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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Armando Nogueira - Um Artilheiro no Meu Coração

Segue abaixo a crônica do sempre bom Armando Nogueira


UM ARTILHEIRO NO MEU CORAÇÃO – Armando Nogueira


Se o futebol me quisesse dar um presente, bastava que me desse um domingo inteirinho só de gols de Ademir Menezes. O estádio embandeirado, a multidão ali, em peso, todo mundo cantando e pulando pela glória do artilheiro inesquecível do Vasco da Gama.

Nesta tarde de lembranças, quero rever, sobretudo, certos gols que ele fazia contra o meu time e que eu, doido de paixão, jurava que eram feitos pessoalmente contra mim. Quantas vezes amaldiçoei os "rushes" de Ademir! Ele arrancava do meio campo, temível, e, como um raio, entrava pela grande área, fulminante. O desfecho da jogada era sempre o mesmo: uma bola no fundo da rede, um goleiro desvalido e o meu coração magoado.

Era assim que terminavam os meus domingos em tarde de Ademir.

Até então, eu não tinha vivido bastante para perceber que Ademir era um belo artista e que o gol, longe de ser um infortúnio, é apenas uma graça que o futebol oferece para fazer festa no coração dos homens.

Hoje - coisas do tempo - que o futebol na minha vida é mais saudade que esperança, mestre Ademir costuma aparecer no telão das minhas insônias mais artilheiro do que nunca. E com que alegria revejo, agora, aqueles gols arrebatadores que ele fazia com a veemência de um predestinado! Gols que ontem sangravam e que hoje só enternecem o meu coração.

Ademir guardava em campo o rigor de um espartano e a retidão de um cavalheiro. Nunca perdeu a esportiva. Se alguem lhe dava um pontapé, ele dava, de volta, a outra face: jogava como um cristão. O futebol era a sua religião. Ademir era alto, fino de corpo, tinha as pernas alinhadas e do rosto, que parecia feito a mão, sobrava-lhe um pedaço de queixo. Daí vem o apelido de "Queixada", como ternamente o tratam até hoje os seus amigos.

Fecho os meus olhos saudosos para reencontrar Ademir Marques de Menezes, herói dos estádios nos anos românticos do nosso futebol.

É dia de clássico. O estádio está em pé de guerra. Ademir recebe a bola no meio do campo e dispara. Na crista do corpo que corre, em aceleração vertiginosa, a lâmina do queixo vai cortando, certeira, o campo minado, o caminho do gol: é gol! Ele não pára de correr e atravessa a linha de fundo, épico, com os braços abertos ao delírio da multidão.

Se eu soubesse que um dia o futebol dele ia se acabar, eu teria pedido a Deus que me emprestasse um par de olhos cruz-de-malta só para que eu pudesse ver, à luz do amor, todos os gols que Ademir fazia contra mim.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Airton Monte - O Observador

Airton Monte - O Observador - 16 Fev


A tarde parece que anda meio gripada, soltando pequenos espirros, com a coriza intermitente de rápidos chuviscos. A tarde está fria, porém meu coração está quente feito um pão recém-saído do forno. Meu cachorro não para de correr arrodeando todo o espaço do quintal como quem procura alguma coisa indefinida, que somente ele sabe. Talvez também esteja sentindo falta do velho gato gordo que caçava pombos invisíveis pelos beirais dos telhados vizinhos da casa onde morávamos. Os animais possuem lá a sua memória, embora muita gente não acredite. Há passarinhos destemidos, que ignoram o medo e o perigo, tranquilamente pousados nos fios esticados por entre os postes. No sobrado em frente, um pai, que deve ser de primeira viagem, brinca com o filho entre os braços, falando aquela linguagem tatibitati que os adultos pensam que as crianças falam e entendem.

