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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Espírito de Natal - 24 de Dezembro 2014

Logo mais irá nascer Jesus, e a lembrança de seu nascimento em cada ano é uma forma de reforçar nossa esperança na crença de sua mensagem transcendente.O Jesus que será traído por uma pessoa de usa confiança. Jesus era um líder cercado de seguidores á época  era difícil achá-lo já naquele tempo,  só o beijo o denunciaria, só o beijo. Judas se dispôs a isso. Coitado de Judas!  Nem ele, talvez se compreendesse!  O que ele achava, dizem os historiadores,  e que Judas não tinha importância,  Judas não acreditava que Jesus pudesse ser preso, que Jesus não reagisse,  que aquele homem capaz de milagres,  de repor a orelha do soldado depois de decepada , Judas acreditava que aquele Jesus era inatingível, e fez aquilo, dizem os diagnósticos e prognósticos dos antigos , da certeza de que aquela que dele se aproximasse , seria fulminada pelas forças dignas, mas Judas estava errado! O que Jesus era mesmo, era um missionário, e para a humanidade ele vai nascer nas próximas horas e vai ter um destino a seguir: de muito sangue, de muita dor, de muitas lágrimas, passará por tudo, irá  a cruz, dirá frases lapidares e terminais, porque a humanidade disso estava precisando. É o verdadeiro filho de Deus, o que vai nascer, nascerá o filho de Deus,  Nos incrédulos, naquelas pessoas que acham que a incredulidade é a ciência, para os incrédulos, não! Não é possível consertar a orelha de soldado algum! Ninguém jamais caminhará sobre as águas, Jesus parar uma tempestade, mas para os falsos e cientistas inadequados, ninguém a força da natureza nem a domina, ninguém poderá dizer jamais : Parai ventos e tempestades! Não, ninguém poderá dizer isso, isso é contra a ciência! Ninguém vai acreditar que seja possível despertar o leproso já apodrecendo. Ó Lázaro, leva-te  e anda! Lázaro levantou, andou, viveu e terminou tragicamente em algum lugar do mundo de então. Não, na cabeça dos que dizem assim: Eu fico com a ciência, isso não cabe! Mas para as pessoas que encontraram a partícula de Deus, para os cientistas, notadamente os físicos,  que identificam Deus na própria energia do mundo e na própria criatura humana todos nós temos a partícula de Deus. E Jesus era essa partícula. Para estes existe uma mecânica celeste, nenhum historiador poderá saber que mecânica celeste é esta. Só na alta ciência que ainda virá, mas que já está chegando, é que se vai entender que mecânica é esta.  Como é que Jesus se locomovia de maneira tão rápida? Que voz tinha que podia de um alto de uma montanha , falar para os circunstantes que se amontoavam nas vizinhanças?   Que voz era esta? Sem microfone, sem caixa de som, sem amplificadores? Que voz era esta no sermão da montanha ? E aquela história da transfiguração? O que vai nascer nas próximas horas vai se transfigurar! Que vai ter encontros com espíritos antigos! Que são importantes e sempre serão importantes para a humanidade.  Que coisa é a mecânica celeste!  Essa mecânica celeste existe como um ponto perdido no além!  Muito além da inteligência humana! Não na região onde a alma humana se funda, em  qeu o espírito cresce e prevalece, no horizonte que cada vez mais se aproxima, existe o segredo desse que vai nascer nas próximas horas. Por enquanto é preciso guardar o que esse menino vai dizer logo que começar a ter condições de homem. Esse menino, danado menino, incrível menino, vai ensinar coisas como a fraternidade. Ele ensinará a caridade, ele vai mostrar ao homem como é possível  ter solidariedade , e mais ainda, vai mostrar uma maior por todos, como um valor químico para a humanidade. Vai ensinar o amor por todos, e vai mostrar que os sentimentos humanos é que são a nossa bússola, o nosso Norte. Quando o homem não tem sentimentos, tem que cumprir estada em consultórios psiquiátricos. Quando não se sente saudade, quando não sente amor, quando você não tem vontade de reagir para defender o amigo humilhado, quando isso não é possível, você está doente! E Jesus veio para ensinar a própria sabedoria que é a Filosofia prática do mundo, a Filosofia do dia a dia. Esse menino será traído, vai se fundar uma igreja e muitas igrejas serão fundadas sobre os braços de sua cruz de sacrifício. 

Em nome deste que morrerá na cruz, nós teremos tribunais de exceção, tribunal do Santo Ofício,  nós iremos presenciar guerras, matanças, em nome dele, em contraponto de sua Filosofia! Em nome dele haverá a Santa Inquisição. Tudo haverá de distorção contar essa criança traída, este home traído, esse adolescente desconhecido. Quem teria sido Jesus por todos anos? Sem ninguém falar nele! Ainda hoje não se sabe! Mesmo assim haverá um novo século,  o século XiX,  e no cenário deste século, depois da Revolução Francesa,  irão se projetar pessoa extraordinárias: Balzac, Voltaire, Robespierre, Napoleão; quanta gente  vai surgir, grandes poetas, grandes filósofos, Augusto Conte, existirá nesse século XIX. Mais vai se estudar em matéria de filosofia tudo, exatamente nesse século XIX, Mas sairá de uma sala de aula um professor de nome Rivail, e este professor, um homem igual a todos,  com família, com mulher, com amigos, circunstantes , este homem mudará de nome, será chamado de Alan Kardec e produzirá uma obra revolucionária, tão revolucionária será esta obra que vai reconstituir a palavra de Cristo, vai reinterpretar o novo testamento! Vai recriar as principais lições, restaurará a ética do menino que vai nascer amanhã, esse Alan Kardec vai recuperar  a mensagem de Cristo para que ela possa chegar ao século XX , ao século Xxi e aos tempos do futuro  para que Jesus ressurja intacto, livre das injustiças, livre das más interpretações, das péssimas setas, de odiosas religiões, e apartir daí não haverá mais inquisição nenhuma , não haverá mais tribunal de Santo Ofício, e se alguém quiser  ser papa, vai ser o Papa Francisco, que é humilde, que é bom, que é justo e que é próximo de Jesus. Talvez seja assassinado um dia por causa disso! 

sábado, 13 de dezembro de 2014

Conto - A mais linda mulher da cidade – Charles Bukowski -

Uma homenagem a dos meus escritores preferidos Charles Bukowski, talvez o mais "maldito" e o mais incompreendido dos escritores da Literatura Universal. Seus personagens são todos alter-egos dele mesmo e que assemelham muito comigo também, daí eu gostar tanto de seus escritos!! Vale a pena a leitura desse conto!!



A mais linda mulher da cidade – Charles Bukowski -

Das 5 irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mestiça de índia, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balançavam ao andar. Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la. Para os homens, parecia apenas uma máquina de fazer sexo e pouco estavam ligando para a possibilidade de que fosse maluca. E passava a vida a dançar, a namorar e beijar. Mas, salvo raras exceções, na hora agá sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na mão.

As irmãs a acusavam de desperdiçar sua beleza, de falta de tino; só que Cass não era boba e sabia muito bem o que queria: pintava, dançava, cantava, dedicava-se a trabalhos de argila e, quando alguém se feria, na carne ou no espírito, a pena que sentia era uma coisa vinda do fundo da alma. A mentalidade é que simplesmente destoava das demais: nada tinha de prática. Quando seus namorados ficavam atraídos por ela, as irmãs se enciumavam e se enfureciam, achando que não sabia aproveitá-los como mereciam. Costumava mostrar-se boazinha com os feios e revoltava-se contra os considerados bonitos — “uns frouxos”, dizia, “sem graça nenhuma. Pensam que basta ter orelhinhas perfeitas e nariz bem modelado… Tudo por fora e nada por dentro…” Quando perdia a paciência, chegava às raias da loucura; tinha um gênio que alguns qualificavam de insanidade mental.

O pai havia morrido alcoólatra e a mãe fugira de casa, abandonando as filhas. As meninas procuraram um parente, que resolveu interná-las num convento. Experiência nada interessante, sobretudo para Cass. As colegas eram muito ciumentas e teve que brigar com a maioria. Trazia marcas de lâmina de gilete por todo o braço esquerdo, de tanto se defender durante suas brigas. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelével na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza, só servia para realçá-la.

Conheci Cass uma noite no West End Bar, Fazia vários dias que tinha saído do convento. Por ser a caçula entre as irmãs, fora a última a sair. Simplesmente entrou e sentou do meu lado. Eu era provavelmente o homem mais feio da cidade — o que bem pode ter contribuído.

— Quer um drinque? — perguntei.

— Claro, por que não?

Não creio que houvesse nada de especial na conversa que tivemos essa noite. Foi mais a impressão que causava. Tinha me escolhido e ponto final. Sem a menor coação. Gostou da bebida e tomou varias doses. Não parecia ser de maior idade, mas, não sei como, ninguém se recusava a servi-la. Talvez tivesse carteira de identidade falsa, sei lá. O certo é que toda vez que voltava do toalete para sentar do meu lado, me dava uma pontada de orgulho. Não só era a mais linda mulher da cidade como também das mais belas que vi em toda minha vida. Passei-lhe o braço pela cintura e dei-lhe um beijo.

— Me acha bonita? — perguntou.

— Lógico que acho, mas não é só isso… é mais que uma simples questão de beleza…

— As pessoas sempre me acusam de ser bonita. Acha mesmo que eu sou?

— Bonita não é bem o termo, e nem te faz justiça.

Cass meteu a mão na bolsa. Julguei que estivesse procurando um lenço. Mas tirou um longo grampo de chapéu. Antes que pudesse impedir, já tinha espetado o tal grampo, de lado, na ponta do nariz. Senti asco e horror.

Ela me olhou e riu.

— E agora, ainda me acha bonita? O que é que você acha agora, cara?

Puxei o grampo, estancando o sangue com o lenço que trazia no bolso. Diversas pessoas, inclusive o sujeito que atendia no balcão, tinham assistido a cena. Ele veio até a mesa:

— Olha — disse para Cass, — se fizer isso de novo, vai ter que dar o fora. Aqui ninguém gosta de drama.

— Ah, vai te foder, cara!

— É melhor não dar mais bebida pra ela — aconselhou o sujeito.

— Não tem perigo — prometi.

— O nariz é meu — protestou Cass, — faço dele o que bem entendo.

— Não faz, não — retruquei, — porque isso me dói.

