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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Conto - O preso - Moreira Campos

Que belo e bem trabalhado conto desse excelente literato cearense chamado  MOREIRA CAMPOS - Ele não deve nada a nenhum dos escritores da literatura universal - o conto se chama " O Preso" - percebam o paradoxal desfexo desse conto : 







José Maria Moreira Campos

Dr. Antero, charuto na boca, em mangas de camisa e suspensórios, derramava-se na espreguiçadeira naquela tarde de sábado, os braços para cima, no alto da calçada. Já a sombra das casas deitava-se larga sobre a praça da estação. Viera até ali para uma questão de terras e hospedara-se na casa do próprio tabelião, conhecido velho. Estudara o processo, arrazoara, a pedido seu o do cartório antedatou um documento, e o Dr. Antero deveria voltar na manhã seguinte.
Ao lado, o tabelião, na blusa de pijama e chinelos, jogava gamão com o farmacêutico, figura seca e encurvada, num grande nariz.
- Quina, compadre! - disse o serventuário, esfregando os pés um no outro embaixo da cadeira. - Dou-lhe uma, dou-lhe duas. Tire esta.
O farmacêutico recolheu a pedra num silêncio concentrado. Homem de poucas palavras, quando perdia ficava mudo e aborrecia as expansões do outro.
Dr. Antero tornou a estender a vista sobre a praça. Tirou o charuto melado da boca, cuspindo peles de fumo:
- Há vinte anos que conheço esta terra, e não muda! Já vinte! A mesma coisa. Agora pior, parece.
O do cartório, que era do situacionismo, guardou silêncio. O da farmácia aproveitou-se:
- Falta de um homem na Prefeitura.
- Ah!, isso não, compadre, que ele até tem se esforçado.
- Aonde? Quer dizer a mim?
Dr. Antero escarrou:
- A falta de administração é geral. Uns irresponsáveis!
- Muito bem!
- Cinco e três. Casa de novo, compadre. Tira a sua pedra.
Dr. Antero falava por fado. Mas no momento até aprovava aquela falta de progresso: saturado da capital, todo ele repousava na paz dormente do lugarejo.
A estação em frente. Carros de carga no desvio. Um empregado da estrada de ferro passou firmado na muleta, a lanterna apagada na mão. Um carro de boi esquecido à sombra de velha mangabeira. Perto da cerca, mais à distância, na grama verde, porque era fim de inverno, crianças se divertiam com uma bola de meia, possivelmente. Trecho de serra em frente, saindo por trás da estação, onde as nuvens caíam em grandes manchas na tarde.
O tabelião lembrou-se de que estava na hora do café, e dali mesmo, curvando-se um pouco, gritou para dentro de casa através do corredor úmido e escuro:
- Belinha, um cafezinho aqui, nega.
- Vai já.
Foi aí que Dr. Antero resmungou na cadeira:
- Lá vem gente presa.
Os olhos ergueram-se do gamão e o dono da casa girou a cabeça para ver melhor:
- Vem mesmo.
Um velho mirrado e de pele escura puxava um jumento pelo cabresto, entre dois soldados do destacamento. Atrás vinham alguns moleques, guardando distância, já enxotados pelos soldados.
Ao aproximarem-se da casa, Dr. Antero levantou-se:
- Que há?
O grupo estacou. Os moleques tomaram chegada e se postaram de braços cruzados e escorados nas pernas.
- Ele estava na feira... - iniciou-se um dos soldados.
- Doutor, me solte pelo amor de Deus! Eu peço a vosmecê pela sua bondade. Não fiz nada, acredite.
Esqueceu-se o jogo. Já havia gente nas calçadas e janelas das outras casas. Dona Belinha trouxe a bandeja com café e ficou esquecida também, nas pontas dos pés, para olhar por cima do ombro de Dr. Antero. Alguém derrubou o tabuleiro de gamão: bozó, pedras e dados por baixo das cadeiras.
- Um momento. Mas, afinal? - tornou Dr. Antero.
- Ele tem um apelido. Caroço.
- Mas me chamo Inácio! Que eu não posso atender por um nome desses...
Houve risos em volta e os olhos se detiveram num lobinho que quase cobria a vista esquerda do velho.
- Como? - fez Dr. Antero, pondo a mão em concha no ouvido.
- Caroço. É um apelido. Brincadeira de menino. Começaram a aperrear ele na feira. Zangou-se, deu com o cacete pra trás e pegou no menino na altura da testa.
- Mas só foi na pele. E eu mesmo fiquei agoniado e procurei estancar o sangue. Um vexame, doutor. Frecham em riba de mim todo o tempo. Empurram, atiram casca de banana, toda porqueira que dão de garra (com licença de vosmecê). Vem isto de anos. Já quis até me mudar de canto, se pudesse. Apelo para vossa senhoria.
Dr. Antero irritou-se:
- Isto vale nada! Soltem o pobre homem!
Inácio tomou-se de grande esperança, enquanto olhava para os que o detinham:
- Muito bem, muito bem, doutor!
- Não pode. O menino ferido é filho de Dr. Targino - falou o soldado.
- De quem?
- É filho do juiz de direito - esclareceu o farmacêutico ao lado.
- Meu velho, pra que você fez isso! - disse Dr. Antero, já sorvendo o café e perdendo um pouco do primeiro entusiasmo.
- Não 'tava no meu propósito. Eu peço aos senhores. Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso. Nunca fui. É o que eu digo aos meninos lá em casa. Não tenho paciência de ser preso.
Riram muito com a frase. O tabelião divertia-se, vermelho e todo sacudido pela novidade. Sungava as calças com os cotovelos e comentava em volta de um para outro:
- Hein? Hein? Que tal? Esta é boa! "Não tenho paciência...". Como é que ele diz?
- Eles soltam logo, meu velhinho - adiantou Dona Balinha, fazendo sinal ao marido para conter-se.