Três horas da tarde em ponto. Ainda é cedo e está longe de escurecer. O dia transcorre escorrendo rotina. Abro o jornal e leio uma notícia estarrecedora. Dois adolescentes assaltaram um ônibus, atiraram em outro jovem e se deixaram olhando a vítima agonizar durante quase trinta minutos. Marcas da maldade humana que se tornam cada vez mais habituais em nossa cidade como a crueldade e a violência. Meu Deus, a que ponto chegamos? Que País é esse onde jovens mal saídos da infância matam outros jovens friamente, não demonstrando sequer um pingo de sentimento? Esses jovens assassinos, se ninguém percebe, são os mesmos que, enquanto crianças, nos pedem moedinhas nas paradas dos sinais de trânsito e nos fitam com olhos de sobreviventes de guerra, de uma guerra urbana que não tem mais fim.


Ao mesmo tempo, em outras páginas, o jornal estampa fotografias de jovens estudantes de bons colégios, que saíram vencedores nos vestibulares mais difíceis desta nação. Estes sonham com um futuro pleno de realizações. Os jovens que matam não sonham com o futuro porque não acreditam mais nele e preferem ganhar o tempo presente de arma na mão e cheirando a pedra maldita que os faz esquecer o seu destino já traçado desde que nasceram. Sabem que a vida vai lhes ser breve e que um dia a bruxa lhes pega dentro da cadeia ou numa viela da periferia, mesmo sendo o rei do pedaço. Para mim, o mais nefando crime que se pode cometer contra uma criança é roubar-lhe a infância. Os jovens vencedores tiveram uma infância. Os jovens matadores, não. Já nasceram quase adultos.


Que ninguém venha pensar que estou defendendo os jovens criminosos, botando toda a culpa no cartório do social, porque se nascer em berço de ouro imunizasse contra tendências delinquentes, rico não roubava e faria parte de uma legião de anjinhos de asinhas brancas, tocando suas harpas, aureolados de santa honestidade. E filhinhos de papai não se divertiriam ateando fogo em moradores de rua. Se me perguntarem se sou a favor do endurecimento do código penal, respondo que sou, inclusive da prisão perpétua. Se sou a favor de acabar com a impunidade dos “de menor”, também respondo que sou. Para mim, bandido é bandido, tenha 13 ou 70 anos. De tudo isso, dessa guerra urbana que grassa e viceja sem freios no Brasil, só tenho uma certeza: nós todos somos, sem nenhuma exceção, vítimas e cúmplices como esta tarde que escurece mais cedo é cúmplice do temporal que pode desabar mais tarde.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Mais uma do do cronista Airton Monte - 10 Fevereiro 2011

Estou com saudades da antiga casa onde morei durante longos 16 anos, da rua José Sombra, dos vizinhos, da calma que reinava aos fins de tarde de domingo. Ainda não me acostumei de todo com a nova moradia, da qual, por enquanto, não me arrisquei a explorar os arredores. Entanto, bem sei que toda mudança traz consigo boas coisas e coisas ruins e é um tanto quanto difícil habituar-se às inevitáveis diferenças. Os amigos não param de telefonar, me convidando para sair, espairecer os pesados ares que pairam sobre minha cabeça. Porém, vontade não tenho nenhuma de botar os pés fora de casa. Acho que virei um ermitão por esses dias, mergulhando numa solidão forçada que não é própria de mim, mormente aos sábados e domingos, quando me aperta a saudade dos bares prediletos e das conversas sem fim com quem divido o copo e o afeto.


Escrevo afagado pela brisa mansa do quintal, enquanto a tarde se encomprida já com os braços abertos para a chegada do anoitecer. Ao meu lado, minha mulher vasculha os jornais em busca de notícias que prenunciem o desencadear de um novo apagão. Estou tão caseiro que só me falta vestir um pijama de listas e calçar pantufas, sem esquecer do radinho de pilha grudado ao pé do ouvido. Um adorável odor de carneiro assado se espalha pelo ar vindo de um restaurante próximo e carros vão e vêm cheios de fregueses habituais e turistas. De qualquer modo, não posso afirmar que o dia esteja transcorrendo num clima desagradável apenas por restar em casa, sentado a uma mesa, escrevendo o que me vem à cabeça, ao invés de haver ido passear pela cidade, descobrindo novidades, aproveitando o domingo, como muita gente está fazendo agora.


