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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Carlos Drummond de Andrade - Tempo - 31 de Dezembro 2015

“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. 


Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente.

Para você, desejo o sonho realizado. O amor esperado. 
A esperança renovada. 


Para você, desejo todas as cores desta vida. Todas as alegrias que puder sorrir, todas as músicas que puder emocionar. 


Para você neste novo ano, desejo que os amigos sejam mais cúmplices, que sua família esteja mais unida, que sua vida seja mais bem vivida.
Gostaria de lhe desejar tantas coisas. Mas nada seria suficiente para repassar o que realmente desejo a você. Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos. Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto, rumo à sua felicidade!” 
 


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Hoje é Natal - 24 de Dezembro 2015

Hoje é Natal, uma data que a muito tem seu personagem principal, por razões meramente capitais,  como um mero coadjuvante de sua festa. Muita gente nesta data é extremamente feliz, muitos trazem recordações boas, dos doces anos, dos verdes anos da vida. Recordações extraordinárias e o nascimento de Jesus coincide com o melhor momento da biografia de cada um, outros tem no dia de hoje o seu momento de tristeza, os hospitais estão funcionando exatamente agora, como vão funcionar amanhã, em pleno natal, muitos terminarão a vida exatamente nesta data, muitos serão acidentados, os acontecimentos tristes e até torpes, assaltarão muitos lares  exatamente no natal.  E ficará sempre aquela amargura: quando chegar o natal a pessoa vai se lembrar daquele dia triste que lamentavelmente coincidiu com uma data, eleita pelos homens, para que Jesus nasça a cada ano em nossa consciência e nossa sensibilidade. Todos nós temos muito que recordar sobre o Natal, nem vou falar das minhas recordações, porque elas foram alegres , foram tristes, comuns a cada biografia com  suas nuance, sua característica. O dia de hoje sempre será excepcional porque Jesus vai nascer ( e está sempre nascendo a cada ano), de qualquer modo ele vai nascer. Não importa se é um dia comercial, se o comercio aproveita para determinadas promoções, para aumentar as vendas, para compensar dias ruins que aconteceram por força da crise econômica, nem importa isso. O que importa é podermos refletir, examinar, pesar, contar, rezar, rezar no dia de natal, é muito importante refletir: Quem terá sido Jesus? Jesus erguendo Lázaro, erguendo aquela criança que parecia dormir para sempre, e que despertou com uma fome forte, uma necessidade imensa de se alimentar. Jesus fazendo o cego ver, mas o principal de Jesus não é nenhum milagre específico, é o milagre de sempre conquistar a coletividade das almas dos homens, conduzindo o ser humano para novos horizontes, para outras perspectivas, redefinindo os sentimentos humanos, dando uma nova dimensão ao amor. Eis que os poetas tentaram definir o amor. Camões fez um soneto belíssimo sobre  a chama que arde inevitavelmente. Quantos falaram do amor antes dele e  Depois dele! Mas o que se aprende de Jesus é um amor mais amplo,é um amor por todos, é um amor coletivo, materno e paterno ao mesmo tempo,é uma responsabilidade em sermos fraternos , a responsabilidade em termos afinal de contas, uma condição espiritual enquanto somos humanos.
 É assim Jesus, e portanto que este natal renove todo seu mistério, que todos queiram desvendar este mistério. Quem era mesmo o filho de Maria? Que história realmente ele cumpria? Qual era o roteiro reservado por Deus a este  homem? Como ele era? Que veio mesmo fazer? Fez ou não fez?Até onde iria seu estado humano? Até onde o seu lado espiritual?  Natal é acima de tudo reflexão. Natal é investigação. O momento  em que nós devemos ter profundidade para sabermos quem era Jesus. Ele está perdido dentro da história e dentro do nosso íntimo, devemos encontrá-lo. Nós vamos encontrar Jesus, nós vamos reconstituí-lo para que ele fale através de cada um de nós. Quem era Jesus?  Que Jesus era este? Que importa a condição social que ele veio?!  O que importa que o natal seja uma data comercial?  Não existem datas comerciais em nossa alma, no nosso íntimo, na nossa fé, não há datas comercias. Há datas especialíssimas, como é este Natal!!