- Soltam não, dona. Eu sei o que é isso.
velho apanhava numa das mãos o chapéu de palha desfiado nas abas, o cabresto do jumento enrolado na outra. Pés descalços. Os cotos de unhas negros, comidos pela terra, lembravam nós. Calcanhares gretados. As calças de morim ralo e sujo, curtas nas pernas e com joelheiras. No pescoço fino e de pele engelhada, uma medalha barata num cordão sebento. Os olhos miúdos e escuros confundiam-se com a pele, lá dentro, um deles diminuído pelo lobinho.
Era grande o seu ar de aflição, dirigindo-se a todos os lados, com apelos gerais:
- Vim vender banana nesses caçuás. Antes não tivesse vindo.
Repetia-se, pedinte:
- Moços, vosmecês todos, me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso.
Voltavam a rir:
- Ora, veja!
O jumento, de quando em quando, soprava forte nas narinas, baixando a cabeça, ou dava com a pata traseira para tanger as moscas que lhe mordiam a pisadura na cilha.
O soldado mais novo insistia em que a prisão fosse feita. O outro quase não falava. Limitava-se a soltar cusparadas de lado: nariz vermelho, gordo, o casquete colocado ridiculamente no alto da cabeça, o cinto frouxo na barriga. Piscava e comia os beiços, num tique comum aos que bebem. Dava a impressão de que tudo aquilo para ele era uma grande maçada. Obedecia.
- Toca! - falou o mais novo.
O grupo retomou a marcha.
- Eu não tenho paciência de ser preso.
Já iam distantes, e aqui na calçada o tabelião rindo, enquanto procurava pelo chão um dos dados:
- Como é que ele dizia mesmo?
- "Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso".
- Aparece cada uma!
- Isto é uma judiação! - falou Dona Belinha.
- É assim mesmo. Talvez ele tenha bebido, e foi violento - concluiu Dr. Antero, derramando-se na espreguiçadeira.
Era frente à cadeia, amarraram-lhe o jumento no tronco da mangueira e o meteram na primeira cela, com grades para a praça. Ele ainda se agarrou às barras de ferro da porta, numa súplica:
- Me soltem... eu peço ao senhor.
O soldado girou o molho pesado de chaves e os seus passos se perderam ao longo do corredor.
Vindo da luz, Inácio enxergava pouco ali dentro. Apertava os olhos, pondo a cabeça de lado para orientar-se. Acocorou-se a um canto, onde os olhos miúdos brilhavam. Por fim, foi-se acostumando à sombra: a cela era espaçosa e alta, chão de tijolo úmido, em cima um travejamento forte e antigo. Passou o dedo no tijolo e provou o barro vermelho, supondo que ali tinham guardado sal noutros tempos. Descobriu um caixão de querosene perto da janela, e acomodou-se melhor. Revia os seus: a filha, a mulher e os meninos. Dizia-lhes sempre: "Nunca fui preso, e filho meu não me dá esse desgosto. Está no bom comportamento de cada um". Não sabia porquê, insistia o rosto da filha, que tinha os seus pequenos olhos, o cabelo apanhado num cocó. Encarregava-se de levar-lhe o prato de comida ao roçado, enrodilhado num pano, a colher de latão de través. Ficavam os dois no canto da cerca, sob a sombra do cajueiro, enquanto ele almoçava. O rosto da filha agora encarava-o de perto, em cima, sem compreender o olhar espantado.
Levantou-se e deu várias passadas na cela. Parou em frente à janela. Os olhos ficavam no plano do peitoril e podia avistar o jumento, que cochilava paciente, o cabresto muito curto, os caçuás ainda na cangalha. De quando em quando dava com a pata traseira para frente, tangendo varejeiras.
Ao fundo, a calçada alta, com batentes, de um trecho do mercado. O sol cambava, filtrando-se horizontal e vermelho na luz branda da tarde, e punha na parede da cela os retângulos da grade.
Inácio aproximou o caixão de querosene da janela e alçou-se até a soleira.
O menino que ia passando em frente à cadeia assustou-se vendo aquele braço escuro a acenar-lhe entre as barras de ferro:
- Tenha medo não, meu filho.
- Hem?
- Ouça. Aí mesmo da ponta da calçada.
- Que e?
- Olhe, solte ali aquele jumento. Ele é meu. Quer se deitar e não pode. Tire o cabresto e me dê.
- Vai embora.
- Faz mal não. O menino obedeceu e entregou-lhe a corda pela janela.
Quando no outro dia pela manhã o soldado empurrou a porta pesada, Inácio pendia enforcado da grade da janela, o nó apertando-se no terceiro varão, o caixão de querosene caído de lado.
- Oh!
O rosto estava arroxeado e intumescido, a língua de fora, os pés esticados para baixo, roçavam a parede. O lobinho parecia tragicamente maior.
- Que coisa! Aqui, aqui! Ora, vejam!
Presos, soldados, gente das casas vizinhas, e, dentro em pouco, uma grande multidão à porta da cadeia.
A frase tomou conta das consciências. Pelas nove horas, o tabelião, ao assinar uma escritura, ainda a repetia, arrastando a pena no papel:
- "Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso".
Dona Belinha misturava-a com o caldo na cozinha, enquanto girava a colher de pau. 0 farmacêutico triturava-a com o pó que mexia no almofariz.
Já o trem de Dr. Antero partira. Tentou a leitura de uma revista, que atirou de lado. - "Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso".
Ergueu-se, foi ao carro-restaurante, tornou à sua cadeira. Olhou pela janela. Um açude, bois que pastavam, carnaubeiras e, logo a seguir, a ponte de ferro. As rodas do carro matraqueavam nos trilhos num ritmo que reproduzia a frase inesperada:
- "Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso. Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso".

