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quarta-feira, 23 de março de 2011

Airton Monte - Salão de barbeiro - 21 Mar 11

Sou um desses homens de sorte que não possui razão de se queixar da infância que teve. Menino criado solto no vasto parque de diversões das ruas, ainda pouco frequentadas pelos carros e se podia brincar pelas calçadas, disputar encarniçadas peladas no meio do calçamento pavimentado com paralelepípedos irregulares. O maior risco que corríamos era quebrar um braço ou uma perna ao saltar dos muros ou cair de mau jeito do galho de uma árvore. Ah, havia também pairando sobre nossas cabeças a eventual ameaça de uma surra de criar bicho aplicada pelo cinturão implacável do pai depois de perpetrar uma danação daquelas. Afora isso, depois de nos livrarmos da prisão da escola e da chatice do dever de casa, tínhamos o resto do dia para desfrutar da imensa liberdade que os meninos de hoje desconhecem, coitadinhos.


Quando aprendi a ler, a saber mais das coisas do mundo e da vida, um dos meus lugares preferidos, onde ficava horas seguidas, era o salão de barbeiro de meu avô João Eusébio do Monte, instalado na sala da frente de sua casa. Até hoje guardo intacto na memória aquele local mágico, uma fonte inextinguível de novidades que saciavam muito da minha sede de infantil curiosidade. Dominando o ambiente, reinava a grande cadeira de barbeiro da conhecida marca Ferrante, de uma cor negra, lustrosa na qual tantas vezes me sentei para cortar o cabelo e me sentir tão importante quanto um adulto, embora dali saísse de cabeça quase pelada, um mais que eficaz preventivo contra os piolhos que costumavam infestar a meninada. Inclusive eu, que como todo menino não era muito chegado a tomar banho e geralmente obrigava os que me cuidavam a me banharem à força feito um bicho selvagem.


Defronte à imperial cadeira, havia um grande espelho a refletir imagens como o olho de uma câmera espiã. Abaixo dele, um balcão comprido de jacarandá, onde repousavam os instrumentos de trabalho de vovô. Os vidros de loção, os potes de brilhantina, os pincéis, tesouras, navalhas, os aventais, toalhas de um branco imaculado, os pentes de variados tamanhos, o espelho de mão para que o freguês pudesse apreciar o resultado do corte da cabeleira sob os mais diversos ângulos. Minha avó Maroca cuidava de tudo, da limpeza à contabilidade, além da sua constante presença impor ordem e respeito dentro do estabelecimento. A um canto, perto da janela, um rádio de válvulas sobre uma mesinha irradiando música e noticiários para distrair a freguesia enquanto se cumpria o masculino ritual da barba, cabelo e bigode.


Ninguém entendia muito bem que motivo levaria um menino feio, cabeçudo, usando uns óculos com grossas lentes de míope que quase lhe cobriam a cara inteira, a permanecer tanto tempo naquele ambiente, sentado muito quieto numa cadeirinha, sempre com um livro nas mãos. Se me perguntavam o porquê de eu estar ali ao invés de estar brincando com outros petizes, eu dava respostas evasivas, qualquer uma que me viesse à cabeça, menos a única verdadeira. E mesmo se eu a contasse, dificilmente alguém acreditaria que estava ali apenas para ouvir as histórias da vida real que os fregueses comentavam com meu avô. Fofocas da vizinhança, fatos do cotidiano que eu escutava atento como se ouvisse contos de aventura. O salão de barbeiro de vovô mais parecia uma redação de jornal, de tão povoado de notícias. Mal sabia eu que ali, no salão de barbeiro de meu avô, de tanto ouvir histórias, estava aprendendo a escrevê-las.

Airton Monte - O Não Poeta - 18 Mar 11

Como há coisas que ingenuamente penso que só acontecem comigo, espantar-me eu nem sequer me espanto mais quando bato de frente com o inesperado. De tanto ocorrerem, quase já se tornaram rotina em meu atribulado cotidiano. Ontem, por exemplo, num dia absolutamente comum, desses que vive qualquer cidadão, conheci, na padaria a poucos quarteirões de casa, o primeiro “Não - Poeta” de minha existência. E olhem que já faço parte do alencarino cenário literário faz muito, muito tempo. Aliás, há mais tempo do que gostaria, porque haja paciência para aguentar e tratar civilizadamente o batalhão de chatos profissionais que proliferam nesse ramo da atividade humana. São os chamados ossos do ofício, percalços inevitáveis de quem escolhe percorrer esse mais que concorrido caminho das letras. E não foi por falta de aviso.