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Crônica - Antes de P e B - 29 de Julho 2015

                                  Crônica - Antes de P e B - 29 de Julho 2015



Costumeiramente recebemos visitas nas manhãs de segunda a sábado ou de segunda a segunda , o ponteiro do relógio marca dez horas  perfazendo no arco menor um ângulo de setenta e dois graus.Até o momento, não recebemos nenhuma dessas previsíveis visitas. No vazio da sala onde leio  um livro de contos de um escritor local, ponho a brochura  de lado momentaneamente para outros afazeres inúteis. Abro o “livro de notas” e vou verificar meu correio eletrônico esperando alguma mensagem significativa. Em meio a um sem número de mensagens insignificantes de correntes espirituais e outras menos votadas, me deparo com uma no mínimo burlesca - Uma oferta, uma pechincha, na linguagem do vendedor da mensagem, apartamentos  novos que estão sendo construídos ( ou já estão prontos, não lembro bem!) . No reclame, o vendilhão aponta um preço cujo valor representa a soma de uma vida inteira de numerários do meu modesto sal, ora, logo eu um simplório amanuense que não consegue nem quitar algumas letras de baixo valor vencidas a tempos ! Brincadeira tem hora!
Eis que chega o primeiro visitante ao receptivo tugúrio, trata-se de uma diarista que mora do outro lado da urbe, chega com a tez tostada do tórrido sol do meio da manhã, sem disfarces ela afirma ter vindo de um “centro espírita” que fica por trás do mercado público. Ela troca vários diálogos ininteligíveis com a empregada da casa vizinha que a essa hora aproveita os momentos de ócio da faina do lar de nossa vizinha solteirona. Depois de uma hora após a primeira visita, passaram um sem número de pessoas pousar a sombra do alpendre  de nossa choupana. Um vendedor de vassouras que gritava seu pregão a plenos pulmões, o vendedor de bilhetes de loterias, a anã que mora no fim da rua deu o ar de sua graça por estas paragens com suas estórias repetidas de sempre, ainda um gari gazeando a hora de trabalho dá os bons dias aos que aqui estão. Dentre estes  personagens vários, aparece uma senhora que costumeiramente passava por ali, já anda por seus setenta e poucos anos,  celibatária convicta,  a saudosista mulher contava causos do seu tempo de aluna interna no grupo escolar de sua cidade, citava ela  namoricos, artes juvenis do seu tempo, e comparava com os da geração atual. Outra matrona, pegando o gancho na prosa da outra, lembrava de situações cognitivas, falava ela de regras ortográficas, lembrando ter aprendido que antes das letras pê e bê se deve usar única e exclusivamente a letra ême.
As horas correm, o sol está a pino, os ponteiros do relógio estão próximos de se juntarem a formar a hora grande. Nesta  rua solitária só alguns redemoinhos de vento mudam a paisagem erma da rua de pedra tosca. Volto ao livro que lia até bem pouco tempo e sou interrompido um instante por minha mãe que convoca toda prole para o repasto  sagrado do dia a dia. É hora do almoço.


quinta-feira, 23 de julho de 2015

Crônica - Uma Oferta Irrecusável - 23 de Julho 2015

Crônica - Uma Oferta Irrecusável - 23 de Julho 2015
 Hoje é quarta-feira e eu lembro de um amigo antigo que dizia ser este o dia do equilíbrio, o dia que dividia a semana entre um fim de semana e outro. Estou a cumprir minha eterna sina de nada a fazer,  um carapina do nada a fazer. A casa vazia, a solidão, o silêncio que só é quebrado de vez em quando pela valsa dos fantasmas escondidos nas sombras do meu tugúrio, essa valsa até não me assusta mais, só na minha longínqua infância quando eu não conhecia esse estilo musical dos que tentam se comunicar ininteligivelmente . Estou a conferir o correio eletrônico e logo sou surpreendido por uma mensagem anunciando uma oferta irrecusável! Numa propaganda bem apelativa o reclame oferece um apartamento cujo preço soma uma valor totalmente aquém de meus combalidos numerários de simples amanuense! A dinheirama equivalia um valor que representava a soma de vários soldos, sais de uma vida inteira.Um sem número de zeros.
 O tempo passa, vou de música No “dial” do meu Marconi uma canção dançante do Morcheeba , uma banda que mistura soul, funk com elementos evoluídos da eletrônica musical.Enquanto a música toca vejo minha adega que mais se parece com altar de Baco, mas eu fui expulso de sua seita e não mais comungo com suas práticas, melhor assim , uma vez que meu combalido fígado não suportaria tanta devoção a Ele o deus Baco. Lá fora há um pregão de um mascate que vende várias bugigangas e objetos inservíveis,  tudo a preços módicos, quase em seguida um bravateiro vendedor de bilhete de loterias grita a plenos pulmões a sorte dos desafortunados num discurso ilusório e apelativo. O estafeta de uma multinacional vem quase no encalço do bilheteiro, suando em bicas ensopa de suor a camiseta amarela e a calça azul celeste, e a tira colo, um calhamaço de papeis desnecessários, com a mão em pala tenta identificar o numeral da correspondência para que nada saia errado.  Inquiro do núncio pela minha encomenda que eu espero a mais de trinta dias, prontamente o postilhão afirma que meu inventário não constava daquela chusmas de missivas e outros papeis.
 Agora o sol vai a meio caminho em busca do ocidente, o tempo passa, as cenas citadinas passam na minha janela e continuo procurando sentido para o alcunhada dado ao meu colega para este dia da semana. Procuro um equilíbrio impossível na minha confusa cabeça suburbana.