("Maravilhas do Conto Moderno Brasileiro" – Editora Cultrix)

Airton Monte – Em compasso de Espera – 28 de Outubro 2011

Airton Monte – Em compasso de Espera – 28 de Outubro 2011

Nos distantes confins da Líbia, o reinado de quarenta e dois anos de Kadhafi chegou ao fim melancolicamente. O ditador foi morto em um linchamento pelos rebeldes depois de ser arrancado, como um guabiru, de dentro de uma toca de um cano de esgoto. Mais um sangrento fruto da chamada “Primavera Árabe”. O povo, liberto das garras da tirania, comemora a sua morte pelas ruas e as grandes potências que dominam e regem os destinos do mundo também participam das comemorações, fingindo esquecer que, num passado não muito distante, colaboraram ativamente para manter o tirano no poder, enquanto tal estado de coisas lhes interessava. Coisas da politicagem internacional. Nuances dos sempre onipresentes interesses comerciais.

Afinal, o petróleo é um tesouro que os donos do mundo não podem e nem querem desprezar e, na verdade, pouco estão ligando para um pequeno detalhe que se conhece por democracia.



Já no Brasil, festeja-se outro, para nós, importantíssimo acontecimento. Saiu, enfim, a tabela da Dona Fifa com o roteiro dos jogos da copa do mundo e as cidades que os sediarão, principalmente os da seleção brasileira, entram em clima de frenesi, inclusive a nossa equatorial Lourinha Desposada do Sol. Espetacular vitória de Fortaleza, estrondeiam com alarde, em manchetes de primeira página, os matutinos da Taba de Alencar. O povo parece estar vivendo um clímax de alegria e satisfação, se se levar em conta a cara de felicidade estampada na face dos operários que trabalham na construção dos estádios. Talvez a maioria ignore por completo que benefícios a copa nos trará e o que sobrará de bom para esta cidade e seus habitantes depois que a festa acabar. Para usar a palavra mais em moda atualmente, qual será o nosso tão decantado legado.
 

Eu, pessoalmente, nada tenho contra a realização do maior evento esportivo do planeta em nossos sortudo país, pois sou um incurável apaixonado por futebol, embora me acometam certas dúvidas se essa montanha de dinheiro que estamos gastando a rodo, como se fôssemos potentados nadando em bufunfa de sobra, não poderia ser usado em outras vitais necessidades das quais andamos há séculos urgentemente precisados. E a saúde? A educação? A segurança? Os meios de transporte público? E quando poremos um fim no sofrimento secular da população do interior que ainda depende dos carros-pipa para ter o direito de beber um prosaico copo d’água limpa? Entanto, diante do orgulho de receber as seleções estrangeiras e a esperada multidão de turistas, tudo o mais que nos aflige sai da boca de cena e passa a ser relegado a terceiro plano. É isso aí.
 

Nunca será demais lembrar que grande parte dos geraldinos e arquibaldos que, em essência, sustentam o nosso futebol com sua assídua presença nas arenas futebolísticas, haverá que se contentar em assistir aos jogos em casa ou nos bares pela televisão, devido ao preço estratosférico dos ingressos, muito além de suas posses. De qualquer modo, sinto-me até incomodado por uma certa culpa por não estar celebrando com todo entusiasmo que deveria a nossa participação no monumental acontecimento. Confesso, um tanto quanto encabulado, que meu coração não decretou um carnaval íntimo. Nem saí pelas ruas envolto em bandeirinhas verde-amarelas, soltando fogos de artifício, eivado de bairrismo e de patriotismo, mesmo sabendo que esta poderá ser, talvez, a última copa que eu veja ou talvez não. Estou quieto no meu canto, aguardando o desenrolar dos acontecimentos, esperando para ver no que vai dar tudo isso.



Airton Monte – Carta ao Poeta – 27 de Outubro 2011


Airton Monte – Carta ao Poeta – 27 de Outubro 2011

Pois é, meu caro e saudoso amigo Rogaciano Leite Filho, como sempre, quando as saudades suas me batem mais forte, mais fundas e mais fecundas, escrevo para você, sob color de crônicas, cartas que nunca mando, mas que talvez você até as receba, seja lá onde você estiver, através dos mensageiros misteriosos que a nossa vã filosofia nem sequer é capaz de supor, imaginar. Desde que você, meu poeta, nos deixou em busca dos etéreos campos do além, que ninguém sabe onde ficam ou se verdadeiramente existem, naquele fatídico dia cinco de março de 1992, tragado por uma terrível doença. Era uma quinta-feira, eu não consigo esquecer esta data nem jamais ela fugiria de minha memória mesmo que eu tentasse dela escapar desesperadamente. E eu assim prefiro permanecer indefinidamente preso à sua lembrança porque você fez e faz parte essencial do meu existir.

Estava eu posto em sossego, aboletado numa das mesas do Cirandinha, costumeiro ponto de encontro de nossa turma de jovens boêmios, por volta de umas nove horas da noite de uma quarta-feira repleta de promessas noturnas a nos esperar pelas esquinas líricas do território poético da Praia de Iracema. Eu entornava solitariamente umas cervejas, esperando a ansiada chegada de uma doce amiga. Súbito, o companheiro Pedro Álvarez adentra o recinto feito um vendaval, senta-se a meu lado e com os vermelhos, marejados me conta de sopetão, com a voz embargada pela intensa emoção que o consumia, que você havia morrido há pouco, mal soara as oito da noite. Na hora não chorei, de minha boca repentinamente emudecida não saiu uma palavra, um tímido gemido, um murmúrio. Naquele momento eu era apenas um homem feito de silêncio e dor, nada mais.
 

Deixei-me fitando longamente o azul escuro do mar do alto daquele terraço de um restaurante que hoje não mais existe e lembrei de um verso triste de Antonio Girão Barroso: “Todos nós envelhecemos e um dia morreremos. Mas a vida é isso, mas felizes somos no minuto que passa, e não nos lembramos da velhice nem da morte, que é fatal”. Porém, você ainda não era um velho, meu poeta. Ia fazer trinta e oito anos dali a três meses. Diabos, eu ia entrar na casa dos quarenta e três e estava vivo. E você morto em solo estranho, exilado no Hospital Albert Einstein em São Paulo. Por aqui ficamos todos nós à espera de notícias suas, que iam chegando de forma desencontrada e dúbia. Umas diziam que você havia melhorado. Outras que seu estado se agravava a cada dia e da verdade sabíamos tão pouco. Entanto, eu sabia que, em virtude de sua enfermidade e da pobreza do terapêutico arsenal da época, você estava irremediavelmente condenado.