Pois muito bem. Onde estávamos mesmo? Ah, sim. Numa padaria bem sortida, na qual este suburbano escriba tentava calmamente comprar um saco de pão de forma e algumas rodelas de salame. Mal cheguei a escorar-me no balcão, o tal de “Não – Poeta” não perdeu tempo assim que me reconheceu. Prontamente, foi logo se apresentando com a maior desenvoltura. Estendeu-me a mão num gesto largo, cheio de sorriso e de uma discreta empáfia, assim falou: - Prazer, você é Fulano de Tal, cronista de jornal. – Respondi que sim e ele retrucou: - Meu nome é Sicrano da Silva e sou um Não – Poeta! – Que sorte a minha, pensei cá com meus inexistentes botões, já que estava envergando uma gloriosa camiseta do meu amado Botafogo. Eu, que entrei aqui para levar salame e pão de forma, tenho agora, de lambugem, o supremo privilégio de conhecer o único “Não – Poeta” de todo o universo.


A esta altura do campeonato, eu talvez carecesse de indagar o que diabo seria um “Não – Poeta”. O próprio me poupou o trabalho de cansar o bestunto com tal perquirição, definindo, de modo preciso, sem que eu precisasse dizer mais nada, a sua literária condição. Ora, nada mais fácil de saber, pois “ Não – Poeta” trata-se de todo aquele que cultiva a suma pretensão de fazer a “Não - Poesia”. Mas, afinal de contas, que seria essa tal de “Não – Poesia” no jogo do bicho? Que apito ela tocaria na charanga dos poemas? Em primeiro lugar, explicou-me ele, é importantíssimo jamais confundir a “Não – Poesia” com a “Anti – Poesia”, que é a negação da poesia e, portanto, tão poética quanto aquela que almeja negar. Em verdade, a “Não – Poesia” define-se como o nada multiplicado por coisíssima nenhuma elevado à concretina potência. Entendido? Ficou claro? Limpo de dúvidas? Querem um exemplo?


Se assim o querem, lá vai um: “o pássaro e outra encruzilhada e torre de radar e ninho, o voar que as asas têm dentro do quarto”. Alguém capaz de compreender? Nem eu. Entanto, que ninguém se sinta vexado por causa disso, pois propositalmente a “Não – Poesia” há de ser feita para não ser compreendida. Sabem como é essa questão ambígua de princípios, vamos dizer assim, supostamente estéticos. Como é do conhecer de todos, desde tempos imemoriais, o poeta é poeta pelo simples fato de que não pode deixar de sê-lo. Agora, “Não – Poeta” qualquer um o pode ser. Basta dizer que é, nem precisa escrever. O “Não – Poeta” comete o seguinte modus operandis: cerca-se de vários dicionários e sai catando palavras ao léu. Mistura tudo, depois despeja no primeiro papel à vista. O “Não- Poeta”, quando em fase radical, prefere papel de embrulho de açougue ou peixaria. A única desvantagem de ser “Não – Poeta” são as não – musas, a não – paixão, o não – aplauso, o não – leitor.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Airton Monte - A Mulher Ignota - 17 Mar 11

Boa de mais Airton Monte !!!

Sinto uma enorme falta das belas cartas de amor que uma mulher desconhecida e misteriosa costumava me escrever e que apareciam, como num passe de mágica, ma minha caixa do correio. As cartas vinham envoltas em um olor de perfume e cheiravam a jasmim. A letra dela era tão bonita que chego a ter certeza de que a mão que as escrevia estudou caligrafia. Os envelopes não continham o nome da remetente e eram mandadas sempre de uma agência dos Correios situada no centro da cidade. Chegavam tão regularmente de 15 em 15 dias que foram se tornando parte da rotina e eu me habituei a recebê-las e as lia, escondido da minha mulher, com a satisfação de um amante que acalenta um amor proibido. Com pejo, confesso que as lia, altas horas da noite, trancado na solidão do banheiro feito um menino pecando solitariamente.


