabeça só tem serventia para separar as orelhas. Claro que não vivo mudando de opinião o tempo inteiro como quem troca de roupa. Não alugo nem comercio, visando meus interesses pessoais, o meu pensar, pois não nasci com vocação para a hedionda prática da prostituição intelectual.

Fechando o parênteses aberto linhas acima e retomando o tema já iniciado, escrevia eu que todo homem anda sujeito a que muita coisa ruim lhe caia sobre o tampo do quengo subitamente. Entanto, meus perclaros leitores, sinceramente creio que, com toda convicção de que sou capaz, uma das piores desgraças que pode suceder a um indivíduo do sexo masculino é ver-se na terrível condição de ser obrigado a comer mal no sagrado recesso do seu lar, doce lar. Mui principalmente quando se gosta de comer não apenas para prosaicamente encher o bucho de qualquer tipo de ração alimentar, para unicamente matar a fome. Mas há aqueles, dotados de bom gosto, para quem o de comer significa um ato do mais puro prazer. Que vil desgraça e supremo infortúnio suar-se duramente a camisa na cotidiana labuta, chegar em casa com a barriga roncando e ser condenado a papar um rango escroto, com perdão da má palavra.

A maior prova de amor que uma mulher pode dar ao seu homem não é entregar-lhe a virgindade como nos tempos d’antanho. Mas saciar-lhe a fome com perita competência. Tem mulher a esquecer-se que o caminho mais curto para o coração do amado ainda é o estômago. Que me perdoem as feministas de plantão, se ainda as há. Todavia, um homem precisa nascer, crescer, viver sendo alimentado condignamente por uma mulher, desde a primeira mamada no seio materno. Isso me falava um amigo, por sinal protético de profissão, que padece do suplício de Tântalo de comer porcamente em casa. O pior é que sua doce esposinha foi educada em colégio de freiras, diplomada com louvor em prendas domésticas. Um homem mal alimentado, dizia-me ele, perde a força do homem, torna-se um fracasso nos jogos de Vênus. Certo que somos animais omnívoros, mas nem tanto. E passando fome, comendo de quentinha sua paçoquinha com banana, acaba por passar a comer em outra mesa e em outra cama.

Airton Monte - Perguntas 21 de Novembro 2011

Por mais que eu esteja habituado a ler, ver, presenciar coisas e acontecimentos os mais estapafúrdios que ocorrem pelo mundo, pelo meu país, pela minha cidade, pela minha rua, felizmente ainda não perdi a maravilhosa capacidade de me espantar e de querer saber o porquê, as causas, as razões que jazem ocultas por trás de todos eles. Há em mim uma curiosidade insaciável de perguntar e obter respostas que me satisfaçam nem que sejam incompletas. Gosto de tentar cada vez mais conhecer as motivações que levam o ser humano a agir, a se comportar assim ou assado, como santos e pecadores, anjos e demônios. Somos tão imprevisíveis, tão profundamente plenos, repletos de segredos e mistérios, que verdadeiramente penso que por sermos assim é que somos tão fascinantes e o mundo cheio de descobertas à nossa espera. Sabemos demasiado pouco a respeito de nós mesmos, de nossos semelhantes, do mundo em que vivemos.

Aprendi nos livros e com a experiência de viver que somente obtemos conhecimento através das perguntas que fazemos do que com as respostas que porventura conseguimos. Cada resposta obtida nos leva inapelavelmente a fazer novas perguntas cada vez mais difíceis, mais profundas e assim vai caminhando a velha humanidade. E é bom que permaneçamos sempre transformados em máquinas incansáveis de fazer perguntas, desde que passamos a nos entender por ente até a hora de bater as botas. Ninguém precisa ser um cientista para perguntar, querer saber aquilo que desconhecemos sobre nós mesmos e o universo que nos cerca. Foi exatamente desse modo que evoluímos das cavernas, da invenção da roda aos mais modernos e sofisticados avanços da tecnologia, tanto para o bem quanto para o mal. Nos tornamos capazes de destruir o mundo num piscar de olhos e de inventar remédios que salvam tantos milhares de vidas.

Nesse momento, interrompo o fluxo dos meus pensamentos atraído por um bêbado que passa aos cambaleios na calçada, se amparando, entre um passo e outro, nas grades da frente da minha casa. Meu Deus, mal começou a manhã e este homem já está completamente embriagado, a calçada vai ficando cada vez mais estreita para o seu caminhar balouçante e tenho a impressão de que ele pode desabar no chão a qualquer instante. Inevitavelmente eu me pergunto, feito no samba de Noel: “por que bebes tanto assim, rapaz/ isso já é demais”. Depois penso que talvez não seja demais para esse homem que nunca vi mais gordo, estar embriagado a esta hora do dia. Será um alcoólatra inveterado, um pobre e infeliz dependente extremado do álcool, um contumaz “papudinho” como costuma a língua ferina do implacável canelau apelidar tais desamados da vida. Ou não passará somente de alguém que exagerou na dose ao divertir-se ontem à noite?
 