Para lhe ser sincero, eu só esperava que sua morte, quando chegasse, fosse misericordiosamente rápida e sem dores, sem sofrimento. Daí, me veio uma cena acontecida no festival ”Massafeira”, no Theatro José de Alencar lotado até a tampa e uma multidão do lado de fora querendo entrar de qualquer maneira. Um policial, sentindo-se acuado, fez menção de sacar a arma. Você, todo vestido de preto, enfrentou o PM e mandou que abrissem os portões. O povo entrou, você subiu ao palco e disse um poema. Essa a imagem que guardo de você, amigo. Também não fui a seu enterro. Tranquei-me em casa, desliguei o telefone e bebi em sua companhia até o sol raiar, numa longa e solitária despedida. Vinte anos depois, sua ausência me dói como em doença. Por isso, vez em quando lhe escrevo cartas tentando encurtar a enorme distância que se abriu entre nós. Você vagando aí por cima e eu aqui embaixo vivendo o tempo que me deram pra viver. Saudade também é uma forma de imortalidade.


Airton Monte – Adorador do Sol – 26 de Outubro 2011

Airton Monte – Adorador do Sol – 26 de Outubro 2011

Depois de tantos dias de líquida ameaça por parte do nosso clima temperamental, hoje amanheceu chovendo aos cântaros. Aos cântaros, não. Seria um exagero de avaliação tal afirmativa. Todavia, ao que parece, o dia irá transcorrer nesse chove não molha, nesse nem usa nem desocupa a moita. Ao contrário do meu velho amigo Antonio Maria, cronista e compositor emérito de vários clássicos do nosso cancioneiro pátrio, eu me sinto, de um certo modo, meio incompleto quando chove. Por incrível que possa parecer aos olhos de quem me lê, talvez eu seja um dos poucos, raros nordestinos que não nutre essa simpatia toda pela chuva. Principalmente nessa casa onde atualmente encosto e abrigo meus sambados ossos, porque quando as nuvens se liquefazem, caem respingos nas varandas e eu sou compulsoriamente expulso dos lugares em que mais gosto de escrever.

Nas varandas do meu tugúrio suburbano, há mais luz e claridade, o que significa uma bem-vinda bênção para meus olhos míopes e que, vez por outra, ficam um tanto quanto embaçados por conta de uma catarata iniciante. Felizmente, o sol voltou a brilhar, a dar o ar de sua graça e as cores do mundo recobram a sua indispensável nitidez. Ansiosamente espero que o tempo continue assim, pleno de limpidez para mim tão necessária e cara. Ergo o olhar para o alto e vejo que algumas nuvens brancas se intrometem pelas brechas que as escuras vão lentamente abrindo, levadas pelo vento. E já não tarde e atrasado, porque o tempo urge, as horas avançam pela manhã adentro de forma inexorável. Além do mais, tenho prazo certo para enviar a crônica do dia ao editor, meu diário e inadiável compromisso, um encontro ao qual não me é permitido faltar nem chegar atrasado. Ossos do ofício de cronista.
 

Ah, que venha o sol trazendo seus raios benfazejos e lá bem alto, reinando no cume dos céus, assim permaneça impávido e colosso, iluminando tudo cá embaixo, tornando esta quinta-feira belamente translúcida feito a vidraça de uma janela que acabou de ser lavada, espantando as sombras, os ventos molhados, a umidade das paredes, secando as poças d’água acumuladas no cimento do quintal e do jardim, sossegando meu agoniado coração. Lembro-me agora, exatamente agora, que quando menino do buchão, na saudosa inocência dos meus cinco anos, minha avó achou por bem levar-me a um centro espírita que costumava frequentar. Sei lá quais foram os seus motivos. Quem sabe, Dona Maroca pensasse que eu estivesse sendo vítima de algum encosto por causa do meu comportamento meio estranho. Já me tinham submetido a um psiquiatra que em mim nada de loucura detectou e que eu padecia mesmo era de uma prosaica falta de peia.
 

Esgotada a opção médica e como apesar das surras de criar bicho eu continuasse aprontando mil e uma peripécias, o Centro Espírita bem que poderia ser uma solução. Em lá chegando, cedo da noite, fui entregue aos cuidados do Irmão Damásio, cuja fama como poderoso médium corria de boca em boca no Benfica. Era realmente uma figura impressionante o Irmão Damásio aos meus olhos de menino. Alto, forte, pele rosada, uma vasta cabeleira branca a emoldurar-lhe a olímpica cabeça e transmitia a todos que o procuravam para um passe espiritual uma tranquilidade de monge. Levou-me para um aposento, com aparência de um consultório, fez-me sentar em uma cadeira, pediu para que eu ficasse quieto, apôs suavemente a mão em minha cabeça e após alguns minutos, afirmou que eu era um espírito velho em corpo jovem, com muitas reencarnações. Pode ser que em uma delas, eu tenha nascido no Egito dos faraós e sido um adorador do sol. E continuo sendo até hoje.