A cada vez que as lia, brotava em mim uma lírica comoção, não fosse eu um desses românticos irremediavelmente incuráveis que ainda se emocionam sinceramente com um gesto de ternura alheia, quanto mais vindo de uma mulher que me era e permanece sendo completamente desconhecida. Se me perguntassem qual o nome dessa mulher que me escrevia cartas de amor, eu responderia com a única verdade: não sei. Poderia, quem sabe, chamar-se Ana, Maria, Clarice, Cecília, Joana ou Sylvya com ipsilones. Foi como a batizei. Dei-lhe o fictício nome de Sylvya com ipsilones simplesmente porque jamais tive em minha vida uma namorada chamada Sylvya com ipsilones. Pensei e ainda penso, talvez por poética ingenuidade, não existir no mundo nenhuma mulher chamada Sylvya com ipsilones. A namorada que eu nunca tive e por quem sofro de saudades fantasmas até hoje.


E não ficou só nisso a caminhada da minha imaginação. Também me deu na cabeça inventar-lhe um codinome que traduzisse a distância que de mim separava a mulher que me escrevia apaixonadas cartas de amor. Portanto, passei a chamá-la simplesmente de A Mulher Ignota, a mulher que me amava pelo que eu escrevia sem sequer desconfiar que todo escritor não passa de um falso mendigo, a mão estendida pedindo uma moeda de reconhecimento. A mulher que me escrevia cartas de amor passei a chamá-la somente de A Mulher, sem mais delongas nem explicações desnecessárias, pois cartas misteriosas de amor dispensam explicações, razões plausíveis, motivos certos, pesados, medidos. Da mulher que me escrevia cartas de amor sabia tão pouco, quase nada. Foi bom que assim o fosse. Atraía-me o seu doce mistério, fascinava-me seu bem guardado segredo. Ela, a desconhecida, a inesperada.


Dizia me amar desesperadamente, que criava cachorros no quintal, cultivava flores no jardim e no peitoril das janelas, que gostava de vinho, música, mar, luar, serenatas, dos sonetos de Florbela Espanca e que adivinhava, pelo foto do jornal, um quê de inextinguível tristeza e de ironia em meu olhar. Isso é tudo que sabia dela e me bastava. Pela vez primeira, uma mulher dizia que me amava sem restrições e nada exigia de mim, nada pedia em troca de seu doidivanas amor. Nem compromisso, nem sentimentos recíprocos. Pedia-me unicamente que me deixasse amar sem medos nem constrangimentos. Depois de algum tempo, parou de me escrever. As cartas sumiram, desapareceram e nunca mais soube da mulher que me escrevia cartas de amor e que tanta falta me fazem, mal sabe ela o bem que me causou. Suas cartas espantavam, enquanto as lia, essa tristeza mal cicatrizada nos meus olhos e que A Mulher Ignota poeticamente descortinou.

Airton Monte - Um Anjo Torto 14 Mar 11

Airton Monte - Dedicada ao poeta Carlos Drummond


Pois teve um Drummond no meio do caminho da minha vida. Um tal de Carlos Drummond de Andrade. Um poeta mais do que moderno: eterno. Ele se dizia poeta menor e de ritmos elementares. Que milagre é Drummond? Que sonho? Que sombra? Um mago? Um bruxo? Uma verruma do mais puro diamante a poesia deste poeta Carlos. Sempre perguntando, indagando, sugerindo. Investigando a vida e o depois da vida exaustivamente. Percebo em Drummond a vitalizante floração do cotidiano, a vivência do homem enfiado no seu tempo, embora a agulha do seu bordado poético vá cerzindo passados, presentes e futuros. Um poeta sem nenhum medo das palavras. Pois quantas palavrinhas marginalizadas do universo poético não foram alforriadas por ele? Mesmo ao mergulhar na subjetividade, quando se escreve, nos conduz além da aparência habitual das coisas, na busca desesperada de uma realidade mais profunda.


Pra mim, Drummond é um mergulhador. Um caçador de pérolas. Sem pejo de sujar as suas asas de anjo torto na lama, no lodo, no limo dos abismos da alma. Soube assumir, com toda a dignidade de um poeta, a sua própria miséria, a sua própria beleza. Que jamais lhe peçam a mordaça da coerência. Um homem livre, sem peias, sem freios. Este poeta ensinou-me que a minha história pessoal, a história de qualquer ser humano pode ser mais bonita que as aventuras de Robinson Crusoé. E que a Terra do Nunca é o território do meu coração. E que dentro de nós há sempre um Peter Pan moleque disfarçado na figura de um senhor de rosto grave, de reto crânio calvo e uns óculos espessos. De ar tímido e olhar irônico. Um sujeito que não xingava a vida, pois sabia que a gente vive, depois esquece. E que a história do homem sobre a Terra está cheia de teias de aranha.