domingo, 31 de maio de 2015

Crônica - Linha do Equador - 31 de Maio 2015

Como o calendário passa rápido! Olho para a folhinha que marca datas e vejo que já vamos bem longe neste ano. Cinco doze avos dele já se foram, ( embora esta fração de números primos entre si dêem uma vaga idéia de proporção percentual ) logo mais será meia noite e a folha vira. Incrível como ainda ontem sentia o cheiro de pólvora dos foguetes que estouravam pelas ruas anunciando mais um ano novo. Estou sempre em conflito com o tempo, sei que essa contenda será constante até eu ser pugilado definitivamente por ele. Tarde. Sol à pino. Impossível ter ânimo para sair e encarar essa incidência mortal dos raios solares. Aqui bem próximo á linha do Equador é assim mesmo: das onze da manhã até as três da tarde fica difícil para expôs-se ao astro rei! Passam das quatro e meia agora, eis que agora me aventuro a perambular pelas ruas da urbe, tarde de ócio de um despotismo do nada a fazer! Caminho à esmo sem ter itinerário definido , meu percurso é planejado imediatamente a medida que meus passos evoluem. Nessa jornada, percebo o quanto nosso espaço urbano está modificado, percebo a diferença maior ainda naqueles onde a tempos não faço estada. Nossa cidade cada dia tem menos espaços livres, menos terrenos vazios. Não sou urbanista, mas compreendo que isso é mau. Onde estão nossos espaços de lazer? Onde estão os campos de terra do nosso país do futebol?– A cidade perde espaço livres e ganha prédios de mau gosto, cafonas, prédios de vários pisos. Ainda a pouco passei por uma alameda ladeada de altas construções de lado a lado. Quando passei por lá fiquei sufocado, o ar não circulava por ali. Avanço. Passo noutro logradouro onde um homem irresponsavelmente despeja litros e litros de água num jato na lavagem de seu semovente. Despudoradamente o homem comente este irresponsável ato. A tarde está quase se despedindo, retorno as cercanias do centro da urbe, prontamente entro no tradicional “Ratisbona” , o café de minha predileção, como ainda é cedo o público presente ali é diminuto. Sento-me na tradicional mesa no lado leste do salão. Solicito ao garçom um licor de jenipapo e fico observando os tipos que campeiam o ambiente. Impressionante como todos estão com os rostos colados a um celular ou coisa do tipo. Esse moços não se dignam sequer a levantar a cabeça para a troca de um simples diálogo real . A situação piora quando o garçom que atende a minha mesa recebe em seu smartphone pousado em um dos bolsos de seu jaleco, um sinal sonoro tal qual um assobio que ato contínuo faz com o barmen retirar o celular e colar a vista detidamente na tela do celular, ele deixa escapar um sorriso no canto da boca. Essa foi à gota d’água para a minha despedida antecipada daquele local. Já chega! O turbilhão de fatos acontecidos neste fim de tarde foi o bastante para que eu retornasse a segura fortaleza que é minha casa, minha birosca de solidão, onde eu me compreendo tudo e convivo com os fantasmas que perambulam e compreendem minha fala subjetiva, minhas idei

