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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Crônica- Duas Horas da Tarde no Brasil - 23 de Outubro 2014

                               Duas Horas da Tarde no Brasil
No calor de uma tarde qualquer de Setembro, quando o sol cumpre seu itinerário no horizonte escampo de nuvens, sigo meu caminho em direção a minha faina diária. Ao longo das ruas inóspitas, de quase nenhum transeunte atrevido a expôs  a sua pele ao sol em brasas. A essa hora, não fora a obrigação do trabalho, dificilmente eu me arriscaria sob os rios solares de uma região equatorial onde a incidência do calor do sol é mais intensa. Desvio meu itinerário em direção a casa de minha Matrona, pois é sabido por mim que a essa hora o bule  do café já está no fogo naquele tugúrio suburbano. A minha matrona nem oferece o arábica, vem com uma chávena fumegante, uma dose cavalar desse líquido precioso. Entre uma solvida e outra no café, recebo conselhos prudentemente maternos, escuto o discorrer de sua oratória materna, estou monossilábico agora, quase silente, a receber palavras carinhosas e censuras. Após essa breve pausa, retomo minha trajetória natural de ainda a pouco, só que agora cada vez mais procurando os filetes de sombra tão escassos a essa hora. Nesse caminho cruzo aquele pequeno comércio que se encontra com suas portas cerradas, pois nenhum desavisado cliente está disposto a comprar qualquer coisa dispensável ou não, nessa inútil tarde de calor. Mais a frente, minha retinas são maltratas pela claridade intensa do reflexo da luz solar no muro branco do cemitério, a claridade do muro do campo santo faz meus olhos se contraírem para diminuir  o excesso de luz na retina, mais a frente um burro cansado pasta os poucos cabelos de mato seco que insistem em brotar naquele chão seco. Sigo a rota, mais adiante passo em frente e passo por uma casa de um solitário homem, o cenário é o seguinte: ele cochila à sombra de uma frondosa Mungubeira no pátio da casa, enquanto ali no interior da residência um aparelho de televisão transmite um noticiário com cenas de tragédias urbanas, mesmo assim o solitário homem dorme o sono dos justos.
Seguindo a légua tirana das cenas urbanas, atravesso o largo da Matriz, onde um retardatário fiel faz o sinal da cruz quando se encontra defronte a porta principal da sinagoga. Seu sinal é feito de modo apressado e mecânico. Do outro lado da praça, um sem número de proletário de uma fábrica de tecelagem, estão reunidos após uma pausa imprevista de seus afazeres,  interrupção do fornecimento de eletricidade impossibilitou o prosseguimento do funcionamento das máquinas.
Duas horas da tarde no Brasil, a hora exata em que eu entro em ação. Nesse exato momento os portões da fábrica em que eu trabalho traga uma grande quantidade de trabalhadores que em grosso número palram quase ao mesmo tempo tornando o local uma verdadeira Babel onde ninguém se entende. Duas horas da tarde, preciso entrar em ação, pensar menos, refletir ainda menos sobre a Sociologia daqueles que cruzaram meu itinerário neste começo de tarde.