Engraçado, daqui da nova casa, consigo ouvir o carrilhão dos sinos da Igreja dos Remédios convocando os fiéis para a missa das cinco, o que me dá uma boa sensação de familiaridade. Paro por alguns minutos o que estou fazendo e me deixo a ouvir os sinos como se rezasse. Isso me faz pensar no que diz Dona Lúcia Dummar:será que minha religiosidade está voltando? Sinceramente falando, não sei se seria bom ou mau para este suburbano escriba a esta altura da existência. Porém, não é nada que cause grandes preocupações diante de tantas outras inquietações terrenais que me corroem a alma. Questões e problemas que infestam meu cotidiano e que não me dão mais tempo para pensar em mais nada a não ser na sua pragmática resolução. Mas, viver é assim mesmo, com marés cheias e marés secas, tempestades e calmarias e que é preciso, como um velho marinheiro, ir levando o barco devagar.


Na verdade, penso que estou com saudade de tudo que deixei pra trás. Para ser mais preciso, acho que estou mesmo é com uma saudade agoniada de mim, de como eu era e estava há uns três meses atrás. É, por vezes, a gente sente saudade da gente. Outrossim, de que me adianta ficar chorando, macambúzio pelos cantos, se a vaca foi pro brejo e eu não nasci com vocação para caubói? Pior seria se eu não sentisse nada, se minhas todas emoções de súbito congelassem e me transformassem a alma numa geleira glacial. A vida continua seguindo seu ritmo cá dentro e fora de mim com seus prazeres, alegrias, tristezas e angústias habituais. Isto é o que se chama da velha condição humana. Mas que me vem um desejo de beber até o mais profundo esquecimento, de ser, por esta tarde a goela sedenta da cidade inteira. Ah, isso dá. Porém não posso, não devo, não quero.


Airton Monte - 8 de Fevereiro de 2011


Eu juro que sim, por Deus do céu e tudo quanto é mais sagrado nesse mundo e no outro, que há certas coisas predestinadas a acontecerem somente comigo e geralmente de uma maneira absolutamente inexplicável. Coisas que me sucedem sem que eu delas careça, as deseje ou as peça a não sei qual entidade. Outro dia, chegou-me às mãos uma dessas pesquisas surpreendentes ou não tanto, realizada não sei onde e feita por não sei quem (na Internet se acha cada coisa) sobre os hábitos de leitura do varonil povo brasileiro. Pelos meus olhos incrédulos passou uma relação de números cruéis, implacáveis, inacreditáveis, que me revelaram uma pobre nação de apedeutas pertencentes a todas as classes sociais, sem exceção.

Imaginem que 50% da nossa pátria população, que ainda sabe ler, não lê sequer revista de quadrinho, quanto mais livros. O restinho que pratica o ato da leitura, o faz muito mais por alguma imposição estudantil do que exatamente por puro deleite e prazer. Além do mais, pra piorar consideravelmente a situação, apenas uns míseros nove por cento dos que se afirmam letrados são capazes de meter a mão no bolso e comprar um livro regularmente, por mais barato que seja. E uns escassos sete por cento pegam num livro para desfrutá-lo. Isso sem falar num porrilhão de gente que jamais adquiriu na vida um simples jornal, uma mera revista, um prosaico álbum de figurinhas.


Mesmo nas classes mais abastadas, em que dinheiro não é problema, a ojeriza à leitura permanece sendo mais a regra do que a exceção. Portanto, devo concluir que tamanho analfabetismo cultural não é somente fruto de diferenças sociais. Por ordem de preferência popular, os autores mais lidos no Brasil são aqueles dos manuais de auto-ajuda, de livrinhos de caubói e de historinhas açucaradas de amor vendidos em banca de jornal e, claro, o indefectível Paulo Coelho. Não sei, talvez seja por uma crônica falta de intimidade com a leitura, que qualquer fulano capaz de alinhavar duas ou três frases num papel vai logo sendo rotulado impunemente de escritor, com toda a pompa e circunstância de que se acha merecedor e não demora a pleitear um lugar em uma de nossas várias academias.