sábado, 11 de abril de 2015

Reedição de uma crônica antiga - 11 Abr 2015

Verossimilhança, momento fatal - Crônica - A Ermitoa - 17 de Setembro 2014 A Ermitoa Morava sozinha, os parentes mais próximos já haviam todos cumprido a sina mais certa que é a morte. Essa mulher já com uma idade na qual ninguém sabia ao certo, nem mesmo ela, mais sabiam todos que ela era uma amanuense aposentada, fato que denunciava o avanço de sua idade. Mantinha uma amizade amistosamente distante com seus vizinhos e na sua casa quase nunca ou nunca mesmo recebia nenhum conviva. Os mais próximos, ou os menos distantes, sabiam que em seu lar, as principais companhias eram um sem número de gatos que vagabundeavam na pequena choupana. Dizem as más línguas que a quantidade de felinos diminuíra significativamente nos últimos anos, por pura falta de zelo de sua dona! Os anos de serviço na repartição pública não permitiu que ela construísse grande patrimônio, não fora a pequena casa herdada de seus pais, não teria outro bem semovente ou não. Sua rotina era extremamente simples, mais ainda para uma pessoa que morava só, tinha um fogão em casa mas não usava quase nunca, suas refeições eram feitas num pequeno restaurante suburbano que religiosamente era freqüentado por ela de domingo a domingo, chovesse ou fizesse sol. Os afazeres domésticos eram evitados por ela, realizando tarefas básicas como lavar as poucas roupas de seu enxoval uma vez por semana! Dormia poucas horas a noite,passava muitas horas da noite diante da televisão, complementava as necessidades do sono da noite, nas primeiras horas da tarde de todos os dias! Fazia parte de sua bestial rotina, as caminhadas aleatórias pelas principais ruas do bairro, caminhava descompromissadamente por muito tempo sem maiores preocupação com o tempo! Nesse itinerário quase não interagia com os transeuntes que cruzavam seu caminho, só acenava discretamente para aqueles que julgava mais próximos e confiáveis. De uns tempos para cá a solitária adquiriu o hábito de fazer uso do álcool para preencher as horas do vazio no que fazer! Cumpria suas obrigações etílicas discretamente na solidão do lar, não queria que seus vizinhos dessem alguma notícia desse seu condenável ato. Nos finais de semana era um “rato de sacristia” não perdendo um evento sequer de sua Igreja Católica quase vizinha a sua residência. Nesses dias de cerimônias religiosa, mantinha uma certa cautela nas ações etílicas, precavida de dá bandeira diante os fiéis que a tinha na conta dos mais respeitáveis crentes. E assim se fazia a rotina da solitária mulher, sem parentes ou aderentes, sem muitos afazeres domésticos e tendo como companhia uns gatos rabugentos, o álcool e a fé. Sem exteriorizar suas angústias existenciais de uma vida extremamente solitária e sem maiores ambições!