— Quer dizer que eu cravo o grampo no nariz e você é que sente dor?

— Sinto, sim. Palavra.

— Está bem, pode deixar que eu não cravo mais. Fica sossegado.

Me beijou, ainda sorrindo e com o lenço encostado no nariz. Na hora de fechar o bar, fomos para onde eu morava. Tinha um pouco de cerveja na geladeira e ficamos lá sentados, conversando. E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traia sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma jóia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu.

Deitamos na cama e, depois que apaguei a luz, Cass perguntou:

— Quando é que você quer transar? Agora ou amanhã de manhã?

— Amanhã de manhã — respondi, — virando de costas pra ela.

No dia seguinte me levantei e fiz dois cafés. Levei o dela na cama.

Deu uma risada.                                    

— Você é o primeiro homem que conheço que não quis transar de noite.

— Deixa pra lá — retruquei, — a gente nem precisa disso.

— Não, pára aí, agora me deu vontade. Espera um pouco que não demoro.

Foi até o banheiro e voltou em seguida, com uma aparência simplesmente sensacional — os longos cabelos pretos brilhando, os olhos e a boca brilhando, aquilo brilhando… Mostrava o corpo com calma, como a coisa boa que era. Meteu-se em baixo do lençol.

— Vem de uma vez, gostosão.

Deitei na cama.

Beijava com entrega, mas sem se afobar. Passei-lhe as mãos pelo corpo todo, por entre os cabelos. Fui por cima. Era quente e apertada. Comecei a meter devagar, compassadamente, não querendo acabar logo. Os olhos dela encaravam, fixos, os meus.

— Qual é o teu nome? — perguntei.

— Porra, que diferença faz? — replicou.

Ri e continuei metendo. Mais tarde se vestiu e levei-a de carro de novo para o bar. Mas não foi nada fácil esquecê-la. Eu não andava trabalhando e dormi até às 2 da tarde. Depois levantei e li o jornal. Estava na banheira quando ela entrou com uma folhagem grande na mão — uma folha de inhame.

— Sabia que ia te encontrar no banho — disse, — por isso trouxe isto aqui pra cobrir esse teu troço aí, seu nudista.

E atirou a folha de inhame dentro da banheira.

— Como adivinhou que eu estava aqui?

— Adivinhando, ora.

Chegava quase sempre quando eu estava tomando banho. O horário podia variar, mas Cass raramente se enganava. E tinha todos os dias a folha de inhame. Depois a gente trepava.

Houve uma ou duas noites em que telefonou e tive que ir pagar a fiança para livrá-la da detenção por embriaguez ou desordem.

— Esses filhos da puta — disse ela, — só porque pagam umas biritas pensam que são donos da gente.

— Quem topa o convite já está comprando barulho.

— Imaginei que estivessem interessados em mim e não apenas no meu corpo.

— Eu estou interessado em você e também no seu corpo. Mas duvido muito que a maioria não se contente com o corpo.

Me ausentei seis meses da cidade, vagabundeei um pouco e acabei voltando. Não esqueci Cass, mas a gente havia discutido por algum motivo qualquer e me deu vontade de zanzar por aí. Quando cheguei, supus que tivesse sumido, mas nem fazia meia hora que estava sentado no West End Bar quando entrou e veio sentar do meu lado.

— Como é, seu sacana, pelo que vejo já voltou.

Pedi bebida para ela. Depois olhei. Estava com um vestido de gola fechada. Cass jamais tinha andado com um traje desses. E logo abaixo de cada olheira, espetados, havia dois grampos com ponta de vidro. Só dava para ver as pontas, mas os grampos, virados para baixo, estavam enterrados na carne do rosto.

— Porra, ainda não desistiu de estragar sua beleza?

— Que nada, seu bobo, agora é moda.

— Pirou de vez.

— Sabe que sinto saudade — comentou.

— Não tem mais ninguém no pedaço?

— Não, só você. Mas agora resolvi dar uma de puta. Cobro dez pratas. Pra você, porém, é de graça.

— Tira esses grampos daí.

— Negativo. É moda.

— Estão me deixando chateado.

— Tem certeza?

— Claro que tenho, pô.

Cass tirou os grampos devagar e guardou na bolsa.

— Por que é que faz tanta questão de esculhambar o teu rosto? — perguntei. — Quando vai se conformar com a idéia de ser bonita?

— Quando as pessoas pararem de pensar que é a única coisa que eu sou. Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim, quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão.

— Então tá. Sorte minha, né?

— Não que você seja feio. Os outros é que acham. Até que a tua cara é bacana.

— Muito obrigado.

Tomamos outro drinque.

— O que anda fazendo? — perguntou.

— Nada. Não há jeito de me interessar por coisa alguma. Falta de ânimo.

— Eu também. Se fosse mulher, podia ser puta.

— Acho que não ia gostar de um contato tão íntimo com tantos caras desconhecidos. Acaba enchendo.

— Puro fato, acaba enchendo mesmo. Tudo acaba enchendo.

Saímos juntos do bar. Na rua as pessoas ainda se espantavam com Cass. Continuava linda, talvez mais do que antes.

Fomos para o meu endereço. Abri uma garrafa de vinho e ficamos batendo papo. Entre nós dois a conversa sempre fluía espontânea. Ela falava um pouco, eu prestava atenção, e depois chegava a minha vez. Nosso diálogo era sempre assim, simples, sem esforço nenhum. Parecia que tínhamos segredos em comum. Quando se descobria um que valesse a pena, Cass dava aquela risada — da maneira que só ela sabia dar. Era como a alegria provocada por uma fogueira. Enquanto conversávamos, fomos nos beijando e aproximando cada vez mais. Ficamos com tesão e resolvemos ir para a cama, Foi então que Cass tirou o vestido de gola fechada e vi a horrenda cicatriz irregular no pescoço — grande e saliente.

— Puta que pariu, criatura — exclamei, já deitado. — Puta que pariu. Como é que você foi me fazer uma coisa dessas?

— Experimentei uma noite, com um caco de garrafa. Não gosta mais de mim? Deixei de ser bonita?

Puxei-a para a cama e dei-lhe um beijo na boca. Me empurrou para trás e riu.

— Tem homens que me pagam as dez pratas, aí tiro a roupa e desistem
de transar. E eu guardo o dinheiro pra mim. É engraçadíssimo.

— Se é — retruquei, — estou quase morrendo de tanto rir… Cass, sua cretina, eu amo você… mas pára com esse negócio de querer se destruir. Você é a mulher mais cheia de vida que já encontrei.

Beijamos de novo. Começou a chorar baixinho. Sentia-lhe as lágrimas no rosto. Aqueles longos cabelos pretos me cobriam as costas feito mortalha. Colamos os corpos e começamos a trepar, lenta, sombria e maravilhosamente bem.

Na manhã seguinte acordei com Cass já em pé, preparando o café. Dava a impressão de estar perfeitamente calma e feliz. Até cantarolava. Fiquei ali deitado, contente com a felicidade dela. Por fim veio até a cama e me sacudiu.

— Levanta, cafajeste! Joga um pouco de água fria nessa cara e nessa pica e vem participar da festa!

Naquele dia convidei-a para ir à praia de carro. Como estávamos na metade da semana e o verão ainda não tinha chegado, encontramos tudo maravilhosamente deserto. Ratos de praia, com a roupa em farrapos, dormiam espalhados pelo gramado longe da areia. Outros, sentados em bancos de pedra, dividiam uma garrafa de bebida tristonha. Gaivotas esvoaçavam no ar, descuidadas e no entanto aturdidas. Velhinhas de seus 70 ou 80 anos, lado a lado nos bancos, comentavam a venda de imóveis herdados de maridos mortos há muito tempo, vitimados pelo ritmo e estupidez da sobrevivência. Por causa de tudo isso, respirava-se uma atmosfera de paz e ficamos andando, para cima e para baixo, deitando e espreguiçando-nos na relva, sem falar quase nada. Com aquela sensação simplesmente gostosa de estar juntos. Comprei sanduíches, batata frita e uns copos de bebida e nos deixamos ficar sentados, comendo na areia. Depois me abracei a Cass e dormimos encostados um no outro durante quase uma hora. Não sei por quê, mas foi melhor do que se tivessemos transado. Quando acordamos, voltamos de carro para onde eu morava e fiz o jantar. Jantamos e sugeri que fossemos para a cama. Cass hesitou um bocado de tempo, me olhando, e ao respondeu, pensativa:

— Não.

Levei-a outra vez até o bar, paguei-lhe um drinque e vim-me embora. No dia seguinte encontrei serviço como empacotador numa fábrica e passei o resto da semana trabalhando. Andava cansado demais para cogitar de sair à noite, mas naquela sexta-feira acabei indo ao West End Bar. Sentei e esperei por Cass. Passaram-se horas. Depois que já estava bastante bêbado, o sujeito que atendia no balcão me disse:

— Uma pena o que houve com sua amiga.

— Pena por quê? — estranhei.

— Desculpe. Pensei que soubesse.

— Não.

— Se suicidou. Foi enterrada ontem.

— Enterrada? — repeti.

Estava com a sensação de que ela ia entrar a qualquer momento pela porta da rua. Como poderia estar morta?

— Sim, pelas irmãs.

— Se suicidou? Pode-se saber de que modo?

— Cortou a garganta.

— Ah. Me dá outra dose.

Bebi até a hora de fechar. Cass, a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele “não”. Todo o seu jeito era de quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça, por ser desligado demais. Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que pôr a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos.

Lá fora, na rua, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:

— MERDA! PÁRA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!

A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada.



(do livro “Crônica de um Amor Louco”;
L&PM Editores. Tradução: Milton Persson)


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Crônica - Circunferência ou Círculo? - 27 de Novembro 2014

Circunferência ou Círculo?