E agora, banhado pelos primeiros raios de sol, tenta encontrar o caminho de casa mergulhado num estado deveras lastimável? O homem dá uma parada, balança que balança, agarra-se em meu portão como se estivesse refazendo as últimas forças do corpo combalido e nem sequer percebe minha presença a poucos metros dele. Aliás, parece não perceber a presença de ninguém, nem mesmo dos atletas madrugadores que passam a seu lado, olhando-o com um certo ar de nojo, de reprovação. Eu já o olho com uma discreta piedade, enquanto ele balbucia baixinho uma algaravia incompreensível com a íngua embolada. O que o leva ou levou a beber dessa maneira desesperada? Algum drama, alguma tragédia pessoal ou simplesmente começou a beber aos poucos, como muita gente, até chegar nesse estágio degradado do vício? Finalmente, o homem se desprega do portão e vai embora rumo ao seu destino. Quem sabe aonde vai? Talvez nenhum lugar tenha para ir e seja um pária dos muitos que povoam a cidade.

Airton Monte - Um dia triste 18 de Novembro 2011

Não é porque se trate de uma segunda-feira, um dia pelo qual nutro e alimento uma visceral ojeriza, muito embora em sua essência, não passe de um dia aparentemente igualzinho a todos os outros da semana. Entanto, hoje amanheci cheio de um cansaço que, paradoxalmente, não é físico nem mental. Quem sabe não seja somente um circunstancial enfado ou para ser mais sincero, um provisório tédio dessa vida besta, tão carregada de rotina que ando levando ultimamente. Claro que, como a esmagadora maioria dos meus semelhantes, que se esfalfam, se desgastam cotidianamente tentando garantir a sobrevivência, longe está de mim, de meu alcance, desfrutar de uma existência charmosa, de variegados encantos com que todos nós sonhamos, ansiamos, desejamos ter. Tal exclusivo privilégio pertence a muito poucos que gozam da segurança de uma polpuda conta bancária.

Como pontificaria o inesquecível Sérgio Porto, mais conhecido pelo seu nome de pena, Stanislau Ponte Preta, viver até que é fácil, saber viver é que é dureza. Por não ser um pessimista profissional, desses que cultivam a amargura como se ela fosse uma flor rara no seu ácido jardim de rancores e que costumam pensar em suicídio de dez em dez minutos, para mim é um fato demasiado incomum começar o dia enfarado com tudo e com todos que me cercam. Detesto ser assolado, acometido por sentimentos negativistas, de ar funesto, o coração abandonado pela minha natural alegria de viver, sejam lá quais forem os problemas a me afligirem. Todavia, hoje tenho a mais clara consciência que não sou, pelo menos nesse momento, uma agradável companhia para ninguém. Nem para mim mesmo.

Bem, como o dia ainda está no começo, talvez meu atual estado de espírito vá melhorando durante o transcorrer dessas vinte e quatro horas e eu volte a me tornar o homem alegre que costumo ser, apesar dos inevitáveis percalços enfrentados no dia a dia. Quiçá, o telefone toque a qualquer momento e do outro lado da linha alguém me dê de presente uma boa notícia, como, por exemplo, que minha cadelinha não está infectada pelo maldito e desgraçado calazar, que já me levou implacavelmente outros de meus cachorros nas diversas casas onde morei. Perder uma das minhas mais fiéis amigas é, para mim, que amo os animais, um tantálico sofrimento. Porém, até agora meu Graham Bell permanece numa mudez de estátua, o que é uma espantosa raridade em meu tugúrio suburbano. Mas, nada de perder as esperanças de que me venham bons augúrios a qualquer instante.

Sim, é-me totalmente impossível ignorar, fazer de conta que desconheço que há outros atravessando momentos mais duros e mais difíceis do que eu, que possuem todas as razões possíveis e imagináveis de estarem mais infelizes do que eu. Diante desses que sofrem gravemente, essa minha passageira crise existencial não passa de uma grande besteira sem a menor importância. Contudo, inda tenho a coragem e a cara lisa de me perguntar o quanto o penar dos meus semelhantes é capaz de me trazer conforto e alívio para o meu. Pode parecer egoísmo desmesurado de minha parte, mas a infelicidade alheia não me serve de remédio para os meus males íntimos, minhas mazelas pessoais, que considero as mais importantes do planeta. Antecipadamente, antes que me condenem por tal indiferença, peço as minhas mais sinceras desculpas. Sou apenas um homem triste mergulhado num dia infausto. E um homem triste somente se preocupa e só se importa com a sua própria tristeza.

Airton Monte - Amar e Odiar - 17 de Novembro 2011

Puxa vida, que crônica!!!! Perfeita!!!