Airton Monte – Da esperança – 25 de Outubro 2011-10-31

Airton Monte – Da esperança – 25 de Outubro 2011-10-31


Folheio, sem nenhuma pressa, os jornais do dia. Há notícias boas, alvissareiras espalhadas pelas páginas diversas dos nossos matutinos. Em algumas grandes capitais do país, os jovens saíram às ruas em marchas pacíficas protestando contra a corrupção que grassa e enlameia as nossas respeitáveis instituições. É, acho que já estava mesmo na hora de criarmos um pouco mais de vergonha na cara e abandonar o omisso papel de boi no pasto, esperando que as necessárias mudanças caiam do céu pondo milagrosamente um ponto final na deslavada roubalheira que infesta a nação. Havemos deixar, a qualquer custo, de bancar os palhaços, observando de boca calada a cada vez mais crescente quadrilha de ladrões do dinheiro público cometer as suas bandalheiras e permanecer impune ostentando sua eterna cara de pau e cheia de absoluta certeza que permanecerá impune com a habitual desfaçatez. A juventude nos deu, a todos, um belo e magnífico exemplo de rebeldia civil. Resta-nos seguir o seu exemplo.



Finalmente, após um longo e tenebroso inverno, teve fim a epidemia das greves. Professores, carteiros, bancários enfim retomaram as suas essenciais atividades, livrando-nos do desamparo a que estávamos sofridamente relegados. Entanto, os policiais civis agora iniciam seu movimento paredista e a bandidagem ri às bandeiras despregadas, feliz com a situação e com o aumento livre dos seus territórios de caça. E nós, pobres cidadãos comuns, vamos ter de nos habituar, resignadamente, a viver sob o domínio do medo e o reinado da insegurança, além de percorrer uma verdadeira via-crucis para registrar um simples boletim de ocorrência. Viver em Fortaleza vai, a cada dia, se tornando uma atividade de alto risco e demasiado povoada de perigos. Num único fim de semana, em pouco mais de 24 horas, 15 pessoas foram assassinadas; 13 homicídios ocorreram somente na área da chamada “Grande Fortaleza”. Meu Deus, aonde vamos parar com tanta disseminação desenfreada de violência?
 

Nem eu sei e acredito que não há quem saiba quando voltaremos a desfrutar de um pouquinho, um tiquinho de paz em nosso agoniado cotidiano. Assaltos também viraram um acontecimento comum nas cidades do interior e não se passa um dia sem que as quadrilhas de modernos cangaceiros explodam caixas eletrônicos, colocando em polvorosa os aterrorizados habitantes de cidadezinhas outrora calmas e nelas podia-se dormir de janelas abertas em sossegada tranquilidade. Não dá para negar o óbvio. Os quadrilheiros estão mais organizados e audaciosos do que jamais estiveram. Os bandos de criminosos estão cada vez mais poderosos, muito do bem armados com artilharia pesada, dispostos a tudo e de há muito perderam o medo das frágeis e impotentes forças da lei. Formam organizações bem estruturadas e fundaram a empresa Crime S.A. e só nos falta mesmo que a registrem nas juntas comerciais, de tão organizadas que são e se tornaram.
 

Isso sem falar nas crises que afetam a economia mundial, nas guerras civis que se alastram pelo Oriente Médio, com a população se rebelando contra a tirania secular dos ditadores a ferro e a fogo, no recrudescimento dos atentados terroristas, nos banhos de sangue, no genocídio dos inocentes por todos os cantos do planeta. Entre nós, paira novamente, após estar ilusoriamente posto sob controle, o apavorante fantasma da inflação, nos tirando o sono, nos amedrontando com a possibilidade de que nos aconteça o pior, muito embora os brasílicos mandatários garantam que o Brasil está imunizado contra um vendaval inflacionário. E não precisamos temer a volta das maquininhas de remarcar preços nas gôndolas dos supermercados. Porém, apesar de tais declarações apaziguadoras de aflições, cá por mim, permaneço com o desconfiômetro ligado e me apegando com todos os santos para que o pior não venha a suceder e a esperança não seja a primeira a morrer em nossos corações.




Airton Monte – Os vendedores de peixe – 24 de Outubro 2011

Airton Monte – Os vendedores de peixe – 24 de Outubro 2011

Manhã nublada. O sol, com cara de preguiça, esconde-se por trás das nuvens plúmbeas, escuras como a tristeza que vai corroendo o coração dos homens tristes que acalentam uma solidão crônica, sem remédio, cuja alma vive trancada em um inexpugnável casulo de profunda amargura e preferem permanecer afastados, isolados de tudo e de todos. Esses eremitas urbanos sofrem de uma doença, de um mal chamado desencanto e procuram dentro de seus computadores um alívio, um oásis para o seu deserto íntimo. Talvez, equivocadamente, pensem que podem e conseguem levar a existência enfiados em suas cavernas, rodeados de sombras, alheados da humana convivência. Em suas mentes, enganadamente imaginam que o mundo começa e termina ao redor do seu umbigo. São infensos ao bendito calor da amizade e, quem sabe, até mesmo dos eflúvios do amor, pois ergueram uma muralha intransponível em volta dos seus sentimentos e afetos. Pobres coitados.

Os chamo de “pobres coitados”, mas logo em seguida me arrependo do que disse, porque podem ser felizes assim, órfãos dos seus semelhantes. E por que não o seriam? Cada um vive como gosta e eu nada tenho a ver com a escolha existencial dos outros. Certamente eles dispensam os meus palpites e não vou meter o meu nariz onde nem fui chamado, pois macaco velho não mete a mão em cumbuca. Com que direito vou me arrogar a ser juiz dos outros? O melhor a fazer é deixá-los em paz e ir cuidar dos meus problemas, das minhas ansiedades e inquietações, pois essas, sim, estão sempre a merecer minha atenção e meus cuidados. Já tenho os meus instantes de solidão para exorcizar de vez em quando e não se trata de uma tarefa fácil. Sou gregário por natureza. Gosto de gente, de conhecer pessoas, de expandir o meu círculo de amizades, jamais apelando para o impessoal artifício das redes sociais, porém para o encontro pessoal, cara a cara, olhos nos olhos, frente a frente.