Tempo, sempre estou escravizado por ele! Uma grande contagem de várias medidas, diversas deles. Queria ser um índio, onde o tempo se resume ao dia e a noite. A luz e a escuridão! quarta-feira a tarde! Eis-me aqui na solidão de minha oca ( bem queria eu que fosse uma oca!) a casa está vazia ( todos estão em suas lides produtivas a essa hora!) estou mais vazio que meu tugúrio. Jaz sobre minha cabeceira um sem número de livros inúteis, folheio alguns, busco figuras significativas em outros, um livro acerca de espiritismo e mística. Canso co a leitura e tomo resolução de sair de casa, perambular por aí, a esmo, percorrer itinerários aleatórios.  Para onde ir a essa hora da tarde, numa cidade pequena com poucas opções de estada?  Paro a sombra de uma árvore irresoluto da minha próxima paragem, abro a carteira, conto os níqueis , com um grande esforço cognitivo, realizo somas básicas e chego a conclusão que meus numerários são suficientes para uma estada momentânea num dos poucos cafés que circundam a praça central da cidade. O local escolhido é o café Lápis-Lazúli , um misto de café, bar e botica. O comércio não é os dos mais votados da cidade, mas fica num posição bastante favorável, do lado da sombra da tarde (muito embora a essa hora o sol já esteja a meio caminho do ocidente!), ele fica na rota de muitas jovens moças, moças fabris que a uma hora dessas estão de retorno de suas fainas diárias. As passantes que  constituem a leva de proletárias e constituída de mulheres feiíssimas,  ou três apenas, pagam a pena com algo de beleza física.  O lápis- Lazúli fica em frente a loja de secos e molhados, talvez o maior comércio atacadista do subúrbio local! Lá neste comércio, trabalha aquela moça de minhas ilusões e paixões juvenis. É uma jovem de pouca beleza mas de um charme encantador, sedutor. Iludo-me na crença de conseguir meu intento juvenil-pueril, mesmo sabendo que a dama é casada desde a muito tempo. Faz tempo que não a vejo, bem podia eu inventar alguma aquisição na loja de secos e molhados em que ela trabalha só pra ter o prazer de vê-la e deseja-la. Deseja-la somente. Após algum tempo de resistência tomo a iniciativa de ir até lá naquela loja, uma passada por lá não me custará nada, a não ser que eu exteriorize meus sentimentos mais escondidos por aquela moça  A jovem permanece lá, no mesmo local de sempre, indiferente a qualquer coisa, indiferente a qualquer flerte. Na observação à moça,  percebo que a mesma está sem seu principal acessório de identificação conjugal! No dedo anular da mão esquerda a vacância da circunferência Himenêutica .  ( Seria circunferência ou círculo? não sei bem!)  um sinal de esperança para mim ? A possibilidade de uma concretização de um desejo juvenil? Inquiro tais bestialidades, conjecturo outras, enquanto isso, a oca da loja de secos e molhados executa seu trabalho preenchendo o livro contábil com cifras e linguagem técnica contábil. Por que não fiquei no Café Lápis – Lazúli? Não fosse minha vinda para cá não teria ficado na dúvida, dúvida quanto a questões afetivas da moça da loja, dúvidas quanto a diferença entre circunferência e círculo! Dúvidas angustiosas e melancólicas. Ilusões pueris, conceitos geométricos formais e abstratos. O Amos absurdo de uma circunferência ou círculo simbólicos.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Crônica: Quadrantes - 21 de Novembro 2014

Crônica: Quadrantes

Quadrantes
Eis que chega a sexta-feira chega, as sombras do ocaso me convidam para perambular pelos bares  da cidade. Logo eu que passei a semana no ócio, na difícil missão de carpina do nada a fazer desde segunda-feira, aliás , desde sempre. As luzes da cidade me convidam para perambular no itinerário dos vários bares da urbe, cumprirei minha missão de fiel etílico! Permissões maiores ou limitações não me intimidam nesse momento! Vagabundeio pelo perímetro urbano até onde meus músculos fragilizados de perna e braço me permitem. Subo rua , desço alameda, e invariavelmente estaciono num dos meus favoritos lugares: o Ratisbona, um tradicional bar que é misto de café e bar. A essa hora as mesas do Ratisbona pululam de personalidades de vários tipos, proletários  e burgueses se misturam entra a clientela heterogênea do local de Baco! Onde estaria a essa hora a moça da loja de secos e molhados? Bem provável na companhia de seu cônjuge no tradicional lar suburbano! Um vozerio confuso enche a pequena sala do pequeno bar, as horas avançam, o álcool começam a embotar os cérebros dos locatórios momentâneas das mesas do Ratisbona, enquanto eu ocupo um modesto lugar solitário numa quina do prédio, mesa solitária de muita divagação e solidão! Nesse rodízio de ocupantes dos lugares, eis que surge a moça da loja de secos e molhados, ladeada pelo seu consorte, um homem espadaúdo e igualmente feio! Questiono tal fato e me irrito entre minhas divagações solitárias!!  As horas avançam, os transeuntes do local diminuem, as horas avançam, a lucidez vai indo embora, a embriaguez toma corpo do meu corpo e de minha mente.

Agora estou em casa, na solidão da alta noite, na falta de lucidez da minha insônia, do cérebro embotado de álcool e ilusões. A solidão da casa, só espíritos medrosos circundam meu modesto tugúrio! Onde estaria a uma hora dessas a moça da loja de secos e molhados? Estaria no seu culto a Dionísio com seu consorte? Não sei, melhor não pensar nesse fato! Angústia, solidão, nenhuma alma encarnada para conversar , nenhuma alma viva para exteriorizar minhas angustias, nem mesmo um discípulo para debatermos sobre a importância dos quadrantes  e sua simetria. A insônia me acompanhará até quando? Onde está meu sono? Onde estará a moça da loja de secos e molhados nesse quadrante ilógico? 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Crônica- Duas Horas da Tarde no Brasil - 23 de Outubro 2014

                               Duas Horas da Tarde no Brasil
No calor de uma tarde qualquer de Setembro, quando o sol cumpre seu itinerário no horizonte escampo de nuvens, sigo meu caminho em direção a minha faina diária. Ao longo das ruas inóspitas, de quase nenhum transeunte atrevido a expôs  a sua pele ao sol em brasas. A essa hora, não fora a obrigação do trabalho, dificilmente eu me arriscaria sob os rios solares de uma região equatorial onde a incidência do calor do sol é mais intensa. Desvio meu itinerário em direção a casa de minha Matrona, pois é sabido por mim que a essa hora o bule  do café já está no fogo naquele tugúrio suburbano. A minha matrona nem oferece o arábica, vem com uma chávena fumegante, uma dose cavalar desse líquido precioso. Entre uma solvida e outra no café, recebo conselhos prudentemente maternos, escuto o discorrer de sua oratória materna, estou monossilábico agora, quase silente, a receber palavras carinhosas e censuras. Após essa breve pausa, retomo minha trajetória natural de ainda a pouco, só que agora cada vez mais procurando os filetes de sombra tão escassos a essa hora. Nesse caminho cruzo aquele pequeno comércio que se encontra com suas portas cerradas, pois nenhum desavisado cliente está disposto a comprar qualquer coisa dispensável ou não, nessa inútil tarde de calor. Mais a frente, minha retinas são maltratas pela claridade intensa do reflexo da luz solar no muro branco do cemitério, a claridade do muro do campo santo faz meus olhos se contraírem para diminuir  o excesso de luz na retina, mais a frente um burro cansado pasta os poucos cabelos de mato seco que insistem em brotar naquele chão seco. Sigo a rota, mais adiante passo em frente e passo por uma casa de um solitário homem, o cenário é o seguinte: ele cochila à sombra de uma frondosa Mungubeira no pátio da casa, enquanto ali no interior da residência um aparelho de televisão transmite um noticiário com cenas de tragédias urbanas, mesmo assim o solitário homem dorme o sono dos justos.
Seguindo a légua tirana das cenas urbanas, atravesso o largo da Matriz, onde um retardatário fiel faz o sinal da cruz quando se encontra defronte a porta principal da sinagoga. Seu sinal é feito de modo apressado e mecânico. Do outro lado da praça, um sem número de proletário de uma fábrica de tecelagem, estão reunidos após uma pausa imprevista de seus afazeres,  interrupção do fornecimento de eletricidade impossibilitou o prosseguimento do funcionamento das máquinas.
Duas horas da tarde no Brasil, a hora exata em que eu entro em ação. Nesse exato momento os portões da fábrica em que eu trabalho traga uma grande quantidade de trabalhadores que em grosso número palram quase ao mesmo tempo tornando o local uma verdadeira Babel onde ninguém se entende. Duas horas da tarde, preciso entrar em ação, pensar menos, refletir ainda menos sobre a Sociologia daqueles que cruzaram meu itinerário neste começo de tarde.


domingo, 19 de outubro de 2014

Crônica - Um Espírito Além do Meu - 19 de Outubro 2014

Um Espírito além do Meu

Desde o dia em que arrumei uma colocação como redator de uma crônica semanal no jornal sofro um desgaste angustiante para executar minha  e cumprir a periodicidade contratual . Os editores chefes são impiedosos  cobradores, menos pela qualidade, mais pela quantidade e pontualidade. Parece que nesta semana minha máscara cai! Sim explico,  é por que a grande maioria, ou quase todas as minhas crônicas não eram escritas por mim, mas por um tio meu , habilidoso com as letras de Camões e que me entregava de bandeja seus textos e eu sem remorso nenhum assinava como minhas! . Esse meu parente é um ser bastante esquisito. Solteirão convicto, celibatário, ermitão e beberrão, um inveterado! A sua habilidade de escrever vem de longas datas, sempre gostou de Literatura e de escrever, construiu ao longo dos anos uma vasta biblioteca dos maiores escritores universais. Diferente de mim que só possuo duas ou três enciclopédias e outros almanaques!  Mesmo sendo ele uma personalidade difícil de se lidar, eu conseguia arrancar dele meu “material autoral”. Ela fazia um pouco de cena, mas no final cedia em favor do sobrinho! Essa era uma forma de satisfazer seu ego mesmo não recebendo ele os créditos elogiosos( se bem que eles eram tão escassos!). Só que para minha infelicidade, esta semana, o meu guru decidiu fazer uma viagem de cunho religioso para a cidade de  Bobaim, duraria esta jornada uma semana, exatamente o período de entrega dos meus escritos ao jornal, fiquei num mato sem cachorro.
Agora fico na obrigação de escrever de próprio punho sem a ajuda do guru. Saio de casa em busca de um pouco de inspiração, passeio pelas alamedas da cidade observando os transeuntes na intenção de pinçar algo! Nada me anima. Nada me inspira!  Na viela dos Tabajaras encontro um velho amigo que não via a tempo, É o Gilson Borges, um literato descendente de portugueses e contraparente de Camões, segundo informações dele. Gilson estava voltando de uma turnê por terra de Além Mar, passara dois anos na terrinha de seus ascendentes! Falara de Portugal, de como seu país estava diferente, falou também que nesse período esteve a escrever um romance que pretendia publicar em três meses, aqui no Brasil! Conversávamos sobre literatura,  basicamente. Falávamos sobre  os clássicos escritores europeus:Dostoiéviski, Maiakovski, Proust, Anatole France, Emilly Zola, falou de Victor Hugo e Julio Verne, Com bastante propriedade ele citava cada característica desses autores, e eu só citava fatos enciclopédicos sobre eles, fatos desnecessários como o local e data de seus nascimentos. Após esse embate que demorou três quarto de hora, nos despedimos e tomos nossos rumos.
As horas avançaram e o prazo de entrega da minha crônica ao jornal está quase no fim, preciso escrever qualquer coisa , qualquer incoerência, algo até ininteligível ! Sento na frente da máquina de escrever, a folha em branco, a falta de ideias, não sai nada, meu quengo está oco. o relógio continua avançando as horas constantemente. Num maquinismo começo a dedilhar as teclas do QWERT , saem só incongruências, banalidades, períodos sem nexos, inversões de orações subordinas, uma sintaxe vagabunda. Mas de repente, como num passe de mágica tudo mudou para o meu lado, as ideias se acertaram, o texto começou a fluir, meus dedos percorriam  rapidamente todas as letras numa rapidez sincronizada, não sei bem explicar de onde vinha essa inspiração, confesso que parecia que não era eu ali,  a construir tais períodos. Parecia que haviam um espírito além do meu, ditando aquelas palavras do além como uma psicografia sobrenatural enchendo folhas e folhas de bom texto,