E pela enxurrada de lançamentos de livros que inunda nossa Taba de Alencar, bem que Fortaleza merece ostentar o título de cidade com mais escritores por metro quadrado do mundo, merecendo entrar com louvor e mérito no livro Guiness de recordes. E haja uma galopante inflação de primas obras perpetradas por poetinhas imberbes, matronais senhoras, provectos senhores que acabam sendo citados nos jornais como grandes autores da moderna literatura cearense. Lançam, todos os dias do ano, sugestivos títulos como Baú de Recordações, Coivara de Letras, O Último Burro, Respingos de Felicidade Conjugal, Pomar de Sonhos, A Lira Esplendorosa e outras barbaridades que tais. Todos se consideram gênios da raça. Vivemos atualmente um torturante dilema de mercado, numa terra onde os “escritores” são infinitamente mais numerosos que os leitores.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Airton Monte Os Extremas

Airton Monte - Publicada em 11 de Fevereiro de 2011

Airton Monte - Os extremas

No começo, bem no comecinho da história do futebol no Brasil, na época longínqua em que o introdutor do glorioso esporte bretão em nosso país, Charles Miller, trouxe a primeira bola da Inglaterra, os extremas eram chamados de “wingers” e Garrincha ainda não havia nascido, nem Julinho, nem Canhoteiro, nem Pepe, nem Sir Stanley Mathews, verdadeiras lendas vivas dessa posição ora em extinção na prática do ludopédio em todos os cantos do mundo. Ao depois, quando me entendi por gente, lá pelos quatro aninhos de idade, ao aprender a ler praticamente sozinho nas páginas dos jornais, a história já havia mudado. Nesse tempo, os caras que jogavam pelas bordas do gramado ou eram laterais ou eram pontas, ponteiros. Os laterais defendiam, os pontas atacavam como livres atiradores.



Não importava a maneira como eram chamados. Quer fossem wingers, pontas, ponteiros, extremas, o que essencialmente os caracterizava como tais, a sua razão de existir era o drible, a ginga, o balanceio do corpo, armas fatais com as quais iludiam, ludibriavam os seus implacáveis marcadores, ultrapassando-os e rumando, céleres bailarinos, em direção à linha de fundo e de lá cruzavam a pelota, alçando a bola, como um poético míssil, com uma precisão cirúrgica, na cabeça ou nos pés dos artilheiros. Em minha cabeça, as memórias do que vi tantas vezes das arquibancadas dos estádios, me ajuda a imaginar a cena lúdica, artística:Garrincha, com a esfera entre os pés, encara, imóvel, o seu feroz adversário, o Maracanã inteiro guardando o mais completo silêncio. Súbito, uma pausa, o rápido movimento, o drible, o cruzamento e Quarentinha, dentro da grande área, fuzila o goleiro e gol.



Os extremas, os pontas sempre foram ou deveriam ser o símbolo maior da existência do inesperado no futebol. Cabe a eles a criação da poesia presente nos campos sob a forma sutil de um drible capaz de arrancar os risos e a admiração da platéia, porque todo ponteiro possui um quê de Carlitos, seja num jogo de copa do mundo ou numa pelada de várzea. Tanto faz, como tanto fez, se é ponta direita ou ponta esquerda, os extremas devem ter, obrigatoriamente, o talento e a indispensável capacidade de improviso de um músico de jazz ou de um chorinho brasileiro, com indubitável certeza. Os extremas devem ser imprevisíveis, pois guardam em si a essência maravilhosa do surpreendente. Nunca se sabe o que a sua imaginação vai inventar na hora de driblar. A ginga do jogo, o vai-não-vai e quando o defensor se dá conta, o extrema já se foi, lépido e fagueiro, agitar a zona do agrião.