domingo, 5 de abril de 2015

Conto - Literatura Cearense - Milton Dias - Madrugada I

Homenagem a Literatura Cearense- Um conto do excelente literato Milton Dias - - Extaído do livro ENTRE A BOCA DA NOITE E A MADRUGADA Madrugada I É madrugada, a última deste mês de setembro, e eu mergulho nela sozinho, numa sala pequena, dentro do silêncio grande, que o apito dum guarda desrespeita de vez em quando – e cumpro cautelosamente mais uma insônia, entre lembranças velhas e novas. Uma dessas, a mais antiga, vem dos longes da infância, ainda ao tempo das trevas que a luz elétrica só dissipou muito depois, em Santana do Acaraú: um carro atravessa lentamente a praça enorme da igreja velha, com os faróis queimando a noite jovem – e, de dentro dele, uma bonita voz de homem, voz anônima, forte, lírica, perdida, solta, derrama uma despedida dramática certamente dirigida à bem-amada que o devia escutar soluçando de alguma janela: “Eu vou pra bem longe de ti saudosamente / Adeus minha querida / Querida Guiomar / Adeus, eu vou partir, vou pelo mar.” Quem seria aquela mulher (seria uma mulher ou apenas uma rima?). De quem seria aquela voz que só ouvi uma vez e me transmitiu uma imensa vontade do mar, meu desconhecido, uma grande nostalgia das distâncias, dos mistérios do mundo, deixou-me a imaginação indócil, enquanto o carro, levantando poeira, desaparecia na rodagem, exatamente ali onde um pé de resedá marcava a curva do caminho? Onde andará aquele cantor? Aquela moça onde andará? Será que se uniram? Acabo de ler um trecho de diário alheio e fico pensando que a leitura dos diários me comove mais do que as autobiografias ou as biografias, me parece mais verdadeiro este registro cotidiano dos acontecimentos, dos pensamentos, dos sentimentos – as penas e alegrias, as depressões, as angústias, as vitórias, os fracassos, os amores – tudo posto ali com uma coragem impressionante, os momentos mais íntimos, as horas difíceis, os pequenos dramas, as covardias, os heroísmos, as emoções de cada dia, os medos, os ódios, os ressentimentos, tudo confiado ao papel. E chegada a página final, a pergunta amarga, inevitável – será que valeu a pena registrar assim, minuciosamente, conscientemente, uma vida toda, para depois entregar tudo ao respeitável público (nem sempre respeitador), como quem se desnuda no palco? E vem outra reflexão tácita – a de que aquele que escreveu o Diário, que também teve fome e sede, que conheceu glória e humilhação, que sofreu ambições e se frustrou em muitas delas, e se realizou em algumas, aquela vida que está em minha mão, escrita no papel frio, repousa agora debaixo do chão, já resolveu todos os seus problemas e conflitos terrenos, dorme em paz com Deus. Abro por acaso uma das páginas, vejo uma preocupação momentânea que o martirizou tanto e que agora parece tão mínima! Penso que daqui a pouco será outubro e fico triste. Outubro não me agrada, nem é começo, nem meio, nem fim de ano, o mais antipático de todos, poeirento, calorento. Nele perdi meu pai, nele perdi um amigo – é certamente o que mais me tem cobrado apreensões e sofrências. As paredes desta sala onde me encontro foram testemunhas de outras insônias e as mãos dos que as fizeram levantar já estão vazias definitivamente. Esta mesma pequena sala que agora abriga um homem insone já recebeu noivos para as comemorações e cumprimentos, já acomodou o corpo morto do seu dono, esta sala ouviu conversas e queixas, discussões, esperanças e prantos. A casa toda, em que estou absolutamente só dentro da madrugada, já foi povoada de muitas vozes e de muitos passos de jovens e velhos que desapareceram carregados pela morte ou levados pela vida. Há um silêncio respeitoso e tranqüilizante envolvendo, purificando o mundo, velando, protegendo o sossego e o sono, um silêncio discreto que esconde o que agora ocorre nas sombras protetoras. Quem sabe, alguém está se matando neste momento, alguém deve estar amando neste minuto. Tem gente chegando, tem gente partindo, a esta hora a população está crescendo. Ou está diminuindo? Abro um instante a janela, consulto o céu: não há uma estrela, fugiram todas, me deixaram no mais completo abandono. Nem posso imitar o poeta que conversou com elas toda a noite, tresloucado amigo. Agora um galo solitário solta um grito precursor, distante – será mesmo hora de cantar anunciando a aurora, ou será um galo tresmalhado, desinsofrido? Olho o relógio, são duas horas da manhã, concluo rápido: aquele também está sem sono – e canta. Um latido inesperado de cachorro se levanta aqui na Praça da Escola Normal. Será um protesto ou um apelo, uma queixa ou uma denúncia, um lamento, um convite ou apenas a voz dum cão que não dorme? Escuto religiosamente os silêncios e as vozes da madrugada – enquanto a minha rua dorme, eu guardo, sozinho, de olhos acesos, a insônia fecunda. Entre a boca da noite e a madruga – 1971

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Conjunção Feliz - David Duarte

Conjunção Feliz - Canção de David Duarte Eu e Vc num balão Sumindo, de tanto voar Levando a nossa paixão Seguindo pra qualquer lugar Fantasia, na magia O balão de papel já se perdeu Que alegria, um pontinho Brilhando no breu... Olha que conjunção Mais linda meu amor Dentro do meu coração A lua veio se por Nosso sonho do tamanho Do céu infinito Nosso lugar mais bonito Das estrelas que querem Brilhar só pra nós dois Nosso balão vai subindo, singrando Levando esse amor do outro mundo Cruzando o céu do país Nosso balão colorido vai iluminando Este escurando profundo, perdido Voando ao léu, tão feliz.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Crônica: Os Mapas da abstração - 30 de Janeiro 2014