Missão cumprida no exato momento que o Graham Bell toca estridentemente na sala de visitas, do outro lado da linha o editor chefe do matutino cobrando a minha dívida textual para com ele. Afirmo que em questão de minutos ela estará no seu correio eletrônico. Tirei um peso enorme que estava sobre minhas costas. Alívio, abro uma garrafa de vinho  em louvar a Baco! 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Crônica - Porta retrato, café amargo e Aritmética - 14 de Outubro 2014

Porta retrato, café amargo e Aritmética

Fim de tarde, a luz natural do astro-rei já começa a dá sinais de morte, a claridade não é mais aquela de ainda a pouco, a escuridão agora vence a batalha contra os parcos reflexos da luz estelar. As horas são tristes,  horas de ocaso são tristes, penso em mortes, morte dos outros , morte minha. Depois de uma tarde inteira na solidão de minhas divagações, tomo a inevitável decisão de abandonar minha condição e eremita e resolvo vagabundear pela urbe. Nada de novo no cenário do meu arrabalde, as mesmas cenas cotidianas que se repetem rotineiramente. Um vendedor de algodões-doce religiosamente executa seu pregão  auxiliado por uma buzina ensurdecedora. Homens espadaúdos retornam de suas fainas em um comboio de bicicletas. O vendedor de bilhetes de loterias ainda tenta vender as últimas cartelas do dia, os últimos sonhos do dia no jogo da roleta dos bichos! E assim seguem as cenas urbanas da periferia local nesse momento de  quase noite.
Enquanto estou na esquina da igreja Matriz conversando com amigos, recebo um chamamento  daquela velha amiga de nossa família,uma pessoa que a muito não via.Mesmo distante dá pra entender que sua convocatória não tomará muito tempo meu. A senhora em questão solicita que eu lhe tire umas dúvidas a respeito de umas contas que ela tem com uns mascates, ela não é muito habilidosa em aritmética ( eu também não muito, mas um pouco mais afeito a números do que ela!)  e teme que os mascates queiram passá-la pra trás na prestação de contas! Ela puxa duas cadeiras e me convida pra sentar, começo a rabiscar algumas cifras após a explanação contábil da senhora. Os rabiscos são feitos numa caderneta modesta e de folhas amareladas pelo tempo!  Entre um balancete e outro, a senhora oferece café que prontamente aceito por mim. É um café forte e amargo, que para mim é de bom grado! Entre uma pausa e outra da contabilidade, por acaso miro um porta retratos onde está exposto a fotografia  da filha da senhora das contas, várias lembranças vieram ao pensamento. Lembranças boas, lembranças frustradas, desilusões. Aquele retrato foi suficiente para requentar memórias boas e ruins, por um instante me desconcertei diante aquela imagem e fiz um esforço tremendo para não exteriorizar nenhum sinal de abalo ante a mãe da moça.
A contabilidade já estava quase no fim, ainda bem, pois se não fosse assim minha condição de aritmético-contabilista teria sofrido um abalo suficiente para fechar o balancete. Um simples porta retratos causou toda esse desordenamento emocional.

Volto ao lar, tão eremitério  quanto eu o deixei a duas horas atrás. Estou de novo só, divagado, agora muito mais angustiado pelo café amargo, a aritmética e o moça do porta retratos. Principalmente pela foto dele!

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Crônica - É Outubro - 2 de Outubro 2014

Chegou outubro, talvez um mês como qualquer outro para maioria dos que se utilizam do calendário cristão, mas para mim não! No primeiro dia do mês, uma atípica garoa no início da tarde muda a paisagem seca dos últimos dias. Antes do término da primeira hora da tarde a rápida chuva surpreende os transeuntes que a essas horas, costumeiramente  cruzam o chão da praça do centro comercial da cidade! Estou eu nas cercanias da praça como um carapina do nada a fazer, observando os passantes que vagabundeiam pelo comércio local. Mas a frente á esquerda descendo a ladeira fica o bar do Ratisbona, um misto de bar e lupanar, ali fica a tradicional zona do meretrício local, os clientes a essa hora são poucos. Nesse observar inútil da paisagem urbanística, mudo a vista em direção diametralmente oposta ao bar do Rabisbona e vejo a loja de eletro-eletrônicos, lembro que necessito de alguma peça inútil para o meu computador de mesa, negligencio o preço da peça ofertado pelo vendedor e após essa contenda comercial consigo junto a ele minorar em alguns centavos o preço da peça em questão.
As horas passam, ocupo solitariamente um banco da praça, fumo desbragadamente um cigarro após o outro mesmo estando minha garganta em petição de miséria, atitude bastante irresponsável para quem vai precisar da voz no dia seguinte como um instrumento de trabalho. O amontoado de guimbas ao redor do banco de minha estadia denuncia o quanto da minha inútil atitude tabagista. Uma nuvem de pombos voa de modo desordenado no perímetro da praça, um sem número de aves alvinegras fazem a festa sem se oportunar com os personagens que vão e vem por ali. As aves sobrevoam o local num arrulhar monótono e sem nexo.
Veio em mim a ideia de ir naquela loja de secos e molhados só para olhar a vendedora com seu charme de mulher que incita minha libido com seu charme. Infelizmente a jovem mulher já foi abençoada pelo Himeneu, um acessório de bijuteria barata em forma de círculo no dedo anular da mão esquerda, denuncia tal fato e a monogamia ocidental não permite maiores avanços e pretensões do meu intento quase hormonal, quase bestial .

As horas avançam, o sol já vai a meio caminho, tenho agenda marcada para logo mais as dezessete horas no solar de meus pais, é o tradicional chá das cinco que religiosamente as quartas-feiras de todas as semanas se realiza. Tenho que ir, o dever me espera no meu lar, além do chá, espera por mim, um livro para prazerosa leitura, ainda nas páginas iniciais, é bem verdade. Minha mãe me espera, ela espera que eu permaneça celibatário não sei até quando,espera que permaneça eternamente tutelado por seus afetos, enquanto isso penso na moça da loja de secos e molhados, penso na condição monogâmica e racional de nossa cultura, questiono tal fato e consigo me irritar com todos esses fatos injustos.  

domingo, 21 de setembro de 2014

Crônica - Sábado à Noite – Não é verossimilhança não, é realidade mesmo! - 21 de Setembro 2014

Sábado à Noite – Não é verossimilhança não, é realidade mesmo!
É noite de sábado, ainda é cedo, talvez nem sejam nove da noite. Volto para casa bastante ébrio, resultado de severas batalhas etílicas desde as primeiras horas da tarde. O culto ao deus Baco foi feito despudoradamente intenso por mim hoje! Nunca mais tinha sido tão fiel a Baco quanto hoje. Estou em casa, não há nenhum espírito encarnado para me fazer companhia, só espíritos desencarnados que se escondem nas sombras medrosas desta noite da casa solitária. Todos saíram noite adentro deste sábado místico. Mesmo sobre efeito de tanto álcool, não consigo conciliar o sono. O que fazer? Ler um livro? Missão quase impossível dada a lassidão do pensar em algo mais elaborado, de fazer conexões cognitivas mais fortes. Teimosamente tento escrever qualquer coisa no computador de mesa, impossível, todas as letras do teclado parecem está dançando uma dança ilógica! Diante do computador só me resta as informações rápidas da internet  que só servem para embaralhar a minha cabeça confusa. Recorro as bestiais redes sociais que quase não acrescentam nada, mas é o bastante para um ébrio como eu quase inconsciente de qualquer coisa. Nas curvas de tais redes sociais, cruzo uma esquina e encontro uma ex paixão de longa datas, trocamos duas ou mais palavras que não em recordo bem, só sei que ela sinalizou uma possibilidade de retomarmos a paixão antiga! Penso em mulheres que eu tive, penso em amores platônicos. Onde estaria Suely a essa horas? Pâmela? Luiza? Bernadete? Angelina? -  De fato não estou lúcido, o cérebro embotado em álcool não permite-me certas racionalidades.
Tonto de está diante da máquina por algum tempo, resolvo sair até a varanda para olhar a rua. Pego o meu último cigarro do maço, entro em desespero por saber ser ele o último do pacote e não ter como repor esse estoque inútil de cigarros! Estou agora deitado na rede a me balançar, o ranger estridente dos armadores aguçam minha insônia! Paro o balanço, a ouço lá fora uma calorosa discussão entre um homem e uma mulher, talvez sejam namorados com alguns ajustes amorosos por fazer. Silêncio, uns três minutos talvez, esse silêncio só é interrompido pelo soluço da jovem moça, que entre lágrimas e a fala cortada,  consegue falar apenas “eu te amo”.
Na solidão da insônia  na minha rede, só tenho a companhia um velho rádio de pilhas ( objeto bastante demodê para os dias de tecnologia de hoje!) Ouço o rádio AM que quase não toca canções, uma discussão bestial entre dois contendores radiofônicos faz com que a chave seja desligada. Paro, reflito sobre todos os fatos recentes dessa noite. Poderia o relato de tais fatos interessar a alguém? Virar literatura? – Tudo isso não foi verossimilhança não! Foi real mesmo, talvez se eu tivesse destreza de um literato poderia até fazer um conto, uma crônica disso tudo, quem sabe?!

