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quarta-feira, 30 de abril de 2014

Literatura Cearense - Milton Dias - Tarde na Minha praça

Sempre gostei de Literatura ( Literatura com "L" maiúsculo!) notadamente a literatura regional , gostando mais ainda da Literatura cearense, que é riquíssima e não fica devendo nada a Literatura universal.! Infelizmente o mercado editorial não tenha sido tão generoso com nossos escribas. Eis aqui um dos excelentes contos dessa leva de escritores alencarinos, Milton Dias transcreve todo seu lirismo na linhas de TARDE NA MINHA PRAÇA - extraído do livro  FORTALEZA E EU  do ano de 1976 - 


Tarde na minha praça - Milton Dias


Agora eu digo como o velho Cardeal Gonzaga: “tão simples tudo”. E tudo tão bom, tão calmo, tão bonito, tão puro como a benção de Deus Nosso Senhor. São duas horas da tarde duma quarta-feira e um sol radioso ilumina a minha praça, um vento vadio que nasce no mar vem cochichar nos cabelos da moça de vermelho que passa displicente aqui na calçada. Um céu de claro azul, igual, nos cobre agora, sem uma nuvem. Não, minto: ponho a cabeça na janela, alongo o olhar, vejo que por detrás da Escola Normal elas se juntam brancas, paradas como nuvens de papelão. Certamente dentro de algum tempo, comboiadas pelo vento, desfilarão aqui em cima da minha casa.
Quem vê, diz que o sol saiu deitando cor na terra, foi ele quem fez o verde mais verde, o amarelo pálido do telhado defronte está quase abóbora, a grama ganhou brilho, até o capim ralo, a vassourinha verde que nasce e cresce por conta própria, parece mais alegre. Aquele verde desbotado pegou vida. Flores não há, infelizmente. Onde estão as flores desta cidade? Houve tempo em que as havia nos jardins públicos. Se há os que não amam as flores, deve haver os que gostam e cuidam delas. Por que a Prefeitura não cria uma guarda municipal para se ocupar dos canteiros que mandaria plantar? As pacaviras exigem tão pouco, as boa-noites não exigem nada. Até as papoulas são modestas, pedem mínimo.
Tão simples tudo. Um homem dorme tranquilamente, aproveitando a sombra do caminhão, dorme debaixo, é talvez o ajudante que guarda o carro e aproveita a sua proteção, dorme numa atitude de sossego absoluto, tão sem problema, nesta hora em que banqueiros se preocupam com cifras, agiotas ambiciosos protestam letras e industriais discutem a produção das suas fábricas e autoridades se inquietam com o que lhes foi confiado para governar.
Enquanto aquele homem de camisa verde repousa no chão sua pobreza tranquila, na bolsa de valores esperanças crescem e morrem; por toda parte, investidores contam dinheiro, vendedores vendem ações, há cobradores que vão de porta em porta ao sol de junho. Uma criança está nascendo, um homem está morrendo, um automóvel come o asfalto a toda velocidade, o mundo inteiro está rolando, correndo, lutando, sofrendo, amando, odiando.
Nesta mesma hora, alguém parte, alguém chega, há um preso que aguarda julgamento, um outro que espera o inquérito, um homem que mata por ciúme, uma mulher que morre por amor, uma criança desidratada espera a morte ou a salvação, um mendigo pede a sua esmola, alguém está sendo ofendido, alguém está sendo louvado, um que manda, um que obedece, um que protesta, um que perde, um que ganha.
Debaixo da minha janela um grupo ruidoso de meninos joga uma pelada violenta – são não sei quantas vocações de Pelé, que disputam a pelota. São os mesmos que me tomaram a sesta e, não faz muito tempo, fizeram gol dentro da minha casa, a bola atravessou as traves da janela, foi bater no segundo quarto. Por um triz não acertou na minha cabeça indefesa.
Tão simples tudo. Já houve outras tardes assim, há muitos anos e eu não podia desfrutar, preso numa sala de repartição, sofrendo o calor da parede de granito, do lado do sol, escrevendo um livros imensos, ou redigindo ofícios e relatórios, às voltas com o insuportável linguagem burocrática. Já houve outras tardes assim, eu sei, noutros lugares, em muitas idades, tardes de fins d”água, tardes da minha infância sertaneja, tardes de adolescência sonhadora, tardes da juventude, inquieta, em meio à alegre espera dos festejos dos santos de junho, tardes de ontem, tardes de outrora. Ah, quantas tardes perdidas.
Não é hora de cismar, eu sei. Mas esta tarde me devolve compulsoriamente a lugares em que vivi, às tardes que não se abriram para os meus olhos como esta de hoje, porque a bruma as envolvia. Penso na viagem que não fiz, na mulher que não me quis, no filho que não foi gerado, no verso que não compus, na canção grata, na amiga morta, no amigo morto, no outro tresmalhado. Penso no amor sem começo e sem fim, na paixão que o tempo comeu e que a distancia apagou. Penso no meu cavalo de sela, pequeno, pardo, dos tempos de menino, que um dia venderam e me deram em troca um cavalo branco, malhado, grande, um horror de cavalo, desobediente, de estrada dura e galope traiçoeiro. Comércio de cigano.
São duas horas da tarde, eu disse. E a nota lírica do momento na minha praça é aquele de namorados sentado num banco, à sombra do oitizeiro, numa atitude gostosa, tão bela, tão jovem, a eterna, universal atitude dos que se amam, os olhos nos olhos, a mão do moço acariciando os cabelos pretos da menina morena. Em torno deles, o mundo não existe, nem o sol, nem o céu, nem as pessoas que passam, nem as crianças que brincam, nem o homem que dorme, nem os carros que correm, nem as dívidas, nem as dores. Há uma ternura imensa naquele beijo que daqui eu surpreendi, há uma jura de amor, de esperança, de coragem, um toque de eternidade, naquele beijo que eu vejo e nem ouço. Há uma beleza que ninguém saberá contar em verso ou em prosa, neste quadro que a minha janela emoldura – e dentro dele o amor no banco da avenida, à sombra do oitizeiro. E a paz e o sono à sombra do caminhão. A tarde tranquila parece eterna.

Fortaleza e eu – 1976