Quando me vejo acometido pelo desencanto com meus irmãos, que ali e ali permeia o meu existir, sigo, como um navio perdido em busca de um porto seguro em meio a uma noite sem lua segue o lume salvador de um farol, um lema gravado sabiamente num verso de Vinícius e que me diz ser a vida a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. E sempre me fez um bem danado à alma conturbada perseguir incansavelmente esse facho de esperança aceso nas palavras do poeta. Um cachorro late, gane, uiva alto numa das casas vizinhas. Vai ver está sozinho o infeliz animal. Na certa seus donos saíram e ele se percebeu, de repente, abandonado. Os animais também são criaturas de Deus e devem amargar, nesses momentos, a sua ração de solidão. Alguém muito ocupado, trabalhando pesado numa manhã de domingo, maneja sem cessar uma furadeira numa peça de metal e o zinir estridente do instrumento invade os meus ouvidos feito um enxame de abelhas enfurecidas.

É nessas horas povoadas de incômodos e irritantes ruídos, que me dá uma vontade passageira de morar em uma ilha deserta. Em legítima defesa, tranco o ouvido de fora e abro de par em par as portas do meu ouvido de dentro, usando um truque que aprendi com a experiência acumulada de anos a fio de um suburbano urbanauta. Infelizmente, tal protetor artifício não funciona contra o ataque dos paredões de som que poluem a cidade. O vendedor de peixe faz sua parada costumeira diante do meu portão, gritando o seu pregão. Dispenso a sua oferta com educada civilidade, pois respeito o seu modo de ganhar a vida honestamente. Afinal, deve ter uma família e bocas para alimentar, que nem eu. No fundo, nossos ofícios possuem uma certa semelhança. Eu igualmente vendo meu peixe cotidianamente aqui nesta página de jornal





Airton Monte - Morte no banheiro - 21 de Outubro 2011



Boa Crônica !!!!

Há tanta coisa por falar, tanta coisa a dizer, tanta coisa esperando para ser escrita e, ao mesmo tempo, no que pode parecer uma contradição, tantas razões para permanecer no mais completo e supostamente sábio silêncio. E nessa sutil encruzilhada entre o pensar e o fazer, eis-me, então, encalacrado, sem atinar muito bem qual dos caminhos escolher para seguir. Portanto, hesitante, divago perdido num cipoal espesso de indecisões que a nada mais me levam do que a hesitações a que não estou habituado. Entanto, não posso ficar aqui parado na beira da calçada do dia olhando bovinamente a banda dos acontecimentos passar diante de mim como se nada tivesse a ver com isso, no estéril papel de um omisso espectador. Minha vocação não é para a inércia, mas para a ação, por menos importante que seja e em coisa alguma mude o movimento do mundo, o rodar da gigantesca engrenagem que comanda, sem que sequer nos demos conta, a nossa sorte e o nosso destino.
Estou enfiado na moldura, por vezes incompreensível, do cenário que me cerca feito um prego enferrujado numa porta quebrada, prestes a cair dos gonzos, de uma casa abandonada a um canto de um terreno baldio. Sim, uma multidão de pensamentos vadios, desencontrados povoam minha cabeça, atiçando meus neurônios, chamando-os ao trabalho como uma sirene convoca para a labuta os operários de uma fábrica que precisa produzir sem cessar um só instante. Sou um homem feito de palavras e tinta de caneta corre em minhas veias e começa a pingar nas teclas impassíveis, porém impacientes do computador. Como posso me dar ao impossível luxo de ficar de pernas pro ar, entregue ao desfrute de um saudável ócio antes de terminar a minha tarefa? Dar-se de corpo e alma aos atrativos encantos da preguiça é para quem pode porque já deve estar com a vida ganha e o boi encostado sob uma frondosa sombra, o que, evidentemente, não se trata do meu caso.

Hoje, manhã cedinho, ao tomar banho, ainda tonto de sono, descuidei-me e escorreguei perigosamente na espuma assassina do sabonete, batendo com violência inesperada a cabeça na parede. Quase apaguei por completo e vi estrelinhas faiscantes em pleno alvorecer. Demorei a levantar-me do chão frio do banheiro onde jazia estatelado. Apalpei-me por inteiro. Por sorte, escapei de um traumatismo mais grave, sem um osso quebrado. Já de pé, recuperado do susto matinal, pensei que poderia ter morrido de uma morte besta, inglória, ridícula, com a base do crânio espatifada. Isso é lá maneira e pouco honrosa de um poeta esticar as canelas? Bater as honoráveis botas dentro de um banheiro? Ah, não. Mereço um final melhor, mais trágico, mais dramático, mais espetacular do que fechar os olhos para sempre estirado ao lado de uma sentina suja. Literalmente, escapei fedendo, melhor do que morrer cheiroso.

Do pequeno acidente caseiro, felizmente, restou-me como incômoda lembrança um calombo na parte posterior do quengo e uma leve cefaleia. Pois é, o fato serviu para me mostrar, de maneira cabal, incontestável, o quanto é perigoso viver. A qualquer momento, estamos sujeitos a viajar para a velha cidade dos pés juntos. Aliás, morre-se mais caindo da cama, escorregando no banheiro do que de desastre de avião. Somos tão frágeis, tão desprotegidos em nosso deletério invólucro carnal muito mais do que ilusoriamente pensamos. Súbito, a vida nos anima com toda sua pujança e, de repente, desmoronamos feito um castelo de cartas. E pronto, tudo acaba repentinamente e viramos um resto de saudade no coração de quem nos ama. Simples assim. Sem aviso prévio na maioria das vezes. Hoje, eu poderia ter morrido praticando um ato comezinho, banal. E o que é pior, demasiado humilhante. Se bem que nenhum lugar pode ser considerado bom, apropriado para morrer. Nem jamais haverá.