Foi assim que a viu. Ali, do seu lado, o vento forte da manhã assanhando verdejantes cabeleiras ao longo da estrada estreita. Ela ao seu lado. O cheiro dela ao seu lado. O vento sacudia-lhe os negrilongos cabelos e havia neles um estranho perfume. Sentia fome dela. Coqueiros à beira mar e pequenas pousadas freqüentadas por casais discretos em sua talvez clandestinidade. Turistas gordos, balofos, com cara de gringo, disparando suas câmeras, capturando, quem sabe, o único instante mágico de suas vidas. Ele pensava, vendo-a quieta, calada, distante, mesmo estando ali do seu lado que, a princípio, percebeu alguma coisa de diferente, de intangível na mulher que já tinha sido dele. Uma parede invisível que o dia foi erguendo com a argamassa da solidão a dois. Um muro que o separava dela, o impedia de falar-lhe com a intimidade de antes, de tocá-la no calor da noite cheio de um desejo maciço e permanente. Nem se sabe quando o fim de tudo começa, por que? Como foi?

Ainda tinha fome dela, que agora mudou-se para o banco traseiro, as pernas bronzeadas saltando fora da bermuda apertada, lendo um romance de Gabriel Garcia Márquez. Um livro que ironicamente fala da eternidade do amor. Quando uma mulher deixa de amar um homem, ele pensava, a primeira diferença que o sujeito percebe é no beijo. Ela beija com os lábios entrefechados, os dentes vedando a intimidade da boca. Da última vez em que se amaram, ele recorda dolorosamente, foi de pé como inimigos. Também desapareceu aquela onda de eletricidade quando, por acaso, o corpo dele roçava no dela na confusão noturna dos lençóis. Ele não mais procurava o corpo daquela mulher que já não o amava, que também não mais ama, embora inda a deseje. Entanto, custava a reconhecer aquela fêmea que se mexia irritada no leito, incomodada pelo toque dele e que se encolhia diante de sua proximidade física, fechando-se como uma ostra.

O homem observa a mulher pelo espelho retrovisor. Ela, nem te ligo, deitada no banco de trás. Que cheiro bom o dela. Uma cruciante tortura deitar todas as noites ao lado de uma mulher para quem seu corpo não passa de um peixe morto e cujo desejo já não acende o desejo dela. Baixa um certo ar de desespero dentro da atmosfera densa do quarto de casal, um ódio morno começa a pulsar no coração do homem inquieto. Que sensação esquisita essa de não mais amar e permanecer desejando essa mulher tão intensamente. Parece coisa de doença, de mandinga. Abjeta rotina de trancar-se no banheiro no meio da madrugada e aliviar-se feito um adolescente. Depois, ir até a sala, ligar a tevê, beber um uísque, acender mais um cigarro. Agora, no carro, janelas abertas, o cheiro dela se confunde com o odor salgado da maresia. Começa a odiar Gabriel Garcia Márquez, esse simpático rufião colombiano por quem ela anda apaixonada ultimamente. Ele sente que odeia tudo que o separa desta mulher agora e sempre.

Ela é uma mulher que desperta ferozmente a sensualidade dele, o sátiro embuçado, oculto por dentro dele, o instinto primitivo do predador cujo destino é caçar sua presa, caçar sua presa. Os dois agora são seres estranhos um ao outro, íntimos inimigos. As mulheres não costumam ser piedosas em seu desamor. Vão despachando o sujeito como quem arranca um esparadrapo de uma ferida purulenta. Tijolo após tijolo, eles dois foram erguendo seus guetos separados nas angustiantes, tensas noites de silêncio. A presença dela é um incômodo. A presença dele um purgante. Daí, ficam brincando de casinha enquanto mentem descaradamente um pro outro adiando o inadiável. Ele pensa na moça bonita que viu numa barraca da Praia do Futuro. A mulher que ele não mais ama continua imersa na leitura. Ele sabe que nenhum dos dois terá coragem de dar o primeiro tiro nesse duelo inacabável. Eu a odeio, falou com a voz do pensamento. Continuou dirigindo o carro com uma doida vontade de fazer uma inútil besteira fatal.

Airton Monte - Um Mundo sem Mulheres - 16 de Novembro 2011

E pensar que há cerca de dois mil anos, a população que povoava esse mundinho de meu Deus era apenas de trezentos milhões de habitantes. Havia espaço demais e gente de menos. Podia-se ainda afirmar que o globo terrestre não passava de uma imensa vastidão deserta, praticamente desabitada e ainda não conspurcada, não poluída pela ganância humana. Em 1959, quando eu tinha dez primaveras de vida, a quantidade de primatas, digamos assim, pensantes, atingiu a marca de três bilhões. E hoje, quando vou levando meus sessenta e dois outonos nas costas, o número de moradores do planeta saltou para a gigantesca quantidade de incríveis, inacreditáveis sete bilhões de residentes, que estão fazendo de tudo para maltratar, degradar cada vez mais esta nossa pequena, insignificante bolota de barro em que, bem ou mal sobrevivemos, indiferentes ao fato inegável de que ela é a nossa única moradia dentro desse universo sem tamanho que nos rodeia.