Como são mágicos os mapas! Como é importante essa ferramenta de orientação e localização. Tão importante para que se chegue ao destino mesmo sem nunca ter ido a ele! Não precisa nem ser um esperto em Geografia, cartografia ou Matemática para poder se situar sob orientação de um mapa. Ah como o estudo sobre a localização na terra foi importante para os colonizadores! Como seria possível aos ibéricos terem chegado por essas terras não fosse o estudo cartográfico do planeta terra? A posição de um astro no firmamento serve de referencial para o posicionamento. Qual será o asteróide que me guia? Desde quando ele me acompanha? Por que eu não percebi sua presença nas cercanias de minha visão periférica? Bobagem fazer todos esses questionamentos, ficar impressionado com tais fatos, uma vez que a cada dia que passa me torno mais solitário, um ermitão. Para que vou me impressionar com artefatos de atlas, se ultimamente quase não saio mais nem de minha casa?! Daqui a pouco me tornarei um imóvel , um imóvel qualquer da casa , tal qual uma geladeira, estou tão frio por dentro e por fora do que uma geladeira estática num canto da cozinha da casa. Para quê mapa se não há necessidade de seu uso nesse meu pequeno tugúrio? Impossível me perder entre estas quatro paredes encardidas pela ação do tempo! Na verdade me perco dentro de mim mesmo, procuro encontrar poemas que eu compus há tempos atrás e não tomei nota, nem recordo como era sua estrutura! Esses se perderam pelo universo gigantesco de minhas divagações abstratas diárias. Perdeu-se ainda em meu cérebro, o acorde de uma canção antiga que eu gostava de ouvir nas horas de ócio. Fugiu também de minha mente a imagem daquela antiga paixão juvenil, não consigo restituir as peças que formavam o rosto daquela jovem, era bela sua feição, isso eu lembro bem, mas mesmo assim não consigo montar sua fotografia, só uma quase caricatura espessa. Preciso de um mapa, mas não de um mapa tradicional e metódico. Um mapa em que eu encontre as conexões psíquicas desfeitas, uma solução para os embates ao longo da vida. Um mapa que refaça afetos, que forneça coordenadas para outras paragens sossegadas dentro de mim mesmo. Um lugar oculto e plácido dentro do meu eu e da noite. Um GPS que encontre o Eldorado íntimo e objetivo onde emana prosperidade e paz. Talvez o homem ainda não tenha encontrado encontrou a solução para isso, mas a longo prazo, quem sabe, seja possível se construir a cartografia psicológica humana e assim usarei de verdade um mapa.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Crônica : Solidão de uma Manhã Qualquer - 23 de Janeiro 2015

Calmo, silente no meu lugar, estou solitário em casa refletindo a respeito da vida. Compartilho, automaticamente, esse pequeno lugar tão meu e tão solitário com meus anjos e demônios do dia-a-dia. Começo a fazer questionamentos vários. Algumas inquirições a mim mesmo. Seria possível colher num mesmo local, todas as cenas que ocorrem mundo afora nesse momento? Teria sentido ver todas as cena s e atos de todos tantos lugares dessa bolota chamada Terra?  Como em um filme cujas cenas exporiam  todos os fatos acontecidos no entorno desta esfera habitável por nós e por outros .  Há uma lauta variedade de fusos horários, locais, paisagens, lugares. Tudo diferente, assim como culturas, fatos e ações, pessoas várias. Provavelmente em algum lugar do mundo, a essa hora, alguém dorme um sono profundo, um sono bom e tranqüilo. Enquanto em outro lugar, uma alma insone tenta conciliar o sono numa tarefa hercúlea da madrugada alta. No lar de algum país desse vasto mundo  ocorre um farto banquete,  mas em outro  lugar qualquer desse mesmo país,  um sem número de famélicos esperam as sobras de um restaurante suburbano, às três da tarde. Enquanto um atleta percorre uma ultra maratona esbanjando saúde, em algum leito de hospital uma jovem agoniza esperando a hora fatal com o corpo carcomido por muitas mazelas. Há ainda a essa exata hora um funcionário bastante atarefado trancado numa sala burocrática em meio a arquivos, papeis e carimbos, enquanto que no mesmo instante,  não muito distante daí, um homem simples realiza a prazerosa tarefa de pescar num lago de águas tranquilas e serenas, completamente desprendido de preocupações maiores. Também a essa hora, numa estação de pesquisa científica na Patagônia, alguém trabalha bastante agasalhado para enfrentar a baixíssima temperatura. Contraditoriamente, em outro lugar, trabalhadores da construção civil buscam um filete de sombra para se protegerem do intenso calor emanado dos raios solares. Ainda a essa hora um bebê nasce em uma maternidade qualquer da Nigéria, enquanto na Suécia , uma esquife cruza os portões de um cemitério suburbano  no ato final de um sepultamento. No momento igual, há um conflito armado no Camboja, enquanto ocorre um casamento coletivo no Canadá. No mesmo instante, empresas decretam bancarrota  enquanto simultaneamente  uma mulher confere um bilhete de loteria premiado com uma grande monta. .  