domingo, 14 de setembro de 2014

Crônica - A Ermitoa - 17 de Setembro 2014

    A Ermitoa

Morava sozinha, os parentes mais próximos já haviam todos cumprido a sina mais certa que é a morte. Essa mulher já com uma idade na qual ninguém sabia ao certo, nem mesmo ela, mais sabiam todos que ela era uma amanuense aposentada, fato que denunciava o avanço de sua idade. Mantinha uma amizade amistosamente distante com seus vizinhos e na sua casa quase nunca ou nunca mesmo recebia nenhum conviva. Os mais próximos, ou os menos distantes, sabiam que em seu lar, as principais companhias eram um sem número de gatos que vagabundeavam na pequena choupana. Dizem as más línguas que a quantidade de felinos diminuíra significativamente nos últimos anos, por pura falta de zelo de sua dona! Os anos de serviço na repartição pública não permitiu que ela construísse grande patrimônio, não fora a pequena casa herdada de seus pais, não teria outro bem semovente ou não. Sua rotina era extremamente simples, mais ainda para uma pessoa que morava só, tinha um fogão em casa mas não usava quase nunca, suas refeições eram feitas num pequeno restaurante suburbano que religiosamente era freqüentado por ela de domingo a domingo, chovesse ou fizesse sol. Os afazeres domésticos eram evitados por ela, realizando tarefas básicas como lavar as poucas roupas de seu enxoval uma vez por semana! Dormia poucas horas a noite,passava muitas horas da noite diante da televisão, complementava as necessidades do sono da noite, nas primeiras horas da tarde de todos os dias! Fazia parte de sua bestial rotina, as caminhadas aleatórias pelas principais ruas do bairro, caminhava descompromissadamente  por muito tempo sem maiores preocupação com o tempo! Nesse itinerário quase não interagia com os transeuntes que cruzavam seu caminho, só acenava discretamente para aqueles que julgava mais próximos e confiáveis. De uns tempos para cá a solitária adquiriu o hábito de fazer uso do álcool para preencher as horas do vazio no que fazer! Cumpria suas obrigações etílicas discretamente na solidão do lar, não queria que seus vizinhos dessem alguma notícia desse seu condenável ato. Nos finais de semana era um “rato de sacristia” não perdendo um evento sequer de sua Igreja Católica quase vizinha a sua residência. Nesses dias de cerimônias religiosa, mantinha uma certa cautela nas ações etílicas, precavida de dá bandeira diante os fiéis que a tinha na conta dos mais respeitáveis crentes.
E assim se fazia a rotina da solitária mulher, sem parentes ou aderentes, sem muitos afazeres domésticos e tendo como companhia uns gatos rabugentos, o álcool e a fé. Sem exteriorizar suas angústias existenciais de uma vida extremamente solitária e sem maiores ambições!

                                                                                                                                         

domingo, 31 de agosto de 2014

Crônica - Um dia qualquer - 31 de Agosto 2014

O dia começou como tantos outros de minha existência, não acordei cedo como sempre, a insônia da noite anterior não permitiu que eu caísse nos braços de Morfeu antes das duas e meia da matina! Acordando tarde, é natural que todos os ocupantes de meu lar tomassem rumos em seus itinerários das fainas obrigatória para um dia da semana! Só eu aqui na solidão da minha fortaleza, na ociosidade improdutiva de todos os dias, estou ilhado por quatro paredes da casa. Como eu disse, todos saíram para seus trabalhos diários, só não eu, como sempre moldando o nadar a fazer. Não fora minha condição de desajeitado para afazeres domésticos poderia por alguma ação que organizasse o ambiente familiar. No meu escritório, que é meu quarto,  o cenário permanece o mesmo de a vários dias, a cama cheia de livros, uma rede armada num recanto da parede, um cinzeiro cheio de guimbas empestando o ar do ambiente de um sarro nauseante. Sem nada a fazer me direcionado a minha janela e dali começo a fotografar mentalmente as paisagens momentâneas de minha rua, são nove horas da manhã, a rua está tão vazia quanto minha casa. Só alguns cachorros de rua que vagabundeiam aqui e acolá! Sacos de lixos de amontoam nas calçadas vizinhas, logo mais a coleta pública de lixo passará recolhendo todos inservíveis! O sol brilha intensamente, pior ainda no muro branco do cemitério ao longe, minhas retinas não gostam nada desse desgastes. O céu escampo de nuvens denunciam a ausência de chuvas. Um azul anil cobre todo céu até onde meu campo de visão periférica alcança! Do nada surge um moinho de vento levantando uma poeira que percorre toda rua desordenadamente! Natural esses moinhos de ventos para essa época. Volto para a prisão do lar, adentro meu escritório, folheio algum livro sem ler uma linha, penas folheio, apenas procuro algum símbolo significativo.

As horas passam, os ponteiros do relógio se entrecruzam, o ócio me deixa uma pessoa indiferente a tudo, nem a necessidade fisiológica de matar a fome me abala! Sono, o sono das horas erradas e descontroladas! Durmo, acordo rápido, dormir quanto tempo? Não sei! Estou sem relógio! O cuco bate uma vez apenas, penso ser doze e meia, mas como dormi talvez seja uma hora pelos meus cálculos. Ou seria uma meia hora de outra hora qualquer? Não fosse essa constância do relógio badalar a cada meia hora não estaria confuso! Lassidão, sono, uma inércia preguiçosa impede que eu me levante dessa situação de meio sono, meio sonho? Estarei dormindo? Estarei sonhando? Preciso sair dessa situação. Preciso andar nas ruas, conversar com alguém, discutir com alguém, discordar só pirraça de alguém. Hoje é um dia qualquer como outro, eu continuo amargo como qualquer outro dia. Apenas isso! 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Crônica - Na Bacia Das Almas - 21 de Agosto 2014

Completam quatro dias a minha estada no leito desse hospital suburbano, um mal súbito tomou conta de mim, minha combalida saúde ficou mais avariada após isso. Uma bateria de exames revelou um sem número de males do corpo e até da alma. Essa consulta aos servos de Hipócrates trouxe à luz de meus conhecimento que os vasos sanguíneos de  meu cérebro estavam em petição de miséria, as coronárias já desgastadas de tanto amor e ódio não resistiria muito o embate pela vida, avaliação médica detectou que meu velho coração estava crescido ( seria crescido ou diminuído? Não sei bem!) Também pudera, uma vida de excessos só podia chegar a este ponto com essas mazelas! Excessos de sinceridades, de lealdades, de companheirismo e de amor a mulheres várias! Excessos etílicos, tabagistas , de ócios e sedentarismos.  
 Na hospedagem neste hospital  nesses poucos dias,  houve uma grande rotatividade de pacientes como eu, moribundos. Uns voltavam a vida, alguns eram empacotados pelo homem da funerária. Um garoto que gritava e parecia sentir uma dor medonha, um outro homem que tentava balbuciar algumas palavras ininteligíveis não suportou nem doze horas! Outro paciente que falava com um sotaque diferente forai encontrar-se com morte certa na madrugada daquele dia! Pobre infeliz foi sepultado como indigente, depois descobri que ele era um imigrante boliviano que tinha situação irregular junto ao consulado!  Um ancião conseguiu vencer sua batalha contra a morte e recebeu alta nesta manhã! E eu aqui na incerteza do meu estado, até quando entre a vida e a morte!

É madrugada, o quarto está escuro e a incerteza de que horas são exatamente me deixa mais angustiado, uma angústia mais sufocante que essa secura da boca, saber as horas nesse momento me consola mais que um copo de água na boca seca! Durmo não sei quanto tempo, quando acordo ainda está tudo escuro, quero ter a certeza que horas ao exatamente. Bobagem minha essa da subserviência das horas! Deveria está mais preocupado com meu estado! De repente o silêncio se acentua a falta de luz se acentua!A incerteza da vida! Estarei morto ou vivo? Será que me enterraram vivo? Ou é meu espírito que não quer separar de meu corpo na sepultura? Estarei na bacia das almas ou já serei mais uma delas?

sábado, 16 de agosto de 2014

Pequena Crônica - O Sábado Devia Ter Quarenta e Oito Horas - 16 de Agosto 2014

Pequena Crônica - O Sábado Devia Ter Quarenta e Oito Horas

Sábado, o sol já se levantou a tempos antes de mim, também pudera, após ter  me encontrado nos braços de Morfeu após as duas da manhã seria natural o despertar a essa hora! O rádio ainda está ligado desde a noite anterior, ele executa uma canção em língua de Byron que traduzo para a língua de Camões como algo parecido com “ Corações jovens correm para liberdade”  Título bastante sugestivo para um sábado, o dia mais libertino da semana! Um sem número de afazeres desnecessários   devem ser cumpridos antes das doze badaladas fatais da madrugada!  O jogo da loteria com seus números absurdamente ilusórios, a reunião mensal  da confraria partidária, o conclave quinzenal do círculo literário, o batizado de um afilhado apadrinhado político meu, a carraspana na casa de meu mano,a visita  a barbearia para ficar em dia com  as obrigações capilares apesar dos escassos cepelhos que resistem em meu couro cabeludo. Resta ainda no fim da tarde o ludopédio, meu time de coração estará em ação logo mais, serei mais um arquibaldo a torcer por mais um tento do time de minha paixão. Ainda preciso terminar um conto que comecei a escrever a três dias e depois de várias edições, não ficou bom!  Jaz sobre minha escrivaninha ainda, um livro de um autor francês que eu não lembro o nome agora e que insisto em dá por concluída sua leitura faz dias, mas os afazeres sabatinos não permitam que eu avnçe em sua páginas.

Resta ainda uma garrafa de Kirchwasser meio vazia, meio cheia, resta ainda um espírito vazio dentro de mim. Existe um questionamento se todas essas coisas vãs são necessária. É meia noite, hora grande e eu ainda estou diante da tela do computador a consertar os períodos daquele conto que não ficou bom ainda, inverto os períodos, insiro novos verbetes, riscos uns neologismos desnecessários, preciso de um revisor amigo para me dá uma boa idéia e afim de que o conto fique acabado! O sábado passou e acho que nem setenta e duas horas seriam necessária para esse dia!!

