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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Airton Monte - Crônica da suadade - 2 de Setembro 2011

 Voltando as excelentes crônicas do Mestre Airton Monte depois de um breve hiato!!

Sim, bem sei que o Dia dos Pais longe se vai. Já se passaram quase trinta dias da mercantilíssima comemoração. Afinal, minha memória anda um tanto quanto gasta, mas não em demasia. Ganhei as paternas oferendas de praxe, tão costumeiras como o café com pão de todas as manhãs. Discos, livros, bermudas, um par de tênis, abraços e beijos dos amados desdobramentos celulares, além de um supimpa repasto na hora do almoço, bastante diferente do de comer cotidiano, como manda a tradição. Ainda bem, meu querido Velho, que você também sabe que seu primogênito não precisa de data marcada em calendário para lembrar-me de você. Se verdade realmente for que os filhos são um pedaço dos pais, que deixamos semeados, espalhados pelo mundo, desde que você se foi, sinto que me falta na alma e no coração um pedaço que não tem mais tamanho e percebo-me incompleto de uma maneira impossível de ser com palavras descrita por mais realistas, exatas que sejam.

Aprendi que a memória é a pior inimiga e a melhor amiga do homem. E que recordações são boas e ruins, alegres e tristes ao mesmo tempo feito irmãs siamesas de nossos sentimentos e emoções. Entanto, seria muito pior a gente não ter do que se lembrar, do que recordar, do que rememorar, mergulhados tristemente numa pétrea amnésia do que vivemos e de quem convivemos. Mal amanheceu o segundo domingo de agosto, acordei cedinho e movido por um incoercível impulso, peguei o telefone e comecei a discar o velho número do Solar dos Monte. Subitamente, dei por mim que não adiantava ligar, pois não ouviria mais, nunca mais a sua forte voz de homem do outro lado da linha, pois a casa estaria imensamente vazia com a sua eterna ausência, meu pai. Lentamente, com um gesto pleno de tamanha dor, desliguei o telefone e caí num choro desatado, lágrimas amargas lavando-me a face no claro- escuro do alvorecer.

Durante alguns longos e intermináveis minutos, que mais se assemelhavam a horas, permaneci ali parado, imóvel, pregado, sentado no sofá da sala, o corpo curvado em forma de vírgula, os olhos fixos no chão como se tentasse ver nos desenhos gravados nos mosaicos o seu rosto, meu pai, o seu rosto. O sol parecia não querer aparecer pelas frestas das persianas entreabertas nem para me desejar um bom dia sequer. Dizem que o sentimento da orfandade costuma apagar-se, esmaecer, diminuir à medida que o tempo continua a sua marcha infindável. Que bela e tola mentira. O meu só faz aumentar a cada dia que sobrevivo nesta mistura de vale de lágrimas e piquenique de escoteiros. A sua ausência me dói tanto, meu pai, me dói demasiado como em doença. De há muito faz que já não vou ao Solar dos Monte. Para mim, é como se ele não existisse mais, tragado pelo furacão da sua partida. Para mim, dá-me a mórbida impressão de uma casa morta desde o dia em que você morreu, meu pai. Coisas da minha cabeça, eu sei.

Quem sabe, medo não seja de enfrentar os velhos fantasmas das nossas gerações que a habitaram. Medo de nela entrar e me sentir um estranho, um forasteiro dentro daquelas paredes onde nasci, vivi a minha infância, a minha adolescência, a minha adultície. Talvez esse medo infantil de não lhe ver mais sentado em sua rede, a televisão ligada, o radinho de pilha grudado ao pé do ouvido, os jornais, as revistas, os livros espalhados pelo chão ao seu redor. Depois, íamos até a cozinha, você assando um suculento bife no fogão de lenha, as cervejas sobre a mesa e as nossas conversas intermináveis entre gargalhadas e os inevitáveis conselhos que você me dava sobe a vida, o presente, o futuro. Quantas saudades, meu pai. Quantas saudades vez em quando me acometem, me assaltam nas noites insones e solitárias. Uma solidão de você que não existe nesse mundo alguém capaz de preencher. Estou envelhecendo, meu pai. Qualquer dia a gente se reencontra, se existe realmente um lugar onde a gente possa se reencontrar.

Crônica - Minha mãe faz 70 - Pedro Salgueiro

"Amor de mãe é mais perigoso para a humanidade do que a Bomba H" (Millor Fernandes)

Minha mãe tem mil e dois defeitos, todos típicos defeitos de mãe.

Acorda cedinho, compra pão, faz o café e leva para a filha preguiçosa. Corre e vai fazer ginástica com os bombeiros. Volta e arruma a sala e varre a calçada e costura na cabeça as primeiras peças do almoço.

Conversa com a sombra, junta as folhas e as falas da vizinha.

Se abanando e soprando a quentura sai para saber do que os filhos (que moram quase todos bem próximos) precisam, uma verdura para a mais ocupada, uma ajudinha com os filhos da professora, uma ligada para a zangada, outra para o descansado.

Mal entra em casa e já maquina ir comprar meio quilo de arroz no mercadinho, um refrigerante mais barato na bodega da Paulino Nogueira, o jornal pra ver a crônica do filho metido a escritor.

Volta para colocar mais água na galinha, mais tempero no feijão.