Tudo ocorre ao mesmo tempo, fenômenos sociais  opostos ocorrem em várias partes do mundo. Simultaneamente a essa hora há dores e prazeres, lágrimas e sorrisos, ódio e amor, altruísmo e egoísmo . Fadiga e ócio, lassidão e disposição corporal. Onipresença, queria ter essa capacidade, talvez até tivesse mais inspiração para terminar  um livro que venho trabalhando a anos! Enquanto penso nesses fatos,  me vejo preso solitariamente ao vazio do meu  tugúrio numa manhã qualquer da semana, o relógio marca dez horas. Há livros na minha estante,  não li nem a metade deles. Em cada cômodo da casa solitária há um cinzeiro cheio de guimbas fétidas, há uma angústia poética em cada cinzeiro. Há em mim uma vontade da onipresença, o desejo de um poder fantástico e absurdo do ponto de vista científico. Na realidade, existe esse desejo em mim, porém  o ócio me limita até minha ida a esquina numa busca desnecessária de cigarros. É muito despautério de minha parte ter tal pretensão. 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Crônica: Epitáfio e Pecúlio - 15 de Janeiro 2015


A morte quase sempre nos pega sem esperar e eis que de repente chega a notícia de falecimento de um ou outro conhecido, amigo, parente ou vizinho. Ontem eu fui acompanhar um funeral de um morador cujo tugúrio se avizinha ao  meu, senti-me na obrigação de  cumprir esse ato de piedade cristã, inevitável não acompanhar o cortejo fúnebre até o campo santo.Tudo é estranho nessa nossa vida, pois até ontem o defunto ( que a essa hora ainda não era um) fazia planos e mais planos para o futuro. Falava em projeções, projetava empreendimentos, viagens, outros planos a longo prazo.
Eis que o cortejo segue,  o sepultamento foi no meio da tarde, tarde de sol dentre tantas tardes de sol ocorridas na existência daquele homem agora morto.A procissão dos que acompanhavam o caminho do cemitério, era feita em meio a ladainhas e jaculatórias. No cortejo quase todas as pessoas trajavam roupas pretas, apesar do calor daquela hora da tarde, homens sisudos e mulheres lacrimosas. O conglomerado caminhava unido, em cada pensamento dos ali presentes, pairavam dúvidas e incertezas quanto a instituição da morte. Todos ali, por um momento, pensavam em suas mortes. A marcha continua, o ataúde vai a frente liderando os passos de todos rumo ao campo santo.
Finda a cerimônia resolvi percorrer as ruas do cemitério em busca de túmulos de parentes e ou amigos. A ausência prolongada de minhas estadas por esse ambiente fez com que aumentasse a dificuldade em encontrar tais catacumbas, nessa busca encontrei vários túmulos, dos mais variados tipos, uns mais bem erigidos arquitetonicamente, outros modestos, quase sem identificação de nome ou fé, somente as inicias de cada nome e uma modesta cruz,  me detive entre tantos eles, fiz orações em outros, desconhecidos ou nem tanto, colhi epitáfios, fiz reflexões sobre tais frases e lembrei que eu ainda não tinha nenhum epitáfio para  por sobre minha laje. Divaguei sobre tal fato e estranhei por  ser este meu único bem a ser deixado em testamento , um epitáfio, este será meu único pecúlio deixado em testamento cartorial! Ilusão minha.  Seria mesmo necessária uma frase de efeito para por sobre minha lápide? A quem poderia interessar? Nem mesmo um visitante desavisado ao cemitério se interessaria por isso.  Ora, se ninguém nunca se interessou nem pelos meus quatro sonetos alexandrinos que sempre divulguei na mesas de bares que perambulei, por que iam se interessar por uma frase escrita sobre um lápide de cemitério? É muita inocência crer em tais circunstâncias.