Posso estar completamente equivocado, porém, discordo em gênero, número e grau da esmagadora maioria dos que amam o balípodo, sejam torcedores ou profissionais da crônica futebolística, que proclamam, aos quatro ventos, ser o gol o orgasmo do futebol. Todos eles podem estar cobertos da mais plena razão e quem sou eu para dizer que todos estão errados na sua abalizada opinião? Entanto, na minha modesta visão de frequentador de mais de cinquenta anos de arquibancada, o lídimo, claro e verdadeiro orgasmo do futebol é, em verdade, sua majestade, o drible, além de considerá-lo uma verdadeira arte. Se há um jeitinho brasileiro, despido do menor resquício de desonestidade, esse é o drible e o drible é o que define os extremas. Eu vi Garrincha driblar e descobri, entre espanto e maravilha, que naquelas pernas tortas residia o mágico segredo do futebol de todos os extremas, assim na terra como no céu.


Airton Monte - Solidão

A sempre boa e bem escrita do poeta cearense Airton Monte e publicada no dia 4 de Novembro de 2008.

Airton Monte - Solidão


É meia-noite, assim me diz o meu relógio e mesmo sem querer acreditar, eu tenho que simplesmente acreditar. Quem de nós vai se arriscar a brigar com o tempo? É, pois é, como poetaria Gonzaguinha: vida vamos nós e não estamos sós. Meia noite. A Hora Grande. Parece que vejo fantasmas, ah, mas fantasmas perfumados de jasmins me diz o amigo de todas as horas de atroz solidão: Chico Buarque de Holanda. É meia noite e escrevo, solitário, mas não tanto. Na verdade eu sempre estive só, tão só, que me habituei à solidão, velha companheira.

Que saudades do meu pai, que a esta hora, merecidamente, já deve estar amortalhado nos braços generosos de Morfeu, imerso, no mínimo, no sétimo sono. Que vontade de ligar para o meu bom amigo Erle Rodrigues, mas fico com medo de incomodá-lo. Afinal, já passa da meia noite e meu velho amigo Erle Rodrigues já deve estar no mais completo repouso. E, aqui pra nós, que direito tenho eu de incomodar os meus amigos a esta hora tardia da noite? Sim, estou sozinho, no alpendre de casa, com meus cachorros, embora toda solidão do mundo resida em mim.

Claro, meu caro poeta Airton Monte, que você está absolutamente sozinho nesta noite de merda ouvindo Al Jarreau e daí? E daí cara? Você está crescido, você é uma merda de um sujeitinho de cinqüenta e nove anos e todo o resto da vida pela frente. Pois sim. Contudo, me pergunto, um tanto quanto inquieto: mas que tipo de vida? Morando em casa alugada, eternamente preocupado com a bosta do dinheiro e a oficial extorsão do imposto de renda. Nada disso tem qualquer importância. Nada, neste momento tem a menor importância. Nem a morte dos meus filhos.
Nada, nesse momento único e insuportável, carece de importância. Ponto. Parágrafo. E começar de novo a tecer novas palavras, tantas quantas me sinto capaz. E a noite vai seguindo o seu ritmo. E eu não consigo ouvir estrelas, a não ser que todas se chamassem Marilyn Monroe. Enquanto isso, o demoniozinho que habita em mim me diz, me aconselha que eu me embriague e beba toda a cerveja do mundo. Embriagar-se é uma saída muito fácil. Prefiro encarar a solidão de frente que nem um sapo engolindo um cigarro.



sábado, 12 de fevereiro de 2011

Airton Monte _ "Solidão"

não pecisa nem dizer que a crônica a seguir é de Airton Monte!!! Se Chama " Solidão"" Mui bem escrita!!!!!!!!!!