Quando leio seus poemas, sinto-me inevitavelmente confrontado com a humanidade empenhada na infindável luta contra o destino e suas armadilhas. O poeta está sempre a nos propor os dilemas fundamentais do existir, do estar-no-mundo: amor, ódio, beleza, vida, morte entremeados num pano de fundo de angústia, esperança, desespero, solidão, todas as forças poderosas que movem nossas ações que precipitam os acontecimentos, as tragédias, o horror, erros, paixões e violência. Apesar disso, põe sua poesia a favor de um mundo melhor ao mesmo tempo que nos exorta a ter mais coragem de viver em um mundo pior. E que chega um tempo em que a vida é uma ordem. A vida, apenas, sem mistificação. Um tempo em que nos dizemos que de nada adianta morrer, apelar para a fuga sem volta rumo ao nosso freudiano impulso de morte.


Tudo no coração é ceia. Tudo se come, tudo pode ser transformado. Drummond prepara uma canção onde todos nós nos reconhecemos. Uma canção que acorda os homens e adormece a criança que reside no âmago de cada um. O mais é simples barro sem esperança de escultura. A poesia de Drummond a vejo como um ritual de celebração à liberdade, à justiça. Os homens de mãos dadas, prenhes do sentimento do mundo. Este, o verdadeiro poema da necessidade humana. É ou não é, José? O poeta nos fala que o último dia do tempo não é o último dia de tudo. Onde a rosa do povo se despetala. Pode ser feia, suja, desbotada, mas é realmente uma flor. Era preciso que um anjo torto nos revelasse o que já sabemos. Em essência, todos os homens se parecem em qualquer parte do mundo. Quando leio Drummond ilumino-me com sua tamanha poesia. Quando morreu, pensei: o último dia na vida de um poeta não é o último dia da sua poesia.

Airton Monte - Sem Explicação - 11 Mar 11

"Apesar de ser domingo, para minha surpresa, nenhum dos telefones deu sinal de vida até agora, o que é coisa rara de acontecer. Nem mesmo os filhos, que para outras plagas viajaram, se deram ao trabalho de enviar uma mensagem sequer pelo Graham Bell. Pelo menos, deve ir tudo bem com meus desdobramentos celulares, assim interpreto de maneira positiva esse filial silêncio. Enquanto estão mergulhados em plena diversão, os filhos costumam esquecer que possuem pai e mãe. A regra habitual é só telefonarem, seja lá que hora for, quando estão passando por aperreios e dificuldades. Portanto, por enquanto, deixo-me restar quieto no meu canto, aproveitando a paz e o sossego que me foram concedidos provisoriamente. Digo provisoriamente, porque quem tem filhos se acostuma a viver no que chamo de estado espiritual de por enquanto, em um infindável compasso de espera até que eles voltem para casa sãos e salvos de suas semanais aventuras.


Devo confessar, antes de tudo, que há pouco eu estava realmente perdido, enredado em um cipoal de pensamentos vagos, ideias vadias, sem saber como começar esta crônica. De quando em vez tal situação de branco acomete a inquieta mente de quem se vê forçado pela dura missão de escrever todos os dias, quer esteja com vontade ou não e eu desconfio muito da tão decantada fidelidade das minhas volúveis musas de plantão. Nem sempre elas estão dispostas a colaborar com este humilde cronista pousando-me nos ombros feito dóceis passarinhos, sussurrando-me as palavras necessárias, as frases indispensáveis que me despertem a imaginação. A inspiração soprada pelas musas é passageira e imprevisível qual as chuvas de verão. Impossível confiar verdadeiramente nesse eventual auxílio.


No fim das contas, aquele que escreve por ofício só pode contar é consigo mesmo e haja sangue, transpiração e, por vezes, um esforço hercúleo do já sambado juízo. Foi o que aprendi desde que sonhava em tornar-me escritor. O resto não passa de conversa fiada de certos turistas das letras que escrevem por puro diletantismo. Eu não escrevo porque assim o quero, eu escrevo porque não posso viver sem fazê-lo. Mexer com as palavras, contar histórias faz parte do meu show e da minha humana essência. Se exerço esse ofício bem ou mal passa por outro nível de discussão, cujo resultado final não reside nas mãos dos críticos, como muita gente pode pensar. A decisão de ler o que escrevo ou ignorar as minhas mal traçadas fica a cargo dos leitores. Eis uma lídima verdade incapaz de ser negada. É ou não é, Seu Zé?