Airton Monte – Crianças e crianças – 19 de Outubro 2011

Airton Monte – Crianças e crianças – 19 de Outubro 2011

É de manhã. Uma radiante quarta-feira. Doze de outubro. Feriado Nacional. Mais um no meio da semana, como reza o folgado figurino das tradições brasileiras. Todavia, para o bem ou para o mal, hoje comemora-se o Dia das Crianças. Não que os brasílicos petizes não mereçam. Afinal, convenhamos serem eles o futuro da nação. Todos eles? Sobre tal repetida, batida, manjada crença que permeia ancestralmente o imaginário popular, cantada e decantada em prosa e verso, tenho cá as minhas dúvidas e às quais ninguém dará sequer a mínima importância. O que eu sei é que muitas delas, em verdade, têm um futuro pela frente. Outras, todos nós estamos carecas de saber, já nascem sem qualquer perspectiva de sonhar com o porvir, pois a realidade vem demonstrando através dos tempos que para elas o buraco é mais embaixo. Umas possuem verdadeiramente com o que sonhar. Outras, com o passar do tempo, não terão essa felicidade, pois seus sonhos irão sendo pouco a pouco roubados, castrados pelas desigualdades e injustiças sociais.

Basta abrir os olhos quando se percorre de carro, de ônibus ou a pé a cidade e ver se aquela costumeira multidão de infantes estendendo a mão à caridade alheia nas esquinas, nos sinais de trânsito, maltrapilhas e maltratadas, possui alguma possibilidade de um futuro que seja melhor do que o dos seus pais. Isto é, quando possuem pais ou qualquer outra pessoa que os proteja e cuide. A essas crianças completamente esquecidas, abandonadas, marginalizadas, por mais que se queira ser otimista, só lhes resta a solidão das ruas, onde estabeleceram sua infeliz moradia, o anestésico das drogas e a criminalidade como único meio de sobrevivência. São os frutos da miséria e os futuros soldados do crime, destinados a engrossar a população dos presidiários e à morte precoce nas brigas de gangues, nas mãos da polícia. Para eles as festividades do Dia das Crianças passarão em branco, porque de há muito lhes foi tungada a infância, foram cruelmente forçados a se tonarem adultos antes do tempo.
 

Para mim não existe maior crime possível a ser cometido contra uma criança do que roubar-lhe a infância. E é justamente tal barbaridade que perpetramos todos os dias, sem mesmo nos apercebermos disso. Claro, partimos do princípio omisso de que somos todos inocentes e que nada temos a ver com o fato dessas crianças serem chocadas nos ovos da serpente e que, mais dia, menos dia, pagaremos caro por nossa olímpica indiferença. Pensamos naturalmente que toda a culpa é do governo, das autoridades constituídas, já que pagamos nossos impostos regular e honestamente. Além do mais, já nos enchemos de preocupação suficiente para cuidar de nossos próprios filhos e não temos a menor obrigação de tomar de conta dos filhos dos outros, tanto faz como fará se estão sendo criados feito xuxu em pé de serra, entregues a sua própria sorte e que Deus salve todos nós.
 

Nesse momento em que escrevo, a criançada sortuda brinca, se diverte, se maravilha com seus presentes caros ou modestos, mas de todo modo presentes, sob o olhar comovido e sorridente dos papais e das mamães. Em suas almas reina a alegria, a felicidade e o dia é uma grande festa. Enquanto isso, há outras crianças de olho grande pregado desejosamente nas vitrines das lojas e sabem que jamais os terão em suas mãos, a não ser dados por uma alma caridosa ou se simplesmente os roubarem, arriscando-se em perigosas aventuras. Depois, constatando a impossibilidade de possuí-los, se enchem de revolta, o ódio fervilha nos pequeninos corações. Para esquecer e aliviar suas mágoas,vão pitar seus cachimbos de crack, cheirar seus saquinhos de cola, fumar um cigarro de maconha e, depois de loucamente lombrados, unem-se em bando rapinante para atacar os transeuntes como pequenos predadores em que nós os transformamos com a nossa indiferença.




Airton Monte - Os Elefantes – 18 de Outubro 2011

Airton Monte - Os Elefantes – 18 de Outubro 2011

Embora faça um longo tempo que, por simples preguiça e comodidade, eu não vá mais ao cinema, principalmente depois que as salas de projeção estabeleceram domicílio no espaço confinado dos shoppings, ambientes pelos quais nutro uma ojeriza inenarrável, uma feroz antipatia que me é de todo impossível controlar, pois sinto, quando estou dentro deles, um vago acesso de claustrofobia mesmo não padecendo desse sofrido transtorno mental. Além do mais, como a maioria das pessoas, hoje em dia, esqueceram ou não lhe foram ensinadas as regras básicas de humana convivência civilizada, mal começa a projetar-se a película, nada de desligarem os malditos celulares, pararem de conversar alto como se estivessem numa feira livre, atrapalhando o desfrutar do prazer alheio. Como não sou de permanecer calado, conformado com a invasão do meu direito de assistir o filme posto em sossego, achei melhor me ausentar da magia da telona para evitar severas discussões.

Portanto, cinema agora para mim somente no sagrado recesso do lar, vendo nas tevês a cabo, sem perigo de algum desinfeliz acabar com a minha festa. Ou então, alugo um devedê e assim vou saciando a minha fome de modesto cinéfilo, me deliciando com preciosos clássicos que jamais perdem seu encanto, por mais que o tempo passe. Por essa razão, ainda não vi a última obra do interessantíssimo e polemico cineasta dinamarquês Lars Von Trier, chamado Melancolia que a crítica considerou belíssimo, embora seu autor tenha sido sumariamente expulso do último Festival de Cannes por haver soltado uma piada de mau gosto a respeito de Hitler e do nazismo. Neste mundinho paulificante do politicamente correto, é preciso tomar cuidado com o senso de humor, porque os patrulheiros ideológicos são incapazes de perdoar qualquer deslize que classifiquem de mal comportado e fuja dos padrões estabelecidos.
 