Nos países pobres, a grande maioria das nações, a desenfreada falta de controle da natalidade contribui decisivamente para aumentar a população mundial em uma quantidade nada desprezível de oitenta bilhões de viventes a cada ano que passa. Isso apesar da pobreza, da miséria, das guerras fratricidas, das doenças eliminarem ainda no nascedouro um número incontável de pessoas. Nos países ricos, os verdadeiros donos e senhores de todos nós, dos nossos destinos, o mercado de trabalho vai se fechando para os mais jovens, provocando revoltas, crises econômicas, políticas se sucedem em cadeia uma após a outra e, pelo menos eu, desconheço a que tudo isso nos levará nessa nossa caminhada ao futuro. Sabemos que nossos recursos naturais não são inesgotáveis, mas pelo andar da carruagem, aqueles que detêm o poder pouco estão se importando com os que virão depois de nós.

Os que estão situados na faixa etária abaixo dos vinte e cinco anos de idade representam, nos dias atuais, quase a metade da população terráquea e, mesmo assim, estamos lentamente nos transformando num planeta povoado de velhos, pois os chamados idosos já chegaram à gloriosa cifra de oitocentos milhões e lá vai pedrada e haja recursos dos sistemas de previdência social para garantir a merecida aposentadoria de quem já deu tanto para o desenvolvimento do seu país. No Brasil, não demora muito, o aumento da idade para o cidadão se aposentar deve crescer tanto que o sujeito só vai conseguir aposentar-se na hora de baixar à sepultura e dele não se puder extrair mais nenhuma gota de produtividade. Entanto, a grande verdade a ser reconhecida é que o porvir de jovens e velhos neste louco mundo globalizado vai se tornando um poço sem fundo de incertezas e desagradáveis surpresas.

Para piorar a situação, como infelizmente nascem mais espécimens do gênero masculino que do feminino, alguns renomados especialistas no assunto profetizam uma catástrofe inimaginável, prevendo uma masculinização alarmante do nosso ensandecido planetinha. Pode ser muito provável que daqui a cinquenta anos, grassará por todos os cantos do mundo uma terrível e cada vez maior escassez de mulheres. Esse desequilíbrio demográfico entre os sexos é bem capaz de fazer surgir no mapa países inteiros de homens solteiros à procura de uma companheira. Alguns desses estudiosos mais pessimistas preveem a volta da velha e ancestral poliandria, com uma mulher casada com vários maridos e o sentimento de posse masculino se esvanecerá diante da lei da oferta e da procura. O chifre será abolido da face terrestre, virando coisa de museu. Todavia, como tal fenômeno só acontecerá dentro de cinco décadas, certamente estarei morto. Felizmente. Porque o mundo sem mulher perderá definitivamente a graça.

Airton Monte - Crônica Confusa - 15 de Novembro 2011

Há em mim uma sensação dilacerante que parece querer me cortar em dois. Eu e eu mesmo. Eu e o outro que dentro de mim habita. Minha alma é como se fosse um espelho múltiplo como os olhos de uma mosca. Na mente uma aranha tece um pesadelo. Resta-me acordar. Acordar? Pergunto-me atarantado. Mas de que sonho? De quem será este rosto em sombras mergulhado e que meu consciente desconhece? Ah, se eu pudesse abrir todas as cortinas do meu íntimo e assim transfigurar-me, transfigurando o onírico em realidade. Esticar os véus do real e, se possível, rompê-los, rasgá-los qual se estraçalha um tecido demasiado gasto e roto. Mergulhar tão dentro do que ainda sou e ir tão fundo, despido de qualquer medo de que esse mergulho não tenha volta. Ir além, arriscar-me descendo às profundezas do meu próprio precipício. Sim, ir-me. Retornar carece de importância, apesar de tantas advertências que me faço. Ou importaria realmente voltar dessa viagem através de mim mesmo?

Bate-me um horror do cotidiano comezinho em que sou forçado a viver. Estarei ficando mais louco do que já sou? Ensandeço só porque procuro uma outra face da beleza? Lembro-me de que na UTI pareceu-me divisar, por dentre as névoas da anestesia a indescritível face da morte. Nesse instante de momentânea epifania, enfrentar o horror que me assola, os anjos e demônios lutando em meus pensamentos um tanto quanto surrealistas. Aprender a suportar ausências. Inclusive a minha. Estarei ficando louco? Novamente me pergunto envolvido nesse emaranhado confuso de idéias que me povoam a cabeça. Há toda uma explosão de sentimentos vitais saltando de minhas mãos e se transmutando numa torrente de palavras escritas quase que á minha revelia. Palavras que aparentemente vão brotando do nada, mas sei que na verdade brotam é de mim, embora num fluxo incompreensível, talvez, para quem ora me lê.

