quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Airton Monte - Meu Oásis - 29 de Novembro 2011

Dos pequenos acontecimentos se fazem as maravilhas. Das coisas mais prosaicas que nos rodeiam no dia a dia, se as observarmos com um pouco mais de atenção em nosso olhar, podem nascer sutis descobertas que jamais imaginamos. Sei que as inadiáveis obrigações e os implacáveis compromissos naturais do cotidiano exigem de nós uma pressa que nos cega e turva a nossa percepção, só nos fazem enxergar o óbvio que nos transforma em pobres máquinas sonâmbulas, presas à uma enfadonha realidade onde não há lugar para o sonho, o deslumbramento, uma revelação que nos torne maiores do que somos, mais plenos de humanidade do que pensamos. O mundo, meus amigos, não é só isso que comumente vemos em meio à talvez inútil azáfama pragmática em que vivemos mergulhados por uma questão de garantir a nossa sobrevivência como meras peças da engrenagem produtiva enquanto fazemos parte do mercado de trabalho.

Minha mulher encheu nossa varanda e a estreita faixa de cimento armado que eu, num doce exagero, chamo de jardim, de vários jarros e jardineiras dos mais diversos tamanhos, onde florescem plantas de variadas espécies e até mesmo algumas flores e dois ou três pés de rosas vermelhas que dão um brilho, um colorido todo especial ao nosso suburbano refúgio. Geralmente, no começo das manhãs e no finzinho das tardes, os passarinhos vão se chegando e pousando, descansando de seus passeios alados. Eis a razão porque a varanda enfeitada dessa humilde, mas de todo modo bela flora é o lugar da casa em que mais gosto de escrever, de ler, ouvir música, receber os amigos, de conversar à noite com a amada nossos assuntos, trocando impressões sobre o dia que passou. Além do mais, através das grades posso ver a rua e as pessoas que por ela passam, anônimos personagens do cenário citadino.

Vez em quando, para refrescar o ambiente, sopra uma brisa mansa que nos acaricia o corpo e ameniza o calor do verão. Posso admirar o sol quando ele nasce e as estrelas refulgindo lá no alto do céu e namorar a lua cheia se é noite de lua cheia. Nesse momento, um passarinho aterrissou a poucos passos de mim e me fitou sem medo algum, pois seu instinto certamente já lhe sinalizou que aquele homem ali sentado naquela mesa, com um radinho de pilha grudado ao pé do ouvido, mal nenhum lhe fará nem oferece qualquer perigo. Os passarinhos já sabem que o meu jardim é um local seguro para eles, onde estão protegidos provisoriamente da maldade humana. Acho que a beleza se resume nisso: em aproveitar as pequenas dádivas que nos são ofertadas graciosamente pela natureza. E é nessa varanda florida que me alivio das tensões que me acometem e limpo a minha alma e minha cabeça fica leve e meus pensamentos voam livres pelo território da mente.

E estar assim cercado do meu pedacinho de verde me faz lembrar, com uma alegre saudade, da infância na casa paterna, onde havia um grande jardim povoado de plantas, roseiras, moitas de jasmim e uma vetusta mangueira que dava sombra o dia inteiro. Havia dois oitões que circundavam o Solar dos Monte e bem em frente à janela do meu quarto vicejava um pé de siriguela, sempre repleto de frutas de cujo sabor minha memória jamais esqueceu. E havia o quintal enorme, cheio de árvores frutíferas, com uma cacimba no centro, um galinheiro sempre prestes a nos servir o almoço dos domingos. Se existe uma época da minha vida da qual não posso me queixar é da infância, da minha agora tão longínqua meninice. Uma lembrança que se vai tornando cada vez mais preciosa à medida que envelheço. E é neste meu pedacinho de verde, isolado como um oásis na paisagem desértica da cidade, que a recobro de vez em quando. O menino que ainda não morreu em mim viaja, passageiro perpétuo da imaginação, em busca de um tempo que não foi perdido.

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