Claro que eu continuaria escrevendo as minhas lérias quer fossem publicadas ou jazessem enterradas nas gavetas da escrivaninha, em caixas inúmeras espalhadas pela casa, servindo de repasto para traças e cupins. Escrever nem é fácil nem difícil. É uma coisa natural, espontânea para cujo nascimento quem escreve não encontra explicação. Também desconheço se é um dom, uma bênção ou maldição. Quem sabe, não seja uma vocação herdada de algum antepassado. Meu bisavô, por exemplo, era poeta e foi um dos fundadores da Padaria Espiritual. Quiçá não passe de uma mera coincidência e eu tenha nascido escritor por obra do acaso. De nada tenho certeza, quanto mais dessas sutis artimanhas dos genes. Só sei que vou levando a vida enfiado até os gorgomilhos nos misteriosos desvãos da literatura. Não escolhi esse caminho. Por ele fui escolhido."

Airton Monte - Tempos de Ilha ! - 10 Mar 11

Do grande Airton Monte - Tempos de Ilha !


"Olho as roupas dependuradas nos varais do quintal de casa. Bandeiras domésticas, caseiros pavilhões tremulando, balançados pelo vento do começo de tarde. Brancos, pretos, amarelos, azúis, vermelhos, lilazes formando um arremedo de arco–íris que chora pingos d’água. A secretária do lar vai e vem no varre–varre da vassoura que empunha como se fosse uma arma de um atirador de elite, na incansável luta contra a sujeira. Ergo o olhar mirando acima do muro e percebo que estou cercado por um festival de antenas parabólicas brotando dos telhados vizinhos até onde a minha vista consegue alcançar. Ouço o burburinho alegre das crianças jogando bola na rua aproveitando o vazio deixado pelos carros durante o feriado. Quão triste é um menino obrigado a ficar trancado ente quatro paredes pela insegurança da cidade e a que todos assusta sem nenhuma exceção.


Isso me faz lembrar os meus bons tempos de infância, quando Fortaleza era uma cidade pacata e suas ruas se povoavam de meninos brincando, fazendo danações e esse medo geral, que nos domina, ainda não havia sequer nascido. Lugar de menino era na vastidão das ruas, desfrutando a liberdade das calçadas, embora vez por outra, alguém arrancasse a unha do dedão do pé dando chute em bola de meia. E existiam jardins, oitões, quintais e muito verde e muita fruta nas árvores dos diminutos pomares caseiros. Apesar de uma eventual discussão por motivos banais aqui e ali, imperava uma jovial cordialidade entre vizinhos que se conheciam com certa intimidade. Hoje em dia, infelizmente, as mudanças acontecidas na urbe extinguiram, quase por completo, a inestimável figura do vizinho. Todos moram entre ilustres desconhecidos de quem sequer se sabe o nome. Foi abolido o velho ditado de que nenhum homem é uma ilha, dito e redito desde o tempo do bumba.


Em nome da privacidade acabaram com a solidariedade entre as pessoas que habitam lado a lado. Hoje nos transformamos todos em um triste amontoado de solidões e desconhecimento pessoal. Hoje só possuímos a vizinhança ilusória do universo virtual. O sujeito troca mensagens com outro sujeito residente lá nos cafundós do Judas e não troca um bom–dia com seu vizinho mais próximo. Preferimos conviver à distância, ocultos no anonimato das telas dos computadores, do que nos relacionarmos cara a cara com nossos semelhantes. Entramos e saímos de nossas casas como se embarcássemos e desembarcássemos de nossa ilhotazinha particular, com os rostos escondidos por trás das escuras películas que recobrem as janelas dos nossos carros. É hora de perguntar: afinal, de que ou de quem nos escondemos?


Hoje não passamos de um bando de ilhéus que a tudo e a todos olhamos sem ênfase, tal e qual vivêssemos em mundos paralelos em que a palavra encontro de há muito perdeu o seu significado humano, o que reduz tristemente a nossa indispensável dimensão de humanidade. Ninguém mais deseja se reconhecer no outro, encurtar a distância que nos separa do outro e que nós mesmos nos impusemos. Sim, bem sei que são características do que chamam de civilização pós- moderna, é a natureza do século XXI. Não, não era esse mundo em que sonhei viver e terminar meus dias. Um ermitão a mais em meio a uma multidão de eremitas. Eu ainda gosto de gente, de viver entre gente de carne e osso, plena de sentimentos. Sou um animal que jamais aprendeu a viver separado do bando. Aconteça o que acontecer, seja lá como for, eu nunca serei uma ilha."