Eu, cavaleiro do inefável. Eu, viajante provisório do que agora penso ser o insondável. E nada mais poderei saber, decifrar até que esse texto finalmente se complete. Eu quero avistar a margem oculta do que penso. Achar a ponte, o caminho que tanto busco sem saber por onde ir no rumo certo. Sei que na escuridão soturna da madrugada, dessa madrugada que ora atravesso, imagino que as coisas se transfiguram e no entanto permanecem as mesmas. Este é o mundo em que habito e sobrevivo pleno de uma lucidez tamanha, embora chegue a pensar, aqui e ali, entre uma palavra e outra, eu posso estar ficando doido. Doido de pedra. Que grande besteira. Não me acometem delírios nem alucinações, continuo distinguindo claramente o real do imaginário. Dualidade. Encontro pessoal, jamais uma despedida porque não vou partir de mim mesmo, vestir outra personalidade, usar outra identidade. Permaneço sendo eu mesmo. Disso tenho a mais absoluta certeza. Ainda.

Desejo gastar esse momento de revelação até nada mais restar por revelar. Ah, eu caçador de mim, como gritam os versos da canção popular. Ousar enfrentar o vazio que inevitavelmente sobra quando tais descobertas se findam tão inexplicavelmente como começaram. É madrugada. Faz escuro, mas eu quase vejo a longe aurora que se anuncia, que virá certamente, porque não estou morto nem o mundo acabou. Ah, corpo meu de longas, lentas lutas para manter-me lúcido enquanto as sombras adejam, avoengas a meu redor. Sei que sou o meu princípio e meu fim. Eu existo em mim e me basto, apesar de me completar nos outros. Pouca gente ou ninguém será capaz de entender o que escrevo agora sem uma ordem lógica, linear. Parece não ter nenhum sentido, nenhum significado a não ser para mim. Parece longe do entendimento alheio. Porém não está. Somente quis escrever ao fluir das ideias, seguindo o bordão famoso do velho Chacrinha: eu vim para confundir e não para explicar. Aquele abraço!

Airton Monte - Estranha Frase - 14 de Novembro 2011

As mulheres já não cuidam, já não tomam de conta dos homens como antigamente, por vezes, dando-lhes mimos de filho único. Essa frase me veio repentinamente à cabeça entre tantas outras que fervilhavam em minha mente, sem eu saber exatamente por que. Bem que poderia nascer do meu aperreado bestunto outra completamente diversa. Todavia, como nosso inconsciente possui lá as suas razões que nosso consciente desconhece em meio às regiões mais esconsas de nossa quase indevassável psiquê, foi essa que me escorregou pela caneta e se derramou, de súbito, na folha em branco do papel. Eu não estava no momento pensando em nada que, por um mecanismo de associação, me trouxesse à tona do pensar essa frase que até me pareceu meio boba, fora do território das minhas cogitações costumeiras. Mui simplesmente a tal frase me escapou como um ladrão que invade uma casa pela janela entreaberta, sorrateiramente feito uma sombra na calada da madrugada.
Entanto, o fato concreto é que ela chegou sem avisar e ficou boiando em meu juízo que nem um barco à deriva em águas revoltas. E chegou sem fazer alarde, sem aviso prévio como aquelas incômodas visitas que batem à nossa porta numa noite chuvosa de um domingo e não tem vassoura colocada atrás da porta, virada de cabeça pra baixo, que as faça ir embora tão cedo. A frase assim me chegou insidiosa, num adejar silencioso de ave noturna, voando em busca de uma presa. E a presa, infelizmente, era ninguém mais, ninguém menos do que eu. Aliás, para ser mais preciso, mais claro, mais exato, sou eu a caça dessa frase que me embaça, me turva as ideias, me paralisa os dedos que permanecem por ora imóveis, pousados sobre as teclas do computador, criativamente inúteis, momentaneamente desprovidos de sua função primordial de escrever um texto, por mais simples que seja.
 
O que posso dizer, em última instância, é que a frase foi descendo lentamente camada após camada da mente feito alguém que se debate antes de afundar tragado por redemoinhos. Outrossim, coisa rara não é que me acometam, de maneira esporádica, inexplicável à luz da razão e de uma coerência lógica, tais frases misteriosas surgidas de não sei onde, mas que não me provocam grandes incômodos nem agoniadas aflições. Apenas despertam, atiçam a minha já natural curiosidade, pois afinal, não se é psiquiatra e escritor impunemente. Em verdade, eu há muito, depois de tanto tempo no lidar praticamente cotidiano com as palavras, deveria estar acostumado a sofrer essas molecagens inofensivas da minha imaginação e aceitar um tanto quanto filosoficamente, imbuído da paciência e tolerância necessárias que uma frase é somente uma frase e acabou-se.
 
Acreditar, sem alimentar qualquer dúvida, que uma frase é apenas uma frase que talvez nem sequer tenha importância alguma e fim de papo. Deixar a mente livre, disponível para outros pensares muito mais frutíferos, produtivos. Não sei bem como aconteceu desse ajuntamento, que suponho aleatório, de palavras escorregar pelo tobogã dos meus neurônios qual um bando de crianças se divertindo longe do controle dos pais, numa brincadeira inocente, sem maiores consequências. Talvez seja por causa da proximidade do natal, da virada do ano, épocas em que me sinto meio desamparado, desprotegido, sentimentos capazes de me tornarem mais fácil de ser sensibilizado por essas frases que me nascem como se fossem psicografadas por um espírito de porco desocupado. Quem sabe, saudades de quando as mulheres ainda me paparicavam como se eu fosse o último homem sobre a Terra. Hoje, sou um órfão dos femininos cuidados e o que me resta é um nostálgico tédio de tudo isso.