Solidão


É meia-noite, assim me diz o meu relógio e mesmo sem querer acreditar, eu tenho que simplesmente acreditar. Quem de nós vai se arriscar a brigar com o tempo? É, pois é, como poetaria Gonzaguinha: vida vamos nós e não estamos sós. Meia noite. A Hora Grande. Parece que vejo fantasmas, ah, mas fantasmas perfumados de jasmins me diz o amigo de todas as horas de atroz solidão: Chico Buarque de Holanda. É meia noite e escrevo, solitário, mas não tanto. Na verdade eu sempre estive só, tão só, que me habituei à solidão, velha companheira.

Que saudades do meu pai, que a esta hora, merecidamente, já deve estar amortalhado nos braços generosos de Morfeu, imerso, no mínimo, no sétimo sono. Que vontade de ligar para o meu bom amigo Erle Rodrigues, mas fico com medo de incomodá-lo. Afinal, já passa da meia noite e meu velho amigo Erle Rodrigues já deve estar no mais completo repouso. E, aqui pra nós, que direito tenho eu de incomodar os meus amigos a esta hora tardia da noite? Sim, estou sozinho, no alpendre de casa, com meus cachorros, embora toda solidão do mundo resida em mim.

Claro, meu caro poeta Airton Monte, que você está absolutamente sozinho nesta noite de merda ouvindo Al Jarreau e daí? E daí cara? Você está crescido, você é uma merda de um sujeitinho de cinqüenta e nove anos e todo o resto da vida pela frente. Pois sim. Contudo, me pergunto, um tanto quanto inquieto: mas que tipo de vida? Morando em casa alugada, eternamente preocupado com a bosta do dinheiro e a oficial extorsão do imposto de renda. Nada disso tem qualquer importância. Nada, neste momento tem a menor importância. Nem a morte dos meus filhos.

Nada, nesse momento único e insuportável, carece de importância. Ponto. Parágrafo. E começar de novo a tecer novas palavras, tantas quantas me sinto capaz. E a noite vai seguindo o seu ritmo. E eu não consigo ouvir estrelas, a não ser que todas se chamassem Marilyn Monroe. Enquanto isso, o demoniozinho que habita em mim me diz, me aconselha que eu me embriague e beba toda a cerveja do mundo. Embriagar-se é uma saída muito fácil. Prefiro encarar a solidão de frente que nem um sapo engolindo um cigarro.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Pior time da história. Será mesmo?

Como o momento para torcida vascaína não é dos melhores , resolvi postar hoje um bom texto que um jovem jornalista seguidor do time da Colina escreveu num sítio vascaíno , para mim ele retrata bem a realidade da torcida Vascaína , notem a lucidez desse texto , a sobriedade que acredito ser peculiar a grande maioria da infinita torcida vascaína!! O nome do autor é Pedro Canuto.Ei-Lo :

Por Pedro Canuto

Quando nasci em 1981, já era um projeto de torcedor. Filho de jornalista esportivo, tive meu destino praticamente selado desde o meu parto.

Haveria de ser ponta direito, jornalista ou amante do futebol. Talento em campo, nunca tive. Como jornalista, preferi ser publicitário. Como amante de Futebol, descobri o Vasco da Gama.

Surgiu como pura magia. Desde os 5 anos de idade frequentava o Estádio Rei Pelé de Alagoas. Sempre na mesma cadeira logo abaixo da tribuna de imprensa, aonde meu pai no alto de seus 1,94m ficava com um olho no campo, anotando atenciosamente cada passe, cada drible, produto em abundância na época até para os modestos CRB e CSA de Alagoas. E com o outro olho ficava a espionar cada lance que seu filho peralta e inquieto, quase uma bomba relógio de proporções diminutas na época.

Era impossível ver-me parado e/ou concentrado com algo. Era um menino danado. Hiperativo (para quem não sabe do que se trata, pode clicar no link). Mas, apenas uma coisa funcionava melhor que calmante ou babá para segurar aquele menino incontrolável feito trem.

O futebol.