Airton Monte 9 Março - Ressaibos do carnaval

Um Pouco atrasada, mas esta crônica do Airton Monte sobre quarta-feira de cinzas tá muito boa!!

Pois é. A Quarta–Feira de Cinzas chegou como uma lúgubre e incômoda visita já esperada, porém escapistamente esquecida por todos os foliões enquanto durou o Carnaval. A cidade amanheceu com as pupilas avermelhadas e negras olheiras de ressaca. Também pudera. Depois de quase uma semana de esbórnia, porres homéricos, mergulhada na sangria desatada do que parecia uma interminável folia coletiva, outra coisa não era de se esperar a não ser festa acabada, músicos a pé, estandartes cabisbaixos, cambaleantes de cansaço e um clima de enterro, de velório da alegria pairando sobre todas as cabeças dos brincantes. Sai-se do sonho da Terra de Momo para cair novamente no duro cenário da cotidiana realidade. A brincadeira acabou deixando seu costumeiro rescaldo de mil alegrias e outras tantas tristezas impregnadas de luto e de saudade.


Dizem ser o Brasil o país do Carnaval e eu, simples mortal comum, acredito piamente nessa definição tradicional, pois as evidências são impossíveis de negar. Além do mais, sem desejar parecer reacionário, creio que todo povo precisa, de quando em vez, de uma aliviante ração de pão e de circo. E o que é o Carnaval senão o reinado (tudo bem, ilusório) do onírico e do delírio, quando são abolidas quase todas as nossas restrições e censuras inconscientes e o nosso implacável vigia, o empata – festa do Superego acaba virando Superégua, fazendo vista grossa para as nossas ensandecidas aventuras carnavalescas. Quarta–Feira de Cinzas é o dia do arrependimento universal, assim como é a segunda–feira quem paga os pecados cometidos no domingo. Pelo menos aqueles dos quais nos lembramos, por serem os mais graves. O resto fica jogado nos desvãos da memória.


Engana-se quem pensar ser o Carnaval uma genuína invenção brasileira. Esquecido está das festanças dedicadas a honrar o deus Baco no mundo antigo dos gregos e romanos, onde a libertinagem corria solta, o vinho atiçando a libido e a orgia sexual envolvia todos os participantes numa grandiosa festa de arromba, onde ninguém era de ninguém, sem distinção de sexo. Afinal, Baco não era um deus dos mais populares à toa. No mundo cristão medieval, o Carnaval tratava-se de um período de festas profanas, iniciadas, geralmente, no Dia de Reis e se estendendo até Quarta–Feira de Cinzas, o dia em que começavam os jejuns quaresmais. Imperavam as manifestações sincréticas de ritos e costumes pagãos, misturando festas dionisíacas, saturnais, lupercais e eliminava-se a repressão das atitudes críticas e eróticas. Que bom!


Como se vê, causando, quem sabe, uma pequena decepção nos mais ferrenhos nacionalistas, não saiu de nenhuma cabecinha brasílica a invenção do tríduo momesco. Assim como o futebol, o povo brasileiro, num rasgo de genialidade, aperfeiçoou o Carnaval, tornando-o realmente a nossa maior festa popular e uma sedutora atração turística. Eu, apesar de não ser um carnavalesco fanático, desses que adora se fantasiar e sair batendo lata pelas ruas nos blocos de sujo, confesso que gosto de Carnaval, porém não boto meus pés fora de casa durante o reinado de Momo. Prefiro deixar-me, se possível, no sagrado recesso do lar, vendo a folia pela televisão. Principalmente, é claro, o desfile das escolas de samba cariocas e seu esplendoroso batalhão de esculturais mulatas. Um santo colírio para as minhas gastas retinas.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Airton Monte - Desejo e Sonho

Airton Monte - 23 Fevereiro 2011 -

Desejo e sonho


Neste mês de fevereiro, os dias transcorrem, climaticamente hesitantes, entre o claro – escuro, com o sol brincando de esconde – esconde por entre as nuvens chuvosas, feito a alma da gente que também segue o mesmo ritmo. Ora estamos refulgindo de alegria e bom humor, ora estamos obscurecidos por eventuais laivos de tristeza. Naturalmente, este balanço pendular das emoções faz parte inevitável da chamada condição humana. O ser humano, em essência, não foge à regra de ser um habitual poço de ambiguidades. E é justamente essa capacidade de sermos imprevisíveis que nos torna interessantes, especiais, um mistério jamais de todo desvelado. Um processo contínuo de descobertas pessoais infindáveis. Uma equação, um teorema impossível de ser concluído com a tradicional expressão final do como queríamos demonstrar.