Airton Monte - Celebração - 11 de Novembro 11

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Um dia. Um belo dia. Não é apenas um dia a mais derramado pela ampulheta inefável do tempo. É mais um dia em que, ao abrir os olhos, verifico que estou vivo e estar vivo, para mim, é uma grande e maravilhosa vitória, não importa o que ocorrer de bom ou de ruim durante o seu transcorrer. Abro, escancaro de par em par a janela até então fechada do meu quarto de dormir, ergo os olhos para o céu como se o estivesse vendo pela vez primeira, como se fizesse uma magnífica descoberta. Sim, nada melhor do que estar ainda vivo em um novo dia que nasce e me é ofertado feito uma generosa dádiva da natureza. Sei que a maioria dos meus semelhantes acha bastante natural despertar após a passagem da noite e simplesmente continuar vivendo. Parecem não pensar no fato de que são felizes sobreviventes e que muitos devem haver morrido ontem e nunca mais verão mais um dia surgir no horizonte de nossa frágil existência.

Penso que amanhecer vivo trata-se de um verdadeiro milagre para todos nós que hoje abrimos os olhos e continuamos partícipes sortudos dos movimentos habituais do mundo, mesmo considerando a realidade de que somos minúsculas partículas de um infinito universo que rodeia esta pra lá de insignificante bolota de barro que, por enquanto, continuamos a habitar. Agradeço penhoradamente a bênção de existir porque não existe nada mais belo do que a vida. Talvez eu assim pense porque já vivi mais da metade da minha e o implacável relógio de Cronos há muito já deixou de correr a meu favor. Porém, o que me interessa isso? O importante mesmo é estar sentindo o pulsar da vida dentro de mim nesse dia recém-nascido e que posso ter a bendita graça de desfrutar. Que seja benvindo este novo dia, pois faço questão de recebê-lo, de saudá-lo com toda a pompa e circunstância de que é merecedor.

Outros podem não ligar a mínima para o ilustre visitante e achar que as coisas são desse jeito mesmo e podem ser tolamente simplificadas, reduzidas numa única frase: quem está vivo está vivo, quem está morto está morto. E pronto, ponto final, nada mais a acrescentar. Enganam-se redondamente, pois quem está vivo é um felizardo, ganhou o prêmio maior na loteria do acaso, pois bem poderia ter se mudado repentinamente para a indesejável, porém inexorável cidade dos pés juntos e encontrar-se nesse momento comendo capim pela raiz com a boca cheia de formiga. Parecem nem se dar conta de eu já nascemos condenados à morte e ser ceifado pela Bela Dama Sem Piedade trata-se somente de uma questão de tempo. Portanto, estar vivo há que ser comemorado a cada dia que testemunhamos, como se fizéssemos aniversário a cada vinte e quatro horas que permanecemos neste mundo, quer estejamos felizes ou infelizes.

Pensando bem, talvez eu esteja mergulhado na euforia da celebração da vida, tentando escrever uma ode capenga em seu louvor, por hoje ser Dia de Finados. Logo mais, os campos santos estarão cheios de gente visitando seus entes amados que já encetaram a longa viagem sem retorno para os desconhecidos territórios do além. Levarão braçadas de flores e de saudades aos que jazem no eterno repouso das tumbas. Como de habitual, não farei minha romaria aos túmulos de meu pai e de minha mãe. Sofro de uma incurável ojeriza a cemitérios e todas as vezes em que me arrisquei nestes passeios mórbidos, voltei pra casa cheio até a tampa de uma cava tristeza. Por isso, decidi fazer de um verso de Drummond meu lema particular gravado com todo amor de que sou capaz no porta-estandarte do meu coração: “Do lado esquerdo carrego meus mortos, por isso ando um pouco de banda”. Os meus mortos estão para sempre vivos no relicário sagrado de minhas mais felizes recordações.

Airton Monte - Ilusão à toa - 10 de Novembro 2011

Pela segunda vez em minha vida, estive mais perto do que longe de conseguir comprar, enfim, a tão sonhada casa própria. E mais uma vez, o destino, azar ou sorte acharam por bem me dar uma cruel rasteira. Ontem, minha mulher recebeu um agourento e implacável telefonema do banco onde pedimos crédito, avisando que nossa renda familiar não era suficiente para obter o empréstimo pedido. O que fazer? Nada, a não ser ficarmos imersos na tristeza inconsolável de um sonho desfeito. É por demais doloroso chegar tão perto de realizar o que se vem sonhando anos a fio e de repente sentir tudo desabar e mais uma ilusão cruelmente implodida. Pois é, o jeito é continuar morando de aluguel e mais uma vez mudar de rua, de bairro, do endereço costumeiro.
Minha mulher é de têmpera forte, se recupera dos golpes muito mais rápido do que eu. Enquanto me deixo levar pelas correntes do amargor, afundado num mar de pessimismo e autocomiseração inúteis, ela de pronto já está de pé outra vez, com os castanhos olhos plenos de uma força invencível e de imediato começa a pensar em outras soluções, outros caminhos a seguir e acaba me pegando pela mão e me soerguendo do chão como tantas vezes já o fez. Minha mulher é forte. Eu sou um fraco, confesso. Principalmente quando se trata de sonhos subitamente dissolvidos quando estão a um passo de sua realização. Hoje estou feito um menino de quem acabaram de roubar a primeira bicicleta, a primeira bola de couro.
 