Liga para a irmã do interior, e (enquanto conversa meia hora) organiza na cachola suas próximas andanças.

Falar com D. Eugênia tem que ser impreterivelmente quando ela se descuida e vai comer e, depois, deita um pouco para assistir ao jornal televisivo, esperando que o sol baixe um pouco lá pras bandas da Igreja dos Remédios... então ela irá (ligeirinha e atenta) visitar seus antigos vizinhos na Vila da Carapinima, onde morou por mais de dez anos.

De tardinha tem suas tarefas da tarde: lavar as louças do almoço, tentar inutilmente acordar a filha que ainda sonha em ter coragem de viver. Liga de novo para algum antigo colega de trabalho, vai pela décima vez ver os filhos da professora, passa rápido pra ver o que comeu o filhinho da ocupada.

De noite tem suas tarefas da noite: toma uma sopinha na casa do mais chato, olha se o genro passou para a caminhada na Praça da Gentilândia; e se for sábado vai à feira pegar as frutas mais baratas, o capote menor e os ovos caipiras.

Então vai descansar na calçada da casa de uma das filhas, mas de olho na danação do loirinho. Logo levanta e passa em frente ao bar do Assis pra vê se o filho mais velho já enche a cara novamente, quando sorri, fala rápido e diz que tem um ovo cozido para a ressaca.

Lá pras dez da noite vai finalmente para casa, arma a rede e assiste ao milionésimo quinto programa da Hebe. Depois arruma as últimas panelas, põe pra descongelar a carne do almoço, limpa o chão, a mesa e a pia “mode” as baratas.

Deita na rede e dorme já pensando no que irá fazer na manhã seguinte.

***

Dona Geni tem mil e dois defeitos, todos eles benditos defeitos de mãe.

Minha mãe procura tempo para tudo... e acha tempo para todos.

Ela só não encontra tempo para envelhecer.



sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Coluna SUPERVASCO - Hélio Ricardo - A jóia chamada Ricardo

  Os fiéis asseclas da cruz-de-malta nunca pensaram diferente. Sofridos, aviltados, desprezados, rebaixados, nunca deixaram de exibir sua paixão pelo clube. Presente em quase todos os desafios do Vasco na Série B aqui no Rio, testemunhei estádios lotados, cânticos ininterruptos, lágrimas, quebras de recorde de público...provas irrefutáveis da grandeza do Gigante.

Sempre achamos e soubemos que o Vasco era grande. Gigante pela própria natureza de escorraçado aguerrido, revolto vitorioso contra as hordas malévolas da elite racista do futebol. Caímos, mas subimos como campeões antecipados. Subimos e seguimos perseguidos pelo bullying visceral dos cruéis detratores, confiando tão somente em nossas bandeiras, nossos hinos, nossas preces, nossas lágrimas.

O Vasco aprendeu com seu maior ídolo a deixar de ser politiquento, panfletário, pretensioso. Engrandeceu-se por seu espírito inovador, navegante, corajoso e humilde. Até encontrar novamente o caminho da conquista e ser mais uma vez campeão nacional.
Roberto se reelegeu. Com grande margem. Em tudo isso, porém, não se viu "a esperança vencer o medo"...não foi preciso, porque o Almirante não conhece e nunca conheceu o medo, tão somente a fé e a coragem!

Agora, já campeão, já respeitado, já constrangendo os detratores e impondo respeito aos adversários, o Vasco emenda bons resultados nas duas competições que disputa e impressiona os críticos.

O que mais nos faltava para comprovarmos tamanha grandeza, tamanho gigantismo, tamanho afã?

Nada, talvez mais nada.

Até que nos veio o "efeito Ricardo Gomes".

Sabe-se lá por que artimanhas peculiares...já dizia o poeta que "a vida gosta de uns ardis".

Alguns não "enxergavam" Ricardo Gomes. Alguns não entendiam o significado das palavras "Ricardo Gomes" no livro do atual Vasco. Então parece que Deus, de maneira singular e incompreensível, tomou sua caneta de ouro e sublinhou o nome de Ricardo Gomes nesta história, mostrando não só o que ele representa para o time de vitoriosos guerreiros cruzmaltinos que formou, mas para todos os grandes clubes e times de todo o país, e até do exterior.
Qual de nós, vascainos, do mais cônscio ao mais criticista, poderia imaginar, antes de tudo isso ocorrer, a jóia humana e profissional que tínhamos nesse cavalheiro Ricardo Gomes?

Descobrimos, dentro do peito de todos nós, o afeto que temos e o bem que queremos a Ricardo Gomes!

Hoje, notícias nos chegam de que ele desperta, reconhece amigos, sorri com a vitória de seus comandados. Vejam vocês: um gigante tombado, que desperta, se renova no amor e na fé de seus seguidores...e até volta a vencer e a sorrir!
Meu Deus...como se confundem, em suas histórias, o Vasco e o Ricardo Gomes!

Estamos entendendo que a dor e o sofrimento nos aperfeiçoaram como a prata se aperfeiçoa no fogo.

E agora podemos redobrar nossas preces, enxugar nossas lágrimas, agradecer a Deus, acreditar que o melhor dá vida chegou, olhar para Ricardo Gomes e cantar - como cantamos, tão emocionados, para o próprio Vasco: "O CAMPEÃO VOLTOU"!

Volta logo, Ricardo! Tua torcida te espera!
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