domingo, 19 de outubro de 2014

Crônica - Um Espírito Além do Meu - 19 de Outubro 2014

Um Espírito além do Meu

Desde o dia em que arrumei uma colocação como redator de uma crônica semanal no jornal sofro um desgaste angustiante para executar minha  e cumprir a periodicidade contratual . Os editores chefes são impiedosos  cobradores, menos pela qualidade, mais pela quantidade e pontualidade. Parece que nesta semana minha máscara cai! Sim explico,  é por que a grande maioria, ou quase todas as minhas crônicas não eram escritas por mim, mas por um tio meu , habilidoso com as letras de Camões e que me entregava de bandeja seus textos e eu sem remorso nenhum assinava como minhas! . Esse meu parente é um ser bastante esquisito. Solteirão convicto, celibatário, ermitão e beberrão, um inveterado! A sua habilidade de escrever vem de longas datas, sempre gostou de Literatura e de escrever, construiu ao longo dos anos uma vasta biblioteca dos maiores escritores universais. Diferente de mim que só possuo duas ou três enciclopédias e outros almanaques!  Mesmo sendo ele uma personalidade difícil de se lidar, eu conseguia arrancar dele meu “material autoral”. Ela fazia um pouco de cena, mas no final cedia em favor do sobrinho! Essa era uma forma de satisfazer seu ego mesmo não recebendo ele os créditos elogiosos( se bem que eles eram tão escassos!). Só que para minha infelicidade, esta semana, o meu guru decidiu fazer uma viagem de cunho religioso para a cidade de  Bobaim, duraria esta jornada uma semana, exatamente o período de entrega dos meus escritos ao jornal, fiquei num mato sem cachorro.
Agora fico na obrigação de escrever de próprio punho sem a ajuda do guru. Saio de casa em busca de um pouco de inspiração, passeio pelas alamedas da cidade observando os transeuntes na intenção de pinçar algo! Nada me anima. Nada me inspira!  Na viela dos Tabajaras encontro um velho amigo que não via a tempo, É o Gilson Borges, um literato descendente de portugueses e contraparente de Camões, segundo informações dele. Gilson estava voltando de uma turnê por terra de Além Mar, passara dois anos na terrinha de seus ascendentes! Falara de Portugal, de como seu país estava diferente, falou também que nesse período esteve a escrever um romance que pretendia publicar em três meses, aqui no Brasil! Conversávamos sobre literatura,  basicamente. Falávamos sobre  os clássicos escritores europeus:Dostoiéviski, Maiakovski, Proust, Anatole France, Emilly Zola, falou de Victor Hugo e Julio Verne, Com bastante propriedade ele citava cada característica desses autores, e eu só citava fatos enciclopédicos sobre eles, fatos desnecessários como o local e data de seus nascimentos. Após esse embate que demorou três quarto de hora, nos despedimos e tomos nossos rumos.
As horas avançaram e o prazo de entrega da minha crônica ao jornal está quase no fim, preciso escrever qualquer coisa , qualquer incoerência, algo até ininteligível ! Sento na frente da máquina de escrever, a folha em branco, a falta de ideias, não sai nada, meu quengo está oco. o relógio continua avançando as horas constantemente. Num maquinismo começo a dedilhar as teclas do QWERT , saem só incongruências, banalidades, períodos sem nexos, inversões de orações subordinas, uma sintaxe vagabunda. Mas de repente, como num passe de mágica tudo mudou para o meu lado, as ideias se acertaram, o texto começou a fluir, meus dedos percorriam  rapidamente todas as letras numa rapidez sincronizada, não sei bem explicar de onde vinha essa inspiração, confesso que parecia que não era eu ali,  a construir tais períodos. Parecia que haviam um espírito além do meu, ditando aquelas palavras do além como uma psicografia sobrenatural enchendo folhas e folhas de bom texto,

Missão cumprida no exato momento que o Graham Bell toca estridentemente na sala de visitas, do outro lado da linha o editor chefe do matutino cobrando a minha dívida textual para com ele. Afirmo que em questão de minutos ela estará no seu correio eletrônico. Tirei um peso enorme que estava sobre minhas costas. Alívio, abro uma garrafa de vinho  em louvar a Baco! 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Crônica - Porta retrato, café amargo e Aritmética - 14 de Outubro 2014

Porta retrato, café amargo e Aritmética

Fim de tarde, a luz natural do astro-rei já começa a dá sinais de morte, a claridade não é mais aquela de ainda a pouco, a escuridão agora vence a batalha contra os parcos reflexos da luz estelar. As horas são tristes,  horas de ocaso são tristes, penso em mortes, morte dos outros , morte minha. Depois de uma tarde inteira na solidão de minhas divagações, tomo a inevitável decisão de abandonar minha condição e eremita e resolvo vagabundear pela urbe. Nada de novo no cenário do meu arrabalde, as mesmas cenas cotidianas que se repetem rotineiramente. Um vendedor de algodões-doce religiosamente executa seu pregão  auxiliado por uma buzina ensurdecedora. Homens espadaúdos retornam de suas fainas em um comboio de bicicletas. O vendedor de bilhetes de loterias ainda tenta vender as últimas cartelas do dia, os últimos sonhos do dia no jogo da roleta dos bichos! E assim seguem as cenas urbanas da periferia local nesse momento de  quase noite.
Enquanto estou na esquina da igreja Matriz conversando com amigos, recebo um chamamento  daquela velha amiga de nossa família,uma pessoa que a muito não via.Mesmo distante dá pra entender que sua convocatória não tomará muito tempo meu. A senhora em questão solicita que eu lhe tire umas dúvidas a respeito de umas contas que ela tem com uns mascates, ela não é muito habilidosa em aritmética ( eu também não muito, mas um pouco mais afeito a números do que ela!)  e teme que os mascates queiram passá-la pra trás na prestação de contas! Ela puxa duas cadeiras e me convida pra sentar, começo a rabiscar algumas cifras após a explanação contábil da senhora. Os rabiscos são feitos numa caderneta modesta e de folhas amareladas pelo tempo!  Entre um balancete e outro, a senhora oferece café que prontamente aceito por mim. É um café forte e amargo, que para mim é de bom grado! Entre uma pausa e outra da contabilidade, por acaso miro um porta retratos onde está exposto a fotografia  da filha da senhora das contas, várias lembranças vieram ao pensamento. Lembranças boas, lembranças frustradas, desilusões. Aquele retrato foi suficiente para requentar memórias boas e ruins, por um instante me desconcertei diante aquela imagem e fiz um esforço tremendo para não exteriorizar nenhum sinal de abalo ante a mãe da moça.
A contabilidade já estava quase no fim, ainda bem, pois se não fosse assim minha condição de aritmético-contabilista teria sofrido um abalo suficiente para fechar o balancete. Um simples porta retratos causou toda esse desordenamento emocional.