Dentro em mim, tudo se reveste de cinzento e sou um monte de escombros de uma ilusão derruída. Um ácido corrói a minha alma e há um coro de lamentações estéreis ressoando nas batidas mais lentas e descompassadas do meu agoniado coração. Se não foi é porque não era pra ter sido, agora, dias melhores virão – ela costuma me dizer em tais sofridos momentos de desencanto e aflição. Eu fico remoendo as minhas mágoas que nem um cão roendo um osso que acabou de desenterrar. Sim, claro que sei que restar num canto, de ombros curvados e olhos sombrios, a queixar-me da vida, sempre é a rota mais fácil para fugir dos dramas que, de quando em vez, passam pela nossa vida feito um inesperado temporal.
 
Sim, eu sei muito bem de tudo isso. Porém, demoro a me levantar e dar a volta por cima, partir para outra, deixar para trás o leite derramado, esquecer a vaca que foi para o brejo. Entanto, só me dá vontade de cantar aquele samba do Adoniram e do Vinícius:”se chegue, tristeza, se sente comigo aqui nesta mesa de bar, beba do meu copo, me dê o seu ombro que é para eu chorar”. A voz do gerente do banco era de uma frieza profissional a me dizer que eu não tinha renda pra comprar a minha casa. Talvez eu preferisse a mudez dos carrascos. Caminho pela casa onde moro há dezesseis anos e cada passo é um gesto de adeus, um toque de despedida. Ah, vida, minha vida. O que resta agora é começar de novo, recomeçar do nada, restaurar os fragmentos partidos do cotidiano e tentar fazer com que tudo o mais valha a pena.

Airton Monte - Qualidade de vida - 9 de Novembro 2011

Claro que como sou psiquiatra, bem sou sabedor que nada como uma boa e repousante noite de sono a todos nós se apresenta feito uma imprescindível e necessária garantia de qualidade de vida, seja qual for a idade que se tenha. Todo aquele não agradavelmente acolhido pelos saudáveis braços de Morfeu, passando suas noites em claro, torna-se um infeliz devedor do sono durante todo o resto do dia. E não adianta tentar tirar o atraso hípnico enquanto reina o sol, mesmo que se tranque, se isole hermeticamente em um quarto à prova de som e completamente mergulhado na escuridão mais profunda. Coberto de santa, sapiente razão estava o autor dos meus dias ao afirmar peremptoriamente que a noite foi feita para dormir. Por isso ele costumava se definir como um boêmio diurno, pois chovesse ou fizesse sol, sua peregrinação pelos bares inadiavelmente se findava por volta das seis horas da tarde, só abrindo exceção para as noites de natal e virada do ano.

Infelizmente, não consegui seguir seu hígido exemplo, por haver me transformado num incorrigível boêmio noturno, trocando a luz do dia pela luz da lua desde muito cedo em minha vida. Lembro que, inda menino, costumava ficar gastando precocemente minha visão lendo até altas horas ao lume de uma vela ou de uma lamparina. Ou então, pulava sorrateiramente a janela do quarto e rumava, tomando cuidado para não quebrar o silêncio, pelo oitão até a paisagem cheia de mistérios do quintal nas noites de lua cheia. E lá chegando, deitava-me sobre a tampa da cacimba de barriga para cima, deixando-me a olhar fixamente o céu, perscrutando estrelas, talvez na esperança que nutria em meu infantil imaginário que me aparecesse um disco voador com homenzinhos verdes como acontecia nas aventuras do Bolinha na revista da turma da Luluzinha, um dos meus magazines em quadrinhos preferido.

Para minha terrível frustração, os discos voadores tripulados por homenzinhos verdes jamais me deram o prazer de sua presença. Acredito haver sido por causa dessas fugas noctívagas iniciadas na infância que meu relógio biológico começou a desregular seu natural funcionamento e fui virando, de maneira lenta, quase imperceptível um animal insone, me habituando a trocar a noite pelo dia. Ao adentrar os portais da universidade, os plantões médicos contribuíram sensivelmente para agravar a minha condição de insone profissional. Que me recorde e minhas contas estejam pelo menos parcialmente corretas, foram mais de vinte anos trabalhando à noite não sei quantas vezes por semana. Como todo médico plantonista, cheguei a viver mais tempo nos hospitais do que em casa e fui desenvolvendo meus indigitados hábitos de coruja que até hoje me perseguem como indesejável companhia, que só me deixam em paz se os afugento na base dos tarjas pretas, coisa que procuro evitar a todo custo, só apelando para seu sonífero adjutório quando meu corpo e minha mente não mais suportam o peso das noites em claro.