Penso, em relação ao ser humano, que a célebre indagação freudiana “o que querem as mulheres” deveria ser substituída, para tornar-se muito mais coberta de veracidade por outra mais abrangente: o que quer a humanidade? Aprendi, com os livros escritos por filósofos e sábios, e com a minha própria experiência existencial, ser o homem uma máquina de fabricar desejos e sonhos, que nada mais são do que o motor de nossa breve existência. Estamos sempre desejando algo que ainda não possuímos feito um menino querendo um brinquedo novo e quando o tem em suas mãos, brinca com ele durante alguns dias e logo o abandona, o deixa de lado, esquecido na caixa dos brinquedos velhos. É assim que somos de maneira fundamental e incorrigível. Humanidade, teu nome se chama desejo. Sobrenome insatisfação.


E os sonhos, como é que ficam, onde adentram esta história? E eu respondo, do alto da minha insignificância e da minha filosofia de botequim, que também somos uma máquina sonhar. E sonhamos incessantemente os sonhos mais possíveis quanto os mais impossíveis de serem realizados. Desejos e sonhos não passam de férteis produtos da mesma matriz que povoa nossos corações e mentes. O que seria de nós sem os nossos desejos e nossa, por vezes tola, mas poderosa capacidade de sonhar? Um homem sem desejos e sem sonhos é sinônimo perfeito de irrealidade, de uma entidade ilusória que só existe, viceja no pensamento empobrecido daqueles desesperados que não acreditam em mais nada. Um homem sem sonhos, sem desejos trata-se de uma vera impossibilidade, a não ser quando se está morto, com residência fixa na popular cidade dos pés juntos.


Sim, claro, bem sei que nem todos os desejos podem ser passíveis de realização, assim como a maioria dos nossos mais acalentados sonhos conseguem baixar em nosso terreiro. Coisas da vida, percalços do existir. Por isso, findamos por nos transformar, aqui e ali, em animais assoberbados de insatisfação com nós mesmos, com Deus e o mundo. Nossa curta passagem terrenal oscila entre o piquenique e o vale de lágrimas, entre o carnaval e a quarta – feira de cinzas. E daí? Desejar e sonhar, resistir quem há de? Eu não fujo à regra. Confesso-me movido a sonhos e desejos como qualquer dos meus semelhantes. Quanto mais por baixo estou no carrossel da vida, mais sonho e mais desejo. Sou um incurável usuário e dependente eterno do sonhar e do desejar. Sim, olho-me no espelho. Obviamente percebo que envelheci. Entanto, em cada ruga que me vinca o rosto, sonho e desejo fizeram moradia.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Quintanares!!!!

Esses dias estou tomado por um surto de poemas e poesias, e postarei o poema bastante "sonoro" que o excelente poeta MANUEL BANDEIRA fez em homenagem ao tão excelente quanto o poeta MARIO QUINTANA, esses versos foram publicados em 1966 em homenagem a passagem dos sessenta anos do gaúcho:


"Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares...
Insólitos, singulares...
Cantares? Não! Quintanares!

Quer livres, quer regulares,
Abrem sempre os teus cantares
Como flor de quintanares.

São cantigas sem esgares.
Onde as lágrimas são mares
De amor, os teus quintanares.

São feitos esses cantares
De um tudo-nada: ao falares,
Luzem estrelas luares.

São para dizer em bares
Como em mansões seculares
Quintana, os teus quintanares.

Sim, em bares, onde os pares
Se beijam sem que repares
Que são casais exemplares.

E quer no pudor dos lares.
Quer no horror dos lupanares.
Cheiram sempre os teus cantares

Ao ar dos melhores ares,
Pois são simples, invulgares.
Quintana, os teus quintanares.

Por isso peço não pares,
Quintana, nos teus cantares...
Perdão! digo quintanares."