Li uma entrevista do controvertido artista, ateu por sinal, em que dizia: “Se Deus criou a vida, Ele logo a largou, correndo por aí, sem pensar no fato que criou seres que têm de enfrentar a consciência de que sua existência é finita. Isso é nascer sob uma sentença de morte”. O que me leva a pensar serem os elefantes os únicos viventes deste terráqueo planeta que sabem exatamente quando vão morrer. Ao chegar a hora, se despedem do bando e se vão, orvalhados de dignidade, ao encontro da morte. Saber quando se vai morrer. Uma tantálica tortura ou abençoada unção? Os elefantes não brigam contra a morte feito os seres humanos, tão carentes de imortalidade. Aceitam a morte tanto quanto aceitam a vida. Como se morrer fosse a coisa mais natural do mundo. E o pior é que é. Mas nós não nos conformamos com o ponto final. Todos nós, ateus ou crentes, trememos nas bases diante da perspectiva de ter de abandonar este vale de lágrimas.
 

Aliás, eu nunca consegui entender claramente por que aqueles que acreditam num paraíso após o humano passamento têm tanto medo da morte quanto eu, que há muito deixei de crer até em Papai Noel. Entanto, voltando à vaca fria, agora que o boi saiu da linha, o que faria eu se soubesse sobre o morrer o que sabem os sábios elefantes? De repente, acordar um belo dia e sentir a premonição fatídica que este seria o meu último dia de vida? Haveria um tamanho desespero em mim ou apenas uma filosófica resignação? Despertar um dia e dizer para mim mesmo: é hoje! E encarar a realidade com a maior naturalidade possível, sem choro nem vela, sem fazer da terrível descoberta uma tragédia melodramática? De uma coisa estou certo. Nada revelaria às pessoas a quem amo. Para que fazê-las sofrer de véspera? Inventaria uma comemoração qualquer, o lado oculto do luto, a última lágrima do palhaço. Nada de morte solitária. Seguiria os versos da canção do Rodger Rogério:”Se a morte vier me encontrar, ela sabe que estou entre amigos, falando da vida e bebendo num bar”.

sábado, 29 de outubro de 2011

Airton Monte - O calendário - 17 de Outubro 2011


Airton Monte - O calendário - 17 de Outubro 2011

Desde quando eu era um rebelde e sonhador adolescente, fui, aos poucos, criando dentro de mim uma espécie de calendário bastante diferente, em sua essência, dos calendários comuns, repletos de datas, desses que a gente costuma pendurar todo começo de ano na parede da cozinha, vizinho à geladeira. Não. O calendário que criei não serve para marcar o tempo simplesmente, a passagem dos dias, dos meses, dos feriados, dos eventos comemorativos dedicados às figuras marcantes do nosso panteão nacional e internacional. Trata-se, em verdade, de um calendário extremamente pessoal, que só possui algum significado para mim e que não tem importância nenhuma para mais ninguém nesse mundo velho sem porteiras. Meu calendário, antes de tudo, pontua minha relação afetiva, sentimental com cada dia da semana, os vários sentimentos e estados de espírito que eles são capazes de me despertar, sem que eu tenha controle sobre tal.
Eu mesmo não sei de que modo ou por que cargas d’água meu calendário íntimo nasceu. Quando me dei conta de sua misteriosa existência, ele já havia se tornado uma estranha e, posso até dizer, definir, uma poética realidade. Cansei de tentar, por muito tempo, perceber, descobrir suas naturais origens e nada consegui encontrar que me apontasse, clara, precisamente, suas raízes, que até hoje permanecem envoltas em um profundo segredo demasiado inacessível, inalcançável pela luz da razão. Claro que não sou uma esfinge, porém tenho cá guardados os meus modestíssimos enigmas, muitos dos quais há muito desisti de decifrar, por haver chegado à conclusão de que seria apenas uma inútil perda de tempo gastar meus sambados neurônios nesta tarefa impossível e de certa maneira vã. Melhor deixar a nascente do meu calendário em paz, seja qual for a região, o território do meu inconsciente de onde brotou. Ele existe e isso me basta, me satisfaz.

Portanto, por enquanto ou definitivamente, é-me suficiente e bastante aprazível sentir a sua inefável presença em minha anima, mexendo com meus sentimentos, meus afetos, meus humores, todos os dias feito um cronômetro espiritual. O calendário veio para ficar comigo até o fim dos meus dias. Disso tenho a mais plena e inabalável certeza, sem lugar para dúvidas estéreis. O meu calendário funciona tal qual agora passo a descrevê-lo. Aos domingos, fico sentimental demais, me dá vontade de compor samba-canção, boleros melosos, trágicos tangos, cantigas puras de ninar gente grande solitária e melancólica, a um passo do suicídio. Às segundas-feiras, dias essencialmente burocráticos, sofro de acessos de rabujice, uma espécie de TPM lírica, cercado de menstruadas musas. Segunda-feira é o dia da verdade, quando a realidade nos cobra os juros cruéis dos pecadilhos do fim de semana, numa implacável punição e que devemos pagar sem direito a reclamações inúteis.

Nas terças, transformo-me num ser pragmático, compenetrado homem de compromissos, obrigações, leitor de horóscopos, a planejar meticulosamente cada passo a dar. Na quarta-feira, bem, quarta-feira todos nós sabemos, é um dia neutro, morno, nem pedra nem tijolo, meio de semana, um exagero de equilíbrio nas ações e pensamentos. Nas quartas, tomamos as grandes decisões, definimos nossas metas, objetivos, fazemos o balanço do de deve e do haver, devendo-se, sobretudo, evitar ousadias. Já quinta-feira, começa a apressar o ritmo vadio do meu coração e despontam-me nas costas um tímidos cotocos de asas. Sexta-feira vem o dia de sonhar, principalmente quando a noite chega trazendo predisposição para o voo, se faz mais forte a atração do corpo das mulheres, um certo quê de luxúria pairando no ar, deixando-me de narinas frementes. Aos sábados, amanheço feito um menino que acordou num parque de diversões. A nada pertenço nem a ninguém. Sou senhor e dono de meus caminhos e me engano com essa ilusória liberdade condicional.