Uma atitude extrema essa de tomar remédio para dormir, esses viciantes emissários do grego deus do sono, dos quais procuro fugir como o diabo da cruz, mas por vezes não há mesmo outro jeito. Além disso, nos raros momentos de folga, nessa época em que labutava como médico de emergências psiquiátricas, ao invés de guardar o merecido e preciso descanso do labor extenuante, mergulhava de cabeça na esbórnia, me esbaldando em farras homéricas, bebendo em quantidades industriais levado pelas más companhias da alencarina boemia no território livre de Iracema e dos bares gentilandinos. Fui um típico exemplar de estróina da saúde e hoje sofro as consequências desse período maravilhoso que vivi com intensidade. Não tenho distúrbios da memória nem padeço de depressão, males próprios da insônia. Pensar em suicídio já pensei, como tanta gente que dorme bem, uma vez ou outra na vida. Pra ser sincero, o que realmente piora a minha qualidade de vida é a falta de dinheiro, mais nada.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Airton Monte - O Caçador de Fantasmas - 8 de Novembro 2011

Genial Crônica!!!


Estou sozinho em casa. Todos arribaram do caseiro ninho em busca de outros lugares mais aprazíveis para desfrutar as delícias de um feriadão. Eu, como não sou chegado a encetar viagens nem de longa nem de curta duração, preferi restar no aparente sossego do suburbano tugúrio na ilustre companhia de meus discos, meus livros, meu caderno de escrever e da televisão. Há ocasiões em que me apraz mergulhar numa solitude consentida e, por vezes, para mim decididamente necessária e até mesmo desejada, apesar de ser um sujeito dotado de uma natureza gregária, que gosta de viver arrodeado de gente. Fui criado assim, numa família grande, numa casa grande onde os vizinhos entravam e saíam a todo instante como se fizessem parte da família. Afora as visitas constantes dos amigos, dos tios e da verdadeira multidão de primos que vinham nos dar o ar de sua graça no vetusto Solar dos Monte.

Como os hábitos e costumes da infância em nós permanecem indeléveis mesmo ao ficarmos adultos, está grudado em mim este gosto de viver em grupo com todos os seus incômodos e suas vantagens. Entanto, ficar a sós comigo mesmo em determinadas ocasiões faz um bem danado à alma, Isto é, desde que você aprecie sua própria companhia como acontece no meu caso. A casa me parece maior do que realmente é, embora a ausência das vozes conhecidas, dos passos da mulher e dos filhos faça brotar, de maneira inevitável, um muito de saudade em meu velho coração. Nesses momentos, bendigo a invenção do telefone, essa máquina de encurtar distâncias e aproximar os afetos entre quem se foi e quem ficou. Enquanto permaneço sob o reinado do dia, suporto melhor a falta dos que amo, principalmente quando não chove e a luz, a claridade entram pelas janelas num festival de brilhos e cintilações.

Porém, ao começar a escurecer e o fim da tarde anuncia a noite que chega trazendo as suas sombras indesejadas, é que a ausência dos seres queridos se torna mais dolorida e a solidão me bate com mais força e intensidade. Não que eu tenha um medo infantil das trevas noturnas e me deixe assombrar pela possível aparição de fantasmas e visagens. Afinal, sou um adulto. Além do mais, não acredito em assombrações nem em almas do outro mundo, em espíritos perdidos de caráter malfazejo, cujo esporte preferido é atazanar os vivos com suas imateriais brincadeiras de mau gosto. Os meus fantasmas amados só costumam me aparecer em sonhos, apaziguando meu sono, espantando os pesadelos. Os meus fantasmas prediletos são doces frutos da minha imaginação e como tal, são alegres fantasminhas camaradas que me tornam o adormecer mais fácil, mais suave, mais tranquilo.
 
Ah, Deus sabe e compreende em sua infinita bondade o quanto eu desejaria que os ectoplasmas de meu pai e de minha mãe se materializassem diante de meus olhos incrédulos e comigo falassem, me dessem conselhos tão sábios quanto os que me deram enquanto estavam vivos. Isso sem falar de minha avó Maroca, que foi uma exímia praticante do jogo do bicho, para me soprar ao pé do ouvido as seis dezenas da mega sena, me transformando num milionário da noite pro dia. Todavia, o que deles eu queria mesmo é que me dessem as suas bênçãos e me falassem palavras que me confortassem a alma angustiada e me garantissem que minha vida vai melhorar daqui pra frente e que coisas boas irão me acontecer quando menos esperar. Ah, por que não me vêm visitar os meus fantasmas amados nas noites em que mais me são precisos? Talvez porque jamais me abandonaram e suas presenças, eles sabem, permanecem para sempre vivas na minha lembrança.