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Crônica - O Carpinteiro do Nada a Fazer - 14 de Agosto 2014

O carpinteiro do nada a fazer

Tarde de quarta-feira, tarde de ócio, nesse instante da semana cumpro minha obrigação do nada a fazer, sou um carapina do nada como diria o mestre da literatura brasileira Autran Dourado. Monto meu “escritório” à sombra de um salgueiro de frente minha casa, de mobília franciscana, o local do trabalho constitui-se de uma mesa de plástico e mais três cadeiras e uns tamboretes! Uma sala de visita para receber alguém para uma troca de idéias. É o começo de uma tarde abafada de novembro, perto de uma hora as crianças caminham para a escola ladeados por suas mães, alguns pares mais retardatários , apressam o passo para não perder a hora. Duas horas, o carro que recolhe o lixo passa, três ou quatro homens espadaúdos tentam acompanhar o ritmo do semovente , os homens fazem uma limpa geral da rua, uma dona de casa distraída ainda corre para levar ainda alguns sacos  que restaram no jardim. Em cima da carroceria do caminhão, em meio a toda bagunça dos inservíveis e indiferente ao mau cheiro, um homem vai organizando o lixo recolhido. Agora o carro já foi, e quem ao longo da rua é um vendedor de bilhetes de loterias vendendo sonhos e ilusões, ele então chega ao meu escritório e oferece sua mercadoria aos meus préstimos, após muita insistência e palavrório do loterista faço uma fezinha no jogo dos Bichos!  Após a saída do bilheteiro, divago agora na solidão do escritório a respeito de tudo e a respeito de nada. Um sem número de maracanãs passam  nos ares fazendo um barulho estridente, o desacerto de uma cópula, talvez, tenha sido o motivo de toda contenda.  As três horas da tarde minha consorte me contempla com uma chávena de café fumegante, café amargo e que incita minha condição de tabagista, fumo desbragadamente após o Mooca, sem nenhum pudor enfileiro uma cigarrilha após outra na solidão do escritório. Chega aqui para dá seu expediente, aquele turista de bermuda estampada, fala de lugares distantes, fala da Suíça, um lugar absurdamente frio e sem emoção!
 A tarde avança, o sol já vai a meio caminho do horizonte, daqui a pouco as sombras serão maiores que a claridade do astro rei. As crianças agora voltam da escola, com suas fadas rotas, conseqüências das reinações da hora do recreio.

Sopra uma brisa suave, o sol já se escondeu por trás daquela serra que eu já fui muitas vezes, julgo eu! Estou pronto  para encerrar meu  “expediente” quando sou surpreendido pelo vendedor de bilhetes de loteria anunciando que eu havia ganho. Deu Touro na oitenta e dois, dizia ele com olhos esbugalhados! O dinheiro do prêmio era suficiente para garantir mais expediente de ócio, ou pelo menos uma tarde! Carpinas do nada também tem sorte no jogo!

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Crônica - O Bar Katmandu e a boemia - 13 de Agosto 20014

O Bar Katmandu e a boemia 

Principiei na boemia ainda jovem quando ainda estava na escola básica, fui levado para  tal ambiente por um professor de Literatura que tinha na conta dos seus bons alunos, segundo ele. Timidamente passei a freqüentar o tradicional bar da rua da Palma ( hoje rua do poço) freqüentado pela alta intelectualidade da cidade, de nome bastante exótico, era o Katmandu, segundo seu proprietário, o batismo do bar se deu da o aspecto cosmopolita da cidade nepalesa, tal qual seu bar. Exótica e variada era seu público constituído na sua maioria por intelectuais, jornalistas dos três  grandes diários da cidade, estudantes universitários na sua maioria do curso de jornalismo que cavavam um lugar ao sol num dos jornais. Em meio a todo essa mixórdia de freqüentadores, timidamente fui inserido a esse meio, era apenas um mero coadjuvante  desses personagens. Era apenas o pupilo do professor que me apresentou inicialmente como dono de bons sonetos alexandrinos  e isso rendeu um certo respeito pelos freqüentadores da mesa dezessete. Ao aumentar a assiduidade da freqüência no bar Katmandu, fez com que eu me tornasse figura permanente no corpo dos freqüentadores de lá. Após  alguns anos como titular do local, aumentei meu círculo de amizade dali e o respeito foi aumentado quando fui aprovado no vestibular para o curso de farmácia, ascendi socialmente naquele local com isso, garrafas e mais garrafas foram abertas em comemoração a tal situação.  Meu  cartaz foi tanto que recebemos a visita em nossa tradicional mesa dezessete do nada menos que o diretor chefe de redação de uns dos jornais de grande circulação, Jamil era um turco com forte influência no meio das altas rodas da sociedade . Ser amigo de Jamil significava garantia de boas colocações, seu poder de influências no meios jornalísticos permitia a certeza de um lugar ao sol. Foi através de Jamil que eu garantir um lugar no matutino de mais prestígio na cidade, passei a escrever sonetos três vezes por semana naquele jornal, no caderno de cultura. Essa colocação garantia um numerário razoável para ir levando o caro curso de farmácia. Estaria bem até hoje não tivesse eu cometido um deslize pueril, publiquei um soneto sionista exaltando o povo judeu, essa foi a gota d’água para ferir os brios de  Jamil, e meu  emprego sumir das mão. Não fosse uma meia dúzia de crônicas que vendo a um jornal, minha situação financeira estaria bastante combalida.

sábado, 9 de agosto de 2014

Crônica - De Babau do Pandeiro a Thelonius Monk, de Raimundo Soldado a Dizzy Gillespie - 9 de Agosto 2014

Eu preciso beber algo, rapidamente

Olá como vai? Não, eu não vou reproduzir essa canção do Paulinho da Viola íntegra! Não que eu seja um alcoólatra vulgar, um inveterado do álcool, longe de mim que sou bastante cônscio dos  malefícios físicos deste mal. Estou apenas cumprindo minha herança cultural herdade de uma cultura ocidental-cristã. Não precisa ser uma carraspana, nem mesmo uma pândega álacre com uma multidão, quero apenas botar meus discos para tocar, ouvir minha canções preferidas, canções ecléticas que vão desde Babau do Pandeiro a Thelonious Monk, de Raimundo Soldado a Dizzy Gillespie, simplesmente pelo prazer de ouvir música, dançar desengonçadamente cada canção não solidão da casa, uma dança sem censuras. Preciso beber algo rapidamente ao lado da moça Gal, a moça que me ama, amar de intenso  e duradouro prazer como um porco, e não um amor ligeiro e comedido  sem resguardo da concepção. Preciso beber algo rapidamente no calor da tarde, contraditoriamente uma bebida quente, uma bebida que causa brilho nos olhos, tornando largo o peito quando percorre o caminho do estômago, a serenidade chega num instante e a euforia é contida. Não pretendo ser um relator das sensações tal qual fez o autor do livro Noite na Taverna  nem pretensão, nem habilidade para tal, pretendo nesse momento pelo menos me livrar das amarras da obrigação do dia a dia, das angústias da racionalidade existencialista. Preciso urgentemente terminar essa crônica, a garrafa de vinho está aberta, tal qual os lábios da moça Gal, solicitando um contato, o gargalo da garrafa são lábios artificiais no qual preciso beijar. Preciso beber algo rapidamente, e ouvir canções  que vão de Babau do Pandeiro a Thelonius Monk, de Raimundo Soldado a Dizzy Gillespie.     

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Crônica - O Lupanar - 7 de Agosto 2014

O  Lupanar –
Era uma lupanar que ficava no final da rua do comércio,  a rua que outrora era cognominada de “rabo do tatu” e que hoje abriga uns raros casebres cuja a finalidade é nada aceita pela o bom senso monogâmico da sociedade ocidental-cristã.  Dos vários locais de culto à Vênus, um deles se destaca pelo porte senhoril e místico de sua arquitetura, um sobrado no qual funcionava na parte de baixo um comércio de estivas e cereais durante o dia e, findo o expediente  do estabelecimento de merceeiros, iniciava-se a atividade do lupanar no piso superior do prédio. A cafetã dona do lupanar era sócio do merceeiro dos cereais.As seis da noite, religiosamente, as rameiras se apresentavam para prestarem seus serviços aos seus clientes, clientela esta constituída de estivadores do comércio atacadista que ficavam nas cercanias do “cháteau”. Esse comércio luxurioso efervescia até que os pares fossem formados e estes recolhessem em suas alcovas trancadas no mais profundo mistério. Os clientes eram todos casados ou amasiados, mas buscavam naquele “comércio” além do prazer, a necessidade de extravasar a lassidão de  mais um dia de uma faina extenuante, cônscios de estarem cometendo um  adultério reprovável pelas suas rainhas. As meretrizes, queriam apenas garantir o almoço do dia seguinte ou algumas prendas quase insignificantes, essas mulheres  de meia idade que não amavam,  já nem sonham mais em perspectivas além da “rua da lama”.

 O silêncio toma conta da rua do comércio nas altas horas, os clientes dormem um sono profundo ajudado pela lassidão física adicionado ao efeito narcótico do álcool. Uma chuva fina cai antes dos primeiros sinais da aurora, os primeiros proletários começam a aparecer  para mais um dia de trabalho e aqueles que pernoitaram no lupanar começam a se misturar com os demais até que tudo fique normal e a cena faça jus ao nome que batiza a rua: Rua do comércio.     