Naqueles 90 minutos no Rei Pelé, mais conhecido como Trapichão, era completamente dominado. Não sabia ler ainda, mas já decorara a escalação do CRB sem dificuldades.

Até então, futebol para mim, era assistir um jogo no Trapichão. Já era vascaíno, mas quando o amor aflorou, foi aos 8 anos de idade que por acaso, assisti a final do campeonato de 1989. Gol de Sorato.

Cresci cada dia mais apaixonado. Um casamento perfeito. A grandeza do Vasco me enchia ainda mais de orgulho. A rivalidade com o Flamengo e o domínio sobre o flu e o botinha nos anos 80 e 90. Colecionei grandes nomes e craques do futebol mundial com a cruz de malta colada no peito.

Lembro em 1992 quando o Vasco disputava a copa do Brasil contra o CSA lá em Alagoas. Meu ídolo era Bebeto e com ele, o menino, quase adolescente ainda guardava um amor infantil pelo Vasco. Amor este que permanece igual até hoje, intacto.

Naquela ocasião, conheci o Bebeto e ele prometera dar-me a camisa do jogo. Cumpriu com sua palavra e com a camisa ainda suada, a assinou e me deu como presente. Presente este que guardo até hoje. Sem a assinatura, por um descuido da funcionária de minha casa, mas o sentimento pelo presente é como se tivesse sido tatuada no meu couro vascaíno.

Pude ver o Vasco ganhar tudo que disputou, conhecer novo ídolos e vi com meus próprios olhos, todos os jogos transmitidos do Vasco naquele fantástico ano de 1997. Vi o melhor jogador do mundo de 1997 vestindo e marcando muitos gols com a armadura sagrada de São Januário. Edmundo!

Pra mim não importa que o eleito pela FIFA tenha sido o Ronaldinho. Ele foi um dos maiores astros da história. Mas em 1997, ninguém no mundo jogou mais bola que o Edmundo. E eu vivi todo esse tempo.

Vi um sujeito apaixonado pela cruz de malta, talvez o mais apaixonado entre todos, confundir amor por poder, coragem por imposição e esquecer que um clube é de seus sócios e torcedores e não próprio. Vi tornar-se de um grande dirigente a um péssimo ditador.

Já acreditei até que Jr Baiano e Odvan eram craques e que o Romário tinha amor pela camisa vascaína. Acreditei com toda aquela atenção que fazia o menino danado e hiperativo parar, ouvir, ver e sentir a emoção do futebol; em todo o esplendor de uma concentração inexplorada, até então, de que o Vasco é maior do que tudo e todos. Honrei meu amor assistindo todos os jogos in loco que a distância me permitiu e o bolso pode pagar. Ignoro os maus agouros e as ironias que a vida me apronta.

Afinal existe ironia maior do que ver um gigante se apequenar. Hoje no alto dos meus 1,97, um gigante diante da média nacional quero me sentir novamente pequenino e ver apenas o futebol com o encanto de uma paixão. Esfuziante. Entorpecente.

Porque é preciso ignorar técnica e brilhantismo. Ignorar a história que conheci. Esquecer toda aquela glória que vivi, para somente assim, com toda coragem que ainda me resta e com todo amor que sempre hei de ter, poder parar tudo da minha vida e sentar para assistir uma partida do meu Vasco de hoje.

Desde quando meu coração pulsou e vibrou em 89, mudei quem eu era, assim são os amores, capazes de nos transformarem em pessoas melhores. Tomara que o meu amor seja capaz de fazer um Vasco melhor.

E quando aquela criança viu um drible findando em gol, nunca mais fui o mesmo. Que o Vasco volte a ser o mesmo.

É com toda essa paixão que ainda mantenho o sorriso, mesmo assistindo o pior time do Vasco que meus olhos insistem em ver e meu coração insiste em ignorar a dor que me atinge.

“Enquanto houver um coração infantil, o Vasco será imortal”. ( Cyro Aranha )