Volto ao lar, tão eremitério  quanto eu o deixei a duas horas atrás. Estou de novo só, divagado, agora muito mais angustiado pelo café amargo, a aritmética e o moça do porta retratos. Principalmente pela foto dele!

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Crônica - É Outubro - 2 de Outubro 2014

Chegou outubro, talvez um mês como qualquer outro para maioria dos que se utilizam do calendário cristão, mas para mim não! No primeiro dia do mês, uma atípica garoa no início da tarde muda a paisagem seca dos últimos dias. Antes do término da primeira hora da tarde a rápida chuva surpreende os transeuntes que a essas horas, costumeiramente  cruzam o chão da praça do centro comercial da cidade! Estou eu nas cercanias da praça como um carapina do nada a fazer, observando os passantes que vagabundeiam pelo comércio local. Mas a frente á esquerda descendo a ladeira fica o bar do Ratisbona, um misto de bar e lupanar, ali fica a tradicional zona do meretrício local, os clientes a essa hora são poucos. Nesse observar inútil da paisagem urbanística, mudo a vista em direção diametralmente oposta ao bar do Rabisbona e vejo a loja de eletro-eletrônicos, lembro que necessito de alguma peça inútil para o meu computador de mesa, negligencio o preço da peça ofertado pelo vendedor e após essa contenda comercial consigo junto a ele minorar em alguns centavos o preço da peça em questão.
As horas passam, ocupo solitariamente um banco da praça, fumo desbragadamente um cigarro após o outro mesmo estando minha garganta em petição de miséria, atitude bastante irresponsável para quem vai precisar da voz no dia seguinte como um instrumento de trabalho. O amontoado de guimbas ao redor do banco de minha estadia denuncia o quanto da minha inútil atitude tabagista. Uma nuvem de pombos voa de modo desordenado no perímetro da praça, um sem número de aves alvinegras fazem a festa sem se oportunar com os personagens que vão e vem por ali. As aves sobrevoam o local num arrulhar monótono e sem nexo.
Veio em mim a ideia de ir naquela loja de secos e molhados só para olhar a vendedora com seu charme de mulher que incita minha libido com seu charme. Infelizmente a jovem mulher já foi abençoada pelo Himeneu, um acessório de bijuteria barata em forma de círculo no dedo anular da mão esquerda, denuncia tal fato e a monogamia ocidental não permite maiores avanços e pretensões do meu intento quase hormonal, quase bestial .

As horas avançam, o sol já vai a meio caminho, tenho agenda marcada para logo mais as dezessete horas no solar de meus pais, é o tradicional chá das cinco que religiosamente as quartas-feiras de todas as semanas se realiza. Tenho que ir, o dever me espera no meu lar, além do chá, espera por mim, um livro para prazerosa leitura, ainda nas páginas iniciais, é bem verdade. Minha mãe me espera, ela espera que eu permaneça celibatário não sei até quando,espera que permaneça eternamente tutelado por seus afetos, enquanto isso penso na moça da loja de secos e molhados, penso na condição monogâmica e racional de nossa cultura, questiono tal fato e consigo me irritar com todos esses fatos injustos.