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Crônica - Missão cumprida - 6 Agosto 2014

Crônia - Missão cumprida


Tarde de ócio, estou diante da tela de um computador em frente a uma folha em branco buscando inspiração para escrever a Crônica para o jornal, ela, a inspiração não vem. Desculpo a tela do computador e vou a janela em busca de encontrar algo útil, a tarefa parece difícil dado os descampado da rua. O sol de entre meio dia e duas da tarde desencoraja os transeuntes do meu logradouro, o céu escampo de nuvens de um verão pleno faz desanimar qualquer um. Entro no meu aposento, a página continua sem nenhuma linha escrita. Tarefa inútil escrever para ninguém ler . A carta que fica num canto de jornal não atrai ninguém, mas para mim garante um reforço nos meus combalidos numerários, o jornal mesmo assim paga a pena dessas meia dúzias de palavras inúteis, minha prole agradece o bem vindo dinheiro. Volto à janela e vejo o carro responsável pela coleta nada seletiva do lixo que religiosamente recolhe o inútil lixo de todas as casas, três ou quatro homens espadaúdos, indiferentes ao mau cheiro do lixo tentam acompanhar o ligeiro ritmo do caminhão. Passado alguns minutos um jovem casal trava uma contenda de caráter passional, após algumas trocas de palavras que tem um tom aumentado a cada instante a jovem moça cai em prantos, ato contínuo, o rapaz acolhe em seus braços e a consola em seu colo, De novo estou diante do computador com sua página em branco, agora estou pressionado para cumprir esta hercúlea missão de por termo a minha crônica, chego a estante, lá jaz um livro que comecei  a ler a duas semanas e ainda tenciono concluir a prazerosa tarefa de lê-lo por completo. Folheio um sem número de páginas  em busca de alguma inspiração mas em vão. Meu telemóvel soa um som estridente, do outro lado da linha o redator do jornal vem cobrando meu texto, peço a ele paciência e prometo enviar um velho faz antes das dezoito horas. Parece que a pressão do chefe deu efeito, pois após alguns minutos a crônica saiu após uma miscelânea de bobagens que catei em minhas crônicas anteriores. Missão cumprida e dada a solidão da minha casa, vejo-me no direito de cultuar Baco abrindo uma garrafa de vinho barato que repousa sobre minha pobre adega. Engraçado tudo isso, após uns goles de vinho divago sobre todas as contradições desta tarde, a solidão da rua, os homens espadaúdos, o casal que se embate e eu que troco cem palavras ou mais para garantir um pouco mais de dinheiro, Novamente o telemóvel toca e não fica difícil adivinhar que é o exigente redator, ato contínuo afirmo  a ele que está tudo certo. Missão cumprida e pressão vai embora pelo menos até amanhã quando serei novamente aporinhado pelo telefone do jornal me exigindo a bendita crônica de cada dia!

domingo, 3 de agosto de 2014

Crônica - É sábado, é de Manhã!

Sábado, meu sono foi cessado cedo, ainda não estamos na sétima hora desse dia e sou impelido a abandonar os lençóis e a alcova. Logo mais estarei no comércio de hortifrutigranjeiros em busca de víveres para meu sustento, no mercado de paredes encardidas pululam um sem número de consumidores carnívoros como eu, em busca do mesmo objetivo. Daqui a pouco em casa junto a dois de meus irmãos, cumpro excepcionalmente nesta manhã o compromisso semanal de discutir de que forma faremos nosso jogo da loteria esportiva, discussão após outra entramos em consenso e começamos ilusoriamente a sonhar com a difícil probabilidade desse cruel jogo, mesmo sendo o futebol um esporte “meio lógico” – Mas nesse meio tempo a contenda  é interrompida por duas vezes pelas visitas inesperadas do chefe político que me explica o imbróglio causado por acordos feitos a calada da noite, o intrincado jogo da política fez a reunião surpresa demorar mais do que o esperado, voltamos para embate sobre jogo e entre uma discordância e outra, um dos meus manos resolve abrir uma gélida cerveja pousada no fundo do congelador. Nova pausa inesperada do nosso parlatório, é o pai de minha esposa que nos fazer uma visita de última hora se queixando de problemas de saúde inexistentes, nervosismo julgo que seja, nada que um bom tranquilizante não resolva. Passada essa cena, voltamos para a conclusão do jogo. Depois de acertados todos os ponteiros e entramos num tácito acordo,  vem a ilusão da crença de um absurdo da sorte, os irmão vão embora para outros afazeres, o relógio avança e já se aproxima a hora exata de ir para o trabalho, apesar de se um sábado, à tarde preciso marcar presença no  trabalho para garantir o leite dos pequenos. Apreço-me para chegar na hora certa ao trabalho, o sol à pino do início da tarde é impiedoso. Preciso ir antes que esta crônica termine e  seja atropelado pelo tempo!

sábado, 26 de julho de 2014

Radaun Nasser - Aí pelas três da tarde - CONTO

Passei a conhecer esse escritor que é meio "underground" da Literatura brasileira. Compartilho esse excelente conto " Aí pelas Três da Tarde - 

"Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome em seguida no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances.  Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo."

Texto extraído do livro "
Menina a caminho", Companhia das Letras - São Paulo, 1997. pág.71.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Literatura Cearense - Milton Dias - Tarde na Minha praça

Sempre gostei de Literatura ( Literatura com "L" maiúsculo!) notadamente a literatura regional , gostando mais ainda da Literatura cearense, que é riquíssima e não fica devendo nada a Literatura universal.! Infelizmente o mercado editorial não tenha sido tão generoso com nossos escribas. Eis aqui um dos excelentes contos dessa leva de escritores alencarinos, Milton Dias transcreve todo seu lirismo na linhas de TARDE NA MINHA PRAÇA - extraído do livro  FORTALEZA E EU  do ano de 1976 - 


Tarde na minha praça - Milton Dias


Agora eu digo como o velho Cardeal Gonzaga: “tão simples tudo”. E tudo tão bom, tão calmo, tão bonito, tão puro como a benção de Deus Nosso Senhor. São duas horas da tarde duma quarta-feira e um sol radioso ilumina a minha praça, um vento vadio que nasce no mar vem cochichar nos cabelos da moça de vermelho que passa displicente aqui na calçada. Um céu de claro azul, igual, nos cobre agora, sem uma nuvem. Não, minto: ponho a cabeça na janela, alongo o olhar, vejo que por detrás da Escola Normal elas se juntam brancas, paradas como nuvens de papelão. Certamente dentro de algum tempo, comboiadas pelo vento, desfilarão aqui em cima da minha casa.
Quem vê, diz que o sol saiu deitando cor na terra, foi ele quem fez o verde mais verde, o amarelo pálido do telhado defronte está quase abóbora, a grama ganhou brilho, até o capim ralo, a vassourinha verde que nasce e cresce por conta própria, parece mais alegre. Aquele verde desbotado pegou vida. Flores não há, infelizmente. Onde estão as flores desta cidade? Houve tempo em que as havia nos jardins públicos. Se há os que não amam as flores, deve haver os que gostam e cuidam delas. Por que a Prefeitura não cria uma guarda municipal para se ocupar dos canteiros que mandaria plantar? As pacaviras exigem tão pouco, as boa-noites não exigem nada. Até as papoulas são modestas, pedem mínimo.
Tão simples tudo. Um homem dorme tranquilamente, aproveitando a sombra do caminhão, dorme debaixo, é talvez o ajudante que guarda o carro e aproveita a sua proteção, dorme numa atitude de sossego absoluto, tão sem problema, nesta hora em que banqueiros se preocupam com cifras, agiotas ambiciosos protestam letras e industriais discutem a produção das suas fábricas e autoridades se inquietam com o que lhes foi confiado para governar.
Enquanto aquele homem de camisa verde repousa no chão sua pobreza tranquila, na bolsa de valores esperanças crescem e morrem; por toda parte, investidores contam dinheiro, vendedores vendem ações, há cobradores que vão de porta em porta ao sol de junho. Uma criança está nascendo, um homem está morrendo, um automóvel come o asfalto a toda velocidade, o mundo inteiro está rolando, correndo, lutando, sofrendo, amando, odiando.
Nesta mesma hora, alguém parte, alguém chega, há um preso que aguarda julgamento, um outro que espera o inquérito, um homem que mata por ciúme, uma mulher que morre por amor, uma criança desidratada espera a morte ou a salvação, um mendigo pede a sua esmola, alguém está sendo ofendido, alguém está sendo louvado, um que manda, um que obedece, um que protesta, um que perde, um que ganha.
Debaixo da minha janela um grupo ruidoso de meninos joga uma pelada violenta – são não sei quantas vocações de Pelé, que disputam a pelota. São os mesmos que me tomaram a sesta e, não faz muito tempo, fizeram gol dentro da minha casa, a bola atravessou as traves da janela, foi bater no segundo quarto. Por um triz não acertou na minha cabeça indefesa.
Tão simples tudo. Já houve outras tardes assim, há muitos anos e eu não podia desfrutar, preso numa sala de repartição, sofrendo o calor da parede de granito, do lado do sol, escrevendo um livros imensos, ou redigindo ofícios e relatórios, às voltas com o insuportável linguagem burocrática. Já houve outras tardes assim, eu sei, noutros lugares, em muitas idades, tardes de fins d”água, tardes da minha infância sertaneja, tardes de adolescência sonhadora, tardes da juventude, inquieta, em meio à alegre espera dos festejos dos santos de junho, tardes de ontem, tardes de outrora. Ah, quantas tardes perdidas.
Não é hora de cismar, eu sei. Mas esta tarde me devolve compulsoriamente a lugares em que vivi, às tardes que não se abriram para os meus olhos como esta de hoje, porque a bruma as envolvia. Penso na viagem que não fiz, na mulher que não me quis, no filho que não foi gerado, no verso que não compus, na canção grata, na amiga morta, no amigo morto, no outro tresmalhado. Penso no amor sem começo e sem fim, na paixão que o tempo comeu e que a distancia apagou. Penso no meu cavalo de sela, pequeno, pardo, dos tempos de menino, que um dia venderam e me deram em troca um cavalo branco, malhado, grande, um horror de cavalo, desobediente, de estrada dura e galope traiçoeiro. Comércio de cigano.
São duas horas da tarde, eu disse. E a nota lírica do momento na minha praça é aquele de namorados sentado num banco, à sombra do oitizeiro, numa atitude gostosa, tão bela, tão jovem, a eterna, universal atitude dos que se amam, os olhos nos olhos, a mão do moço acariciando os cabelos pretos da menina morena. Em torno deles, o mundo não existe, nem o sol, nem o céu, nem as pessoas que passam, nem as crianças que brincam, nem o homem que dorme, nem os carros que correm, nem as dívidas, nem as dores. Há uma ternura imensa naquele beijo que daqui eu surpreendi, há uma jura de amor, de esperança, de coragem, um toque de eternidade, naquele beijo que eu vejo e nem ouço. Há uma beleza que ninguém saberá contar em verso ou em prosa, neste quadro que a minha janela emoldura – e dentro dele o amor no banco da avenida, à sombra do oitizeiro. E a paz e o sono à sombra do caminhão. A tarde tranquila parece eterna.