(Manuel Bandeira)


sexta-feira, 4 de março de 2011

A Semana foi Assim

Sempre tive esse pequeno poema como um modesto, porém sincera e profunda homenagem do excelso poeta,quem sabe o maior das letras portuguesas, Carlos Drummond de Andrade. Não é para menos que esse célebre poeta mineiro era um torcedor do Clube de Ragatas Vasco da Gama e fez essa significativa homenagem ao time da Colina Histórica, o poema se chama " A Semana Foi Assim" , e foi publicado no livro "Quando é dia de Futebol" segue :


“E viva, viva o Vasco: o sofrimento
há de fugir, se o ataque lavra um tento.
Time, torcida, em coro, neste instante,
Vamos gritar: Casaca! ao Almirante.
E deixemos de briga, minha gente.
O pé tome a palavra: bola em frente”.

terça-feira, 1 de março de 2011

Airton Monte - Mal traçadas linhas - 24 Fev 11

Mais uma crônica de Airton Monte datada do dia 24 de Fevereiro de 2011, chama-se "Mal traçadas Linhas"


Airton Monte - Mal traçadas linhas - 24 Fev 11


Tarde parada, quieta feito um cachorro dormindo. Sobre minha cabeça paira um céu que não é de brigadeiro, infelizmente. Até parece que tudo estancou ao meu redor e me deixou ilhado de silêncio e de ausência dos movimentos habituais do cotidiano. É como se eu estivesse completamente sozinho, sentado na arquibancada de um estádio vazio, na vã espera de um jogo que nunca começa. Folheio os jornais do dia. Estão cheios de notícias repetidas que me dão a ilusória impressão de que os matutinos de hoje se parecem por demais com os periódicos de ontem. Entanto, não me entendam mal, pois longe de mim a ideia de querer que o mundo inteiro pare para que eu possa descer na próxima estação como quem pegou o ônibus errado. Sou um passageiro habitual que mais ou menos sabe para onde vai, muito embora, algumas vezes, o destino final não seja o mais desejado, mas tenha que ser cumprido.


Passo por passo sigo o meu caminho porque sei que é justamente esse caminhar sem fim o tributo que me cobra a vida como um implacável credor. E tento ver beleza e poesia em tudo que me cerca. Nem sempre elas estão à mostra de modo explícito, claros raios de luz cortando a escuridão. Para percebê-las é preciso um pouco de paciência para procurá-las nos detalhes mais insossos e insignificantes do dia – a- dia. Nada de pressa nem de olhares de esguelha. A poesia e a beleza se ocultam, se escondem de nosso olhar bem debaixo do nosso nariz e, descuidados, não as vemos porque o cotidiano nos exige pressa, horários corridos e se paramos um pouco, quebrando a rotina, nos parece que estamos desperdiçando o tempo e tempo é dinheiro e de dinheiro todo mundo gosta, inclusive eu, ao contrário do que muitos pensam.


Sentado no alpendre(felizmente, há sempre um alpendre nas casas onde moro e nesta que habito agora) vejo uma pequena aranha refazendo a sua teia prateada, que a chuva quase destruiu, num cantinho do telhado. Repouso a caneta sobre a mesa de trabalho e me deixo a observar o trabalho incansável da diminuta tecelã. E logo me vem o pensamento de que somos iguais a essa aranha, fazendo e refazendo, fio por fio, a nossa vida. Há aqueles que desistem, há aqueles que persistem, insistem, jamais desistem desse infindável trabalho de Sísifo. Claro que em certas ocasiões, nos vem uma vontade quase irresistível de desistir de tudo, de deixar-se levar bovinamente pelas circunstâncias cantando aquele refrão do samba do Zeca Pagodinho: “deixa a vida me levar, vida leva eu”. É bem mais fácil esperar que as coisas boas caiam do céu feito o maná no deserto, por obra e graça dos deuses.


Infelizmente, na realidade, não é assim que a banda toca. Ah, se fosse, mas isso não acontece. Existem pedras no meio do caminho, atravancando a estrada. Então, é preciso escalá-las, arrodeá-las ou explodi-las com a dinamite da nossa vontade. As nuvens negras, o vento as traz e as leva, embora, algumas vezes, depois da tempestade, venha a ambulância. Ou como disse o poeta, se me não falha a memória: à dores imaginárias, prefiro as reais, doem muito menos, embora durem mais. A tarde pode estar escura, porém minha mente está límpida qual água de uma nascente ainda não tocada pela mão do homem. Bebo um gole de minha garapa de cerveja sem álcool(que castigo) e me recuso a pensar no futuro. Procuro apenas pensar no presente como quem escreve uma tola carta de amor ou um bilhete de despedida de quem vai ali e volta já. E realmente volta ao local de partida, sem desaparecer no meio do nada, na vã tentativa de fugir de si mesmo.