Fortaleza e eu – 1976

terça-feira, 11 de março de 2014

Literatura Cearense - Fran Martins -

Belo conto extraído do livro - Noite Feliz, do excelente escritor cearense, Fran Martins

ALMIR
Um dia destes eu ia andando pelas ruas quando, ao dobrar a esquina, senti alguém segurar-me pelo braço:
– Não me conhece mais não? Não se lembra de mim? Eu sou o Almir – se lembra? Almir, aquele da Pedra Lavrada...
Lembrei-me, sim, de Almir – e imediatamente olhei para a sua mão esquerda. Sim, era ele mesmo, lá estava a mão esquerda sem o dedo mínimo, a mão que servia de atestado que ele fora, nos bons tempos, um dos meus maiores amigos – ele e mais o Clóvis, o Carrinho, o Janjoca, o Pedro, o Felinto. Éramos todos moradores da Pedra Lavrada, uma das ruas mais importantes do mundo, situada já quase nos subúrbios da importante cidade do Crato. E juntos dominávamos a rua, fazendo mil diabruras, metendo-nos em aventuras incríveis, com essa sobranceria de verdadeiros senhores que desafiam céus e terra não tanto para glória individual como para maior renome do seu reino.
Quantos anos tínhamos então? Procuro em vão lembrar-me mas não sei. Meninos acostumados a gozar a liberdade admirável daquela rua de subúrbio, o que mais nos valia era a altura de cada um – e eu era um dos mais baixos, portanto dos menos temíveis. Almir, pelo contrário, era alto e forte, quase sempre nos comandava, tinha disposição para brigas, nadava bem. Saberia ler? Mas de que servia saber ler naquela época, se a nossa única preocupação era tomar banhos nas enchentes do rio, dar cangapés nos meninos das outras ruas, enfrentar, dominar o rio, mesmo quando as águas estivessem mais fortes, mesmo quando redemoinhos perigosos ameaçassem nos tragar?
Foi num desses banhos que Almir provou a sua coragem e cresceu mais ainda na nossa admiração. Todas as vezes que o rio enchia, a rua se alvoroçava, a nossa turma perdia o juízo. E projetava-se imediatamente um banho longo, de duas horas, com mergulhos e saltos na água barrenta que passava pelos fundos de nossas casas, derrubando árvores e comendo as ribanceiras.
Uma noite chovera bastante, com trovões e relâmpagos que nos acordaram. A água forte corria pelas biqueiras das casas e respingos caíam sobre nossas redes. Cada um de nós, enrolado nos lençóis, sonhava com o amanhecer, o raiar do dia que seria cheio de aventuras, como eram todos aqueles em que o rio tomava água.
Mal amanheceu, nosso grupo se movimentou. Almir chamou-nos um a um – e acorremos ao seu chamado com entusiasmo e alegria. Foi então que Tia Aninha apareceu e, como sempre, gritou da porta da casa:
– Felinto, Felinto! Não vá tomar banho no rio, Felinto!
Mas Felinto, como sempre, não a ouvia – Felinto nunca ligava àquela velhinha que tinha tantos cuidados com ele. Escondeu-se atrás de Almir e esperou até que sua mãe entrasse em casa. Eu ainda murmurei, como se adivinhasse que alguma coisa triste ia acontecer:
– É melhor você não ir, Felinto. Tia Aninha se zanga é comigo.
Porque Tia Aninha confiava em mim e todas as vezes que não sabia do paradeiro do filho era para mim que apelava:
– Você viu o Felinto, Fernando? Tome conta de Felinto, meu filho. Não deixe ele brigar, não deixe tomar banho no rio. Tenha cuidado com Felinto, Fernando.
E eu quase sempre mentia, defendendo meu amigo, encobrindo suas faltas. Seria que Tia Aninha desconfiava? Ela acreditava em mim – mas julgo que, mesmo assim, ainda guardava certos receios de que eu a estivesse enganando. Mas eu era amigo de Felinto e gostava de sua companhia – por isso mentia, escondia suas faltas, muitas vezes dizia à Tia Aninha que me responsabilizava pelo que acontecesse ao Felinto, sem saber, por certo, a gravidade dessa promessa.
E naquele dia fomos ao rio, que estava com as águas pelas barreiras. Em ocasiões como aquela o rio era perigoso – havia redemoinhos nas curvas, havia poços cavados pelas águas e que poderiam tragar qualquer um de nós. Mas para defender-nos contávamos com a nossa ousadia, com a valentia de Almir, com os nossos anjos da guarda – principalmente os anjos da guarda, que jamais abandonam as crianças.
Fomos ao rio, mergulhamos, brincamos. E Almir dava cangapés, Felinto se afoitava, sem atender às recomendações que, vez por outra, timidamente, eu me arriscava fazer-lhe.
Porque uma coisa me dizia que alguma desgraça estava para acontecer a Felinto. A voz de Tia Aninha não me saía dos ouvidos, triste, angustiada, nervosa:
– Cadê o Felinto, onde anda o Felinto, Fernando? Meu Deus, que fim levou esse menino, que não aparece, não vem para casa?
Felizmente Almir nos inspirava confiança, era corajoso, disposto, um dos maiores nadadores da Pedra Lavrada. Quantas vezes, no Poço das Mulheres ou na Batateira, Almir conseguira desbancar os mais velozes nadadores do Crato! Mergulhava e tinha fôlego, nadava de costas, de peito, de braço. E sempre estava decidido a se arriscar por um amigo, mais de uma vez deu provas disso, em acontecimentos que ficaram memoráveis na rua. Por isso eu ainda procurava abafar aquela voz que não me saía da cabeça, a voz da Tia Aninha, angustiada, nervosa, triste.
Foi passado muito tempo, já quase quando nos dispúnhamos a abandonar o rio, que ouvimos aquele grito surdo. Imediatamente todos ficamos tomados de pavor e olhamos alarmados para o lugar de onde partira o brado. Então vimos Felinto aparecer à flor das águas, submergir, depois reaparecer, balançando doidamente a cabeça, agitando as mãos nervosamente e de novo, aos poucos, o seu corpo baixando, as águas tragando a cabeça, os braços, as mãos que nos acenavam, os dedos...
Almir atirou-se na água imediatamente, nadando com rapidez para o lugar onde estivera Felinto. Lá chegando, mergulhou, mergulhou, mergulhou. Cada vez que retornava, uma centelha de esperança faiscava nos nossos olhos, para logo se desfazer e nos deixar numa angústia martirizante. Porque o corpo de Felinto não aparecia.
Quanto tempo durou aquela luta? É impossível avaliar hoje. Almir nos parecia um gigante e o seu rosto tinha feições diferentes. Não, ele não podia deixar que Felinto morresse, ele era forte, disposto, havia de salvar nosso amigo. Foi justamente quando mergulhou pela última vez, passando um tempo enorme debaixo d’água.
Nossos corações batiam fortemente, nossas pernas tremiam, tínhamos, com certeza, os olhos esbugalhados de medo, de terror. Aquele mergulho nos parecia a última esperança, o último esforço para salvar nosso amigo. Os olhos aterrados de todos estavam volvidos para o lugar onde Almir havia mergulhado – e sei que todos nós estávamos também apelando para os santos, para Deus, para os nossos anjos da guarda no sentido de salvarem o nosso amigo. Que diria Tia Aninha quando voltássemos e tivéssemos de contar-lhe que Felinto ficara, morrera?
A cabeça de Almir finalmente surgiu – e vimo-lo, num esforço desesperado, nadando para a terra, o braço passado no pescoço de Felinto. Uma assombrosa angústia saiu de cima de nós – e já estávamos todos chorando, nós que nunca chorávamos em uma briga com as outras ruas. Temíamos que os dois tivessem se finado, que os espíritos maus que residem nos rios houvessem tragado os nossos amigos. Não, os anjos da guarda não os desprezaram – lá vinham Almir e Felinto, já estavam perto da areia.
Foi então que notamos o estado do dedo de Almir. Ele nos disse, de maneira confusa, como encontrara Felinto debaixo d’água – enganchado em um toco, certamente sem sentidos. Por isso teve aquele trabalho enorme para tirá-lo. Porque, quando foi puxá-lo com mais força...
Olhamos o dedo do menino: todo rasgado, os ossos aparecendo. O dedo enganchara no toco, parece que uma pedra caiu também por cima. Os pedaços da pele estavam dependurados e, vendo aquilo, quase esquecíamos Felinto, que ainda permanecia sem sentidos. Pedro deu uma vertigem justamente quando Janjoca virava Felinto para vomitar a água bebida.
Almir foi levado para casa, apareceu um homem dizendo que era preciso cortar o dedo. Eu fiquei ao lado de Felinto, pensando no sacrifício que o outro fizera para salvá-lo. Iria ficar sem um dedo, como prova de sua amizade ao companheiro. Sem um dedo pelo resto dos tempos – mas salvara a vida de Felinto, salvara, quem sabe, até a vida de Tia Aninha.
Depois de muito tempo Felinto voltou a si. Já era sol alto quando afinal nos dirigimos para casa. Então, ao passar pela rua, a voz de Tia Aninha soou aos meus ouvidos:
– Onde anda Felinto, Fernando? Cadê esse menino, cadê meu filho, Fernando?
E eu menti mais uma vez – a última vez posso assegurar. Disse à Tia Aninha que não vira seu filho – sem dúvida andava pelas outras ruas, pois não fora tomar banho conosco. E depois saí chorando para casa – como estaria o Almir, que iria acontecer ao dedo de Almir? E a voz de Tia Aninha não me saía da cabeça:
– Cadê meu filho, cadê Felinto, Fernando?
Agora Almir está a meu lado, sorri alegre, contente porque me lembrei dele. Olho de vez em quando para a sua mão esquerda – como eu poderia jamais esquecê-lo, se já naquele tempo Almir era um grande homem? Abraço-o com satisfação, bato-lhe no ombro, tento recordar algumas passagens de nossa vida de meninos na mais importante rua do mundo, naquela importantíssima cidade do Crato. Mas enquanto Almir responde às minhas perguntas e me conta como tem levado a vida no decorrer desses anos – é a voz de Tia Aninha que eu ouço, angustiada, nervosa, triste:
– Cadê meu filho, cadê Felinto, Fernando? Onde anda esse menino, que fim levou meu filho, Fernando?

(Extraído de Noite Feliz, 2ª ed. Fortaleza, CE, edição UFC/Casa de José de